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Resenha de Série: RUPTURA – 1ª TEMPORADA


Severance – Season 1 (2022)
Elenco: Adam Scott, Britt Lower, Zach Cherry, John Turturro, Tramell Tillman, Patricia Arquette, Christopher Walken, Jen Tullock, Dichen Lachman, Marc Geller, Michael Cumpsty, Yul Vazquez, Nikki M. James
Criação: Dan Erickson
Direção
: Ben Stiller, Aoife McArdle
Cotação: 5,0/5,0

ATENÇÃO: caso você ainda não tenha assistido a 1ª temporada de Ruptura, o texto a seguir contém SPOILERS.

Após o revival das antologias de ficção científica na TV por assinatura e, posteriormente, nos serviços de streaming, vieram produções que parecem ser conceitos expandidos de episódios de séries como Além da Imaginação e Black Mirror. Assim, temos agora produções que esticam um argumento que caberia perfeitamente num segmento com 30 minutos em uma temporada de oito a dez episódios, como vimos nas recentes Além da Margem (Outer Range) e Anos-Luz (Night Sky), ambas do Amazon Prime Video. Os resultados variam, e não raro lá pela metade o conceito perde o fôlego e o ritmo, truncados por dramas de personagens, discussões de relação, inclusão e representatividade forçadas, etc. Outras produções serializadas sofrem deste mal, como atesta a 2ª temporada de Star Trek: Picard, cujo arco até daria um bom filme da franquia mas que, para render dez episódios de uma hora cada, recorre a subtramas chatas e desnecessárias. Felizmente Ruptura (Severance), criada pelo escritor Dan Erickson, evita essas “armadilhas” e nos entrega nove episódios perfeitos, baseados numa ideia que parece saída diretamente de Black Mirror.

Erickson, aliás, admite que a criação de Charlie Brooker foi uma das suas inspirações para a série, que se passa em uma realidade indeterminada (celulares modernos convivem com computadores e carros típicos da década de 1980) onde é criada uma engenhoca tipicamente sci-fi – um chip que, implantado no cérebro de uma pessoa, cria uma personalidade específica para o ambiente de trabalho (o interno), que não lembra nada do seu verdadeiro eu (o externo), e vice-versa. A Ruptura, como é chamado o procedimento cirúrgico, fora criada e adotada pela poderosa Lumen Industries, fundada pelo reverenciado (e supostamente falecido) Kier Eagan, com o objetivo de evitar que problemas pessoais interferissem na produtividade dos funcionários. Ao mesmo tempo, o procedimento evitaria que as pessoas, em suas vidas privadas, tivessem suas rotinas afetadas por assuntos do emprego.

A trama acompanha um grupo de quatro funcionários da Lumen, encabeçados por Mark (Adam Scott). Ele é o novo diretor do Departamento de Mineração de Macrodados, onde também labutam Helly (Britt Lower), Dylan (Zach Cherry) e Irving (John Turturro). Os funcionários não entendem direito o que estão fazendo, com seu trabalho se limitando a selecionar números aparentemente aleatórios em seus terminais de computador. Pior ainda: isolados, pouco ou nada sabem a respeito dos outros departamentos da Lumen, já que a comunicação interna é desestimulada ou mesmo proibida pela empresa.

Aos poucos o quarteto questiona seu trabalho e os objetivos da corporação, e acompanhados pela hipnótica trilha incidental de Theodore Shapiro, eles começam a se aventurar por seus desérticos corredores brancos, assépticos e labirínticos, e acabam “descobrindo” outros crípticos departamentos. Num deles (o de Ótica e Design), encabeçado por Burt (Christopher Walken), são criados e armazenados quadros e outros registros visuais; noutro, um homem solitário alimenta um punhado de cabritos, naquele que talvez seja o momento mais bizarro da série. Por suas transgressões, alguns do grupo são enviados à Sala de Descanso, onde são doutrinados pela misteriosa Ms. Casey (Dichen Lachman).

A série começa mostrando mais do ambiente da Lumen, mas progressivamente vemos mais da vida externa dos personagens, principalmente de Mark. Interpretado com o bom-mocismo habitual de Adam Scott, Mark é um sujeito deprimido que se ofereceu para fazer a Ruptura a fim de melhor suportar a perda da esposa. Solitário, tentando começar um novo relacionamento e eventualmente visitando sua irmã grávida e o cunhado, ele é vigiado de perto pela vizinha, ninguém menos que um disfarce de sua chefe na Lumen, Ms. Cobel (Patricia Arquette), que como outros funcionários de alto escalão não se submeteu à Ruptura. Ele realmente começa a ter dúvidas sobre a Lumen quando é procurado pelo perturbado chefe anterior do seu departamento, que desfez a Ruptura e manteve as memórias das duas personalidades.

Já Helly, a mais nova do departamento de Mark, tem muitas dificuldades de adaptação e pede demissão, negada veementemente por sua externa em uma mensagem de vídeo. Com uma rotina que considera insuportável, ela tenta o suicídio. Não tendo sucesso, Helly se junta aos colegas na missão de descobrir a verdade sobre a empresa e seu fundador. Após grande suspense, as grandes revelações da temporada chegam no cliffhanger do episódio final, após o grupo descobrir uma maneira de ativar suas memórias fora da Lumen por um período limitado. As principais envolvem a descoberta, por Mark, de que sua esposa está viva e quem ela é, e a real identidade de Helly (com as consequências do que ela faz quando assume o controle de sua externa), deverão ter grande peso na já confirmada 2ª temporada.

Ruptura, que tem o ator Ben Stiller como um dos produtores e diretor de seis dos nove episódios de sua temporada inicial, consegue o raro feito de ser uma série atual de ficção científica baseada em drama que, em nenhum momento, fica monótona ou desinteressante. Enquanto questiona as relações de trabalho abusivas (aqui a aposentadoria do funcionário equivale à sua morte, já que as memórias daquela personalidade deixam de existir) e a (falta de) ética das grandes corporações, o programa entrega um drama psicológico dos personagens real, palpável, graças à direção precisa de Stiller e, principalmente, à fantástica atuação do elenco, seja de veteranos ou de novatos. A série é outra prova da excelência do catálogo do Apple TV+, que apesar de ser bem menor em comparação ao dos principais streamings concorrentes, esbanja uma invejável qualidade.

Jorge Saldanha

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