Resenhas - Filmes

Resenha de Filme: JORNADA NAS ESTRELAS – O FILME: A EDIÇÃO DO DIRETOR


Star Trek The Motion Picture: The Director’s Edition, EUA, 1979/2000/2022
Gênero: Ficção Científica
Duração: 136 min.
Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley, James Doohan, Nichelle Nichols, George Takei, Stephen Collins, Persis Khambatta, Walter Koenig
Trilha Sonora Original: Jerry Goldsmith
Roteiro
: Harold Livingston, Alan Dean Foster
Direção: Robert Wise
Cotação: 3,5/5,0

Costumo dizer que os filmes originais de STAR TREK não são grandes obras. Mas isso por si não deve ser visto como um demérito a eles, mas como a constatação fática de que os mais queridos pelos fãs são aqueles que melhor exploram os elementos das séries originais, e não os cinemáticos. Afinal, foi na tela pequena que eles aprenderam a amar as aventuras dos tripulantes da USS Enterprise, e no fundo o que querem é ver mais do mesmo – ainda que com o acabamento superior de um filme. Em meados dos anos 1970 Gene Roddenberry estava desenvolvendo para a CBS/Paramount uma segunda série da franquia, STAR TREK: PHASE 2, porém o sucesso de GUERRA NAS ESTRELAS (1977) provou que as space operas, novamente, poderiam ser lucrativas nos cinemas.

Assim, aquele que seria o piloto da série acabou dando origem a JORNADA NAS ESTRELAS – O FILME (Star Trek – The Motion Picture, 1979), o único dos longas originais a receber tratamento digno de uma produção cinematográfica de grande orçamento. Inclusive, foi um dos últimos filmes com uma introdução orquestral antes dos créditos (nos moldes de épicos de Hollywood como BEN HUR), onde ouvimos “Ilia’s Theme”, uma das mais belas composições da carreira do falecido Jerry Goldsmith. Contando com uma equipe de primeira linha, encabeçada pelo famoso diretor Robert Wise (O DIA EM QUE A TERRA PAROU, O ENIGMA DE ANDRÔMEDA), e com o renomado escritor Isaac Asimov como consultor científico, o filme é uma releitura mais cerebral e ampliada do episódio da SÉRIE CLÁSSICA “Nômade”. Nele, o agora Almirante James T. Kirk (William Shatner) reúne sua velha tripulação a bordo da recém modernizada nave estelar Enterprise, com a missão de interceptar uma misteriosa e devastadora nuvem de energia alienígena que se dirige para a Terra.

Com um script conturbado em razão dos conflitos criativos entre os roteiristas, Roddenberry e até mesmo com os astros William Shatner e Leonard Nimoy, ele resultou longo, frio e com uma trama cerebral que não explora todo o potencial do reencontro do trio Kirk, Spock e McCoy a bordo da Enterprise. Além disso o filme foi lançado às pressas com problemas na edição e até com alguns efeitos visuais mal finalizados, embora supervisionados por feras como Douglas Trumbull (2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO) e John Dykstra (GUERRA NAS ESTRELAS). Como resultado, os longas seguintes foram menos ambiciosos, com orçamentos bem menores e suas tramas evitaram o hard sci fi, parecendo-se, como muitos críticos os classificaram, com “episódios mais longos da série de TV”. O que, como já referi, não é um demérito por si.

Robert Wise nunca escondeu sua insatisfação com a versão de cinema de JORNADA NAS ESTRELAS – O FILME, até que finalmente, em 2000, ele pôde lançar em DVD sua Edição do Diretor, feita em associação com o supervisor de restauração Mike Matessino, o produtor David C. Fein e o supervisor de efeitos visuais Daren Dochterman. Wise retirou alguns trechos de diálogos da montagem original e inseriu outros que haviam ficado de fora, a fim de tornar o filme mais dinâmico e polir sua trama. Porém, o que fica mais aparente é a adição ou substituição de algumas tomadas de efeitos visuais e pinturas de fundo, como as cenas que se passam no planeta Vulcano, da Enterprise destruindo um asteroide no “buraco de verme”, o encontro da Enterprise com a entidade V’Ger (podemos agora ter uma visão externa de certas cenas que antes apenas assistíamos de dentro da nave), e a que talvez seja a mais notável – a aparência da nave V’Ger quando ela se aproxima da Terra.

As novas cenas de efeitos, realizadas com base em storyboards originais, completam bem aquelas realizadas por Douglas Trumbull e John Dykstra (que, ao contrário do que seria de se esperar, não foram remontadas para eliminar os recortes de composição – eles ainda estão lá). E alguns novos segmentos, como o da lágrima de Spock, ajudam a entender a verdadeira dimensão da história. Sim, ela aborda os questionamentos que qualquer ser pensante se faz em determinado momento da sua existência – “quem sou eu, quem me criou, o que há além disso?” -, mas também trata das jornadas pessoais de Kirk e Spock. O primeiro, após a promoção e passar anos exercendo funções burocráticas, reencontra sua razão de ser no comando da Enterprise; e o vulcano, após tentar eliminar por completo suas emoções, finalmente aceita que terá que lidar com elas por toda a sua vida. De um modo geral os acréscimos e mudanças não destoaram do conjunto, possibilitando que o filme melhorasse em termos de ritmo, apesar do acréscimo de quatro minutos em relação à versão de cinema, e de refinamento visual.

O maior problema é que, em 2000, o novo corte fora finalizado em resolução 480p, com base numa matriz que estava longe de ser livre de artefatos e danos de película, o que o deixou de fora da era da alta definição. Felizmente, 21 anos depois, David C. Fein e sua equipe conseguiu da Paramount a verba necessária para realizar esta completa restauração da Edição do Diretor, em UHD. O filme foi re-escaneado a partir dos negativos originais, teve sua paleta de cores original restaurada e todas as sujeiras e imperfeições da imagem foram eliminadas. Os efeitos visuais CGI adicionados à Edição do Diretor foram cuidadosamente refeitos em 4K, de forma a se integrar perfeitamente ao resto do filme. Por fim, a nova faixa de áudio Dolby Atmos, além de deixar os efeitos sonoros mais dinâmicos, valorizou a clássica trilha de Jerry Goldsmith, que ganhou uma nova mixagem a partir das fitas masters de 1979.

Neste mês de maio JORNADA NAS ESTRELAS – O FILME: A EDIÇÃO DO DIRETOR ganhou um relançamento limitado em cinemas dos EUA, onde também está disponível no streaming Paramount+, porém ainda sem previsão de entrar no catálogo do Brasil. Pode ser que chegue por aqui em setembro, quando o longa será lançado por lá também em mídia física (BD e UHD BD).

Jorge Saldanha

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