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Sci Files: FRINGE – o ARQUIVO X de J.J. Abrams


Anna Torv como Olivia Dunham

FRINGE (ou Fronteiras, título nacional que não pegou), série de TV aberta da produtora Bad Robot de J.J. Abrams que durou cinco temporadas, estreou na Fox norte-americana em 2008 já com a morte anunciada de LOST, deixando o público ansioso por uma nova série repleta de mistérios criada pelo produtor/diretor. Nela conhecemos a agente especial do FBI Olivia Dunham (Anna Torv), que após a morte de seu colega e namorado John Scott (Mark Valley) devido a uma contaminação de origem desconhecida, é designada para a unidade especial “Fringe”, chefiada por Phillip Broyles (Lance Reddick), com o propósito de investigar o súbito aumento de casos envolvendo fenômenos como telepatia, teletransporte, parasitas bizarros e doenças incomuns.

Na sua equipe ela tem o auxílio do Dr. Walter Bishop (John Noble), um genial cientista excêntrico que passou os últimos 17 anos em um hospital para doentes mentais. O filho de Walter, Peter (Joshua Jackson), também um gênio a seu modo, porém malandro e sardônico, tem de entrar para a equipe mesmo contra a sua vontade, já que ele é a única pessoa capaz de assumir a guarda legal de seu pai e retirá-lo do sanatório. Após a exibição do piloto de nível cinematográfico, com suas duas horas de suspense centradas em um incidente grotesco com a tripulação e os passageiros de um avião comercial (uma óbvia referência a LOST), não restaram dúvidas – vinha muito mistério por aí, porém mais na linha de ARQUIVO X do que na da série anterior de Abrams.

Idealizada por Abrams em parceria com seus colaboradores habituais Alex Kurtzman e Roberto Orci, em sua primeira temporada FRINGE não se esforçou muito para esconder a inspiração na série de Chris Carter. Desde a abertura, com o nome de fenômenos paranormais acompanhados na tela por um inspirado tema musical do próprio Abrams, passando pelos episódios “monstro/fenômeno da semana”, pela mitologia que inclui metamorfos, a tensão sexual existente entre o casal de protagonistas e até mesmo pelas cenas de ARQUIVO X que vemos em determinado episódio, sendo exibidas em uma TV, o programa com frequência transitou por aquela zona nebulosa que fica entre a homenagem e a imitação.

Joshua Jackson como Peter Bishop

No que se refere à dinâmica e inter-relacionamento dos personagens, qualquer um que já tenha assistido a alguma série ou filme de Abrams sabe da importância que tem suas relações privadas e familiares nas tramas. Aqui, primeiramente, temos como mola propulsora a perda amorosa de Olivia, e logo em seguida a introdução do conturbado relacionamento pai-filho entre Walter e Peter. Posteriormente temos a introdução da irmã e sobrinha de Olívia, mas sem dúvida são os momentos que envolvem o patriarca da família Bishop que atraem nossa maior atenção. Walter, numa personificação magnífica de John Noble (da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS), é um personagem adorável, que com seu jeitão de cientista louco, sempre trocando o nome de sua assistente, a agente Astrid (Jasika Nicole), tenta reconquistar o carinho do filho em meio às suas excentricidades. Mas, além disso, ele esconde um passado sombrio.

O arco de fundo de FRINGE é estabelecido já de início, e por várias vezes remete às pesquisas que Walter realizava antes de seu colapso mental. A equipe acaba descobrindo uma ligação entre vários fenômenos incomuns, o que leva à constatação de que alguém está por trás de uma série de experimentos científicos avançados. Ao longo da temporada Dunham e seus colegas trabalham diligentemente para descobrir o propósito de tais experimentos, e quem seria seu responsável. As pistas frequentemente os levam à poderosa multinacional Massive Dynamic, da enigmática Nina Sharp (Blair Brown) e por coincidência fundada pelo ex-colega de Walter, William Bell (Leonard Nimoy, o eterno Sr. Spock de STAR TREK).

John Noble como Walter Bishop

A certa altura da temporada somos apresentados ao conceito dos universos paralelos, e a partir daí FRINGE passa a rumar para a ficção científica hardcore. Adicionando mais mistério à trama surgem os Observadores, sujeitos carecas de chapéu vestidos em ternos escuros estilo anos 1960, que visitam diversos períodos da história para testemunhar acontecimentos relevantes – e não raro catastróficos. O excelente gancho do final da temporada mostra Olivia finalmente encontrando William Bell nas Torres Gêmeas de Nova York – obviamente em outro universo.

Após seu primeiro ano FRINGE resistiu ao teste de um público já saturado por séries repletas de enigmas intermináveis – algo que a concorrente FLASHFORWARD, por exemplo, tentou mas não conseguiu. Isso talvez porque trazia o valorizado nome de Abrams na produção, mas creio que isso aconteceu principalmente porque seus mistérios não foram demasiadamente prolongados. Assim, em pouco tempo os espectadores tem os principais elementos da mitologia – o universo alternativo e, principalmente, o envolvimento de Walter e Peter – bem estabelecidos.

Na segunda temporada John Noble continuou roubando a cena como Walter, e ficamos sabendo mais do trabalho que o cientista amalucado desenvolveu com seu parceiro William Bell, que envolveu Olivia e foi a causa dele ficar internado por quase 20 anos. Quanto a Olivia e Peter, no decorrer dos episódios o relacionamento entre eles vai se solidificando. Os misteriosos Observadores continuaram a aparecer em momentos-chave, e um dos melhores e emotivos episódios acompanha a equipe tentando capturar um deles, que raptara uma moça. Mas é a paternidade de Walter, que o levou a tomar uma crucial decisão relativa ao seu filho (o Peter que conhecemos fora salvo e trazido ainda criança do universo paralelo por ele, após a morte da sua versão daqui), a força-motriz do programa. Nos dois episódios finais da temporada a equipe, utilizando os poderes paranormais de Olivia e de outras três ex-cobaias de Walter, vai para o outro universo para sabotar os planos do “Walternado” (o Walter alternativo, que lá é Secretário da Defesa), onde Olivia conhecerá sua réplica e William Bell se incorporará à ação.

Leonard Nimoy como William Bell

Mas ao paulatinamente trocar a estrutura mais convencional da maior parte dos programas de TV aberta por ficção científica hard, a audiência de FRINGE caiu, o que levou a Fox a primeiramente mudar seu dia de exibição e, posteriormente, cogitar seu cancelamento – o que felizmente não o fez. Assim, concentrados em um público menor mas fiel, na terceira temporada os realizadores soltaram mais sua criatividade. Vale ressaltar que, a essa altura, Abrams já se afastara há muito da produção para dedicar-se aos novos filmes de STAR TREK e outros projetos, levando junto Orci e Kurtzman. A série, então, ficou nas mãos de Jeff Pinkner, outro integrante da produtora Bad Robot de Abrams, e Akiva Goldsman.

A equipe consegue retornar mas ninguém desconfia que a Olivia que voltou é a de lá (a “Falsolivia”), uma vez que a daqui foi capturada pelo “Walternado” e sofre lavagem cerebral para ser usada para viajar entre as duas realidades, ajudando-o em sua guerra contra a nossa dimensão. Aqui, a “Falsolivia” infiltrou-se na divisão Fringe, consumou seu relacionamento romântico com Peter, trabalhando para ocultar da equipe um mistério que une os dois universos. Quando finalmente a “nossa” Olivia retorna, sua confiança em Peter fica abalada e o relacionamento dos dois desmorona, mas mesmo assim eles têm de trabalhar com Walter para decifrar o enigma de uma antiga máquina, da qual Peter é a peça central.

Este é o arco principal da temporada, mas obviamente temos os episódios com o “fenômeno bizarro da semana”, e com um atrativo a mais: vários deles se passam integralmente no universo alternativo (nestes os créditos iniciais são diferentes, vermelhos), onde acompanhamos as investigações da equipe de lá, que ainda conta com Charlie (Kirk Acevedo), o agente que foi morto no início da segunda temporada. Isto deu à maior parte do elenco a rara oportunidade de interpretar regularmente duas versões do mesmo personagem, e é divertido ver as nuances empregadas pelos atores para diferenciar uma da outra. Some a tudo isso os misteriosos Observadores, um episódio quase que totalmente feito em animação centrado em William Bell e mais outro passado em 1985, com visual e trilha sonora condizentes, e temos a série em seu momento mais criativo – e novamente sob o risco de um cancelamento que, de novo, foi evitado. Ainda bem, porque o gancho deixado no final da temporada foi simplesmente bombástico.

A quarta temporada começou com a enorme responsabilidade de lidar com o que aconteceu no encerramento da anterior, ou seja, o apagamento de Peter da linha temporal após ele usar a máquina para criar uma ponte entre os universos, estabilizá-los e fazer cessar os ataques do “Walternado”. Assim, os episódios iniciais mostram uma realidade onde Peter nunca existiu, e apesar dos esforços de Seth Gabel como o novo personagem Lincoln Lee, a série se ressentiu disso. Foi um momento crucial onde a série, mais uma vez, mudou os rumos de sua mitologia, porém agora deixando os fãs incertos sobre se tudo que ocorrera anteriormente realmente importara, mas, principalmente, preocupando-os sobre o que ainda viria. Felizmente a maior parte das novidades foram bem introduzidas, de modo que a nova perspectiva dos velhos personagens, ainda que não necessariamente muito bem-vinda, mostrou-se suficientemente interessante. Após quatro episódios Peter voltou (de uma forma, digamos, anti-climática), mas o personagem passou a maior parte do tempo tentando partir, originando uma instabilidade narrativa que tornou o primeiro terço da temporada inconsistente, com episódios que pareciam não levar a parte nenhuma.

Lance Reddick como Broyles

A audiência atingiu seu ponto mais baixo, e o fantasma do cancelamento, que agora parecia inevitável, voltou a assombrar a produção. Felizmente a qualidade dos roteiros melhorou, e a temporada nos brindou com alguns dos melhores episódios de toda a série, que foram deixando para trás a questão da nova e estranha linha temporal. Tivemos até a volta de um dos melhores vilões recorrentes do programa, David Robert Jones (Jared Harris), que havia aparecido pela última vez na primeira temporada. E chegamos então ao episódio “Letters of Transit”, uma amostra dos realizadores ao público dos rumos que a série tomaria caso não fosse cancelada. Ele se passa totalmente no ano de 2036, 21 anos após os Observadores terem assumido o controle da sociedade humana. Walter, Peter, Olivia e Astrid, que estavam em animação suspensa, são reanimados com a ajuda de dois agentes da Divisão Fringe para enfrentarem os Observadores. Um deles é Etta (Georgina Haig), ninguém menos que a filha adulta de Peter e Olivia. Os dois episódios finais encerraram de forma satisfatória o arco de William Bell e prepararam o terreno  para o mundo que antevimos em “Letters of Transit”. Pela primeira vez uma temporada de FRINGE não terminou com um cliffhanger, já que havíamos chegado ao fim. Mas eis que…

No “apagar das luzes” a Fox entrou em acordo com a Warner Bros. Television, que produzia a série juntamente com a Bad Robot, e renovou FRINGE para sua quinta e última temporada, que teve apenas 13 episódios (as demais tiveram 20, 23, 22 e 22, respectivamente) – suficientes para que fossem atingidos os 100 necessários para entrar no sistema de syndication. A temporada foi feita sob medida para o nicho de audiência que permaneceu fiel desde o início, e apesar de não ser isenta de falhas sem dúvida é bem melhor que a anterior. Com menos episódios e focada na mitologia da série, FRINGE ficou mais parecida com uma produção atual feita para a TV paga ou streaming. A temporada já inicia direto no mundo que vimos em “Letters of Transit”, dando aos espectadores um quadro mais detalhado da invasão dos Observadores. A personagem de Etta foi aprofundada, tornando-se uma peça-chave para a conexão dos velhos personagens a este futuro.

Jasika Nicole como Astrid

Mas nem tudo são flores, e mesmo entre o número reduzido de episódios, alguns da primeira metade da temporada são quase descartáveis. Felizmente as coisas ficam mais impactantes a partir da morte de Etta, o que deixa a família Bishop de luto e dá ao movimento de resistência uma mártir. Peter ganha as habilidades de um Observador, Nina se sacrifica em grande estilo e temos uma engenhosa ligação com uma trama da primeira temporada, quando o garoto Observador, Michael, reaparece e redefine o que pensávamos sobre a série. O grande final em duas partes, onde mais uma vez a equipe usa os recursos do laboratório de Walter para se infiltrar no QG dos Observadores, é cheio de referências a episódios e tramas anteriores. Ele finalmente conclui a série, depois de muitas atribulações, de forma satisfatória e adequada, mas ainda deixa algumas pontas soltas e perguntas não respondidas que incluem, obviamente, as questões do paradoxo da linha de tempo e outras coisas que aparentemente os roteiristas esqueceram. Mas daí também podemos perguntar, porque responder ou resolver tudo? Não é melhor deixar algo para exercitar o raciocínio do espectador?

FRINGE encerrou sua jornada em 2013, sem nunca ter atingido a fama ou mesmo a memória afetiva de ARQUIVO X (que aliás também teve seus altos e baixos, em especial nas duas temporadas do revival). Certamente algumas de suas decisões narrativas fizeram com que muitos abandonassem o programa, mas hoje esta admirável série ainda é cultuada por muitos fãs de ficção científica que souberam apreciar sua proposta. Ela foi exibida no Brasil pelo canal pago Warner e pelo SBT, além de ter sido lançada em DVD, sendo uma temporada também em Blu-ray. Atualmente suas cinco temporadas estão no catálogo do streaming Globoplay, com o título de Fronteiras.

Jorge Saldanha

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