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Resenha de Série: DOCTOR WHO – FLUX – 13ª Temporada


Doctor Who – Flux – Series 13 (2021)
Elenco: Jodie Whittaker, Mandip Gill, John Bishop, Jacob Anderson, Kevin McNally, Sam Spruell, Barbara Flynn, Craige Els, Jonathan Watson, Thaddea Graham, Rochenda Sandall, Jemma Redgrave, Craig Parkinson, Nadia Albina, Steve Oram
Criação: Chris Chibnall
Direção: Vários
Cotação: 2,5/5,0

Atenção: caso você ainda não tenha assistido a 13ª temporada de Doctor Who, o texto contém SPOILERS!

Já na reta final da sua fase como showrunner, que também será a despedida de Jodie Whittaker como protagonista, Chris Chibnall adotou um formato diferente nesta 13ª temporada de Doctor Who: para minimizar custos e os impactos da pandemia na produção, ela teve apenas seis episódios serializados com uma grande história, intitulada “Flux” (Fluxo), dividida em capítulos. E também, a fim de tentar atrair os fãs tradicionais da série que não aceitaram bem as mudanças trazidas a partir da 11ª temporada, ele adotou o estilo e a estrutura narrativa de alguns arcos do seu antecessor, Steven Moffat. O problema é que Chibnall não é tão bom escritor sci-fi ou de humor como Moffat, e para piorar as coisas ele replicou algumas das piores características dele. Como resultado, esta temporada ficou complicada demais para crianças e para adultos às vezes infantil demais, levando-a ter os piores índices de audiência desde que a série retornou em 2005.

Antes de ser showrunner da série, Moffat (também responsável por Sherlock) já se consagrara pelos excelentes roteiros dos episódios “The Empty Child/”The Doctor Dances” (episódio duplo que apresentou o Capitão Jack Harkness), “The Girl in the Fireplace” (romântico e comovente), “Blink” (a estreia de alguns dos melhores vilões do programa, Os Anjos Lamentadores) e “Silence in the Library”/”Forest of the Dead” (outro episódio duplo, desta vez marcando a estreia da futura esposa do Doutor, River Song). O problema é que a escrita de Moffat, especialmente após ter assumido como showrunner em 2010, tornou-se progressivamente mais complexa e megalômana, com paradoxos temporais de dar nó no cérebro e eventos de tamanha significância que seria impossível que o Doutor, que já testemunhou tanto o nascimento como a morte do Universo, não tivesse prévio conhecimento deles. Cito, por exemplo, a destruição do Universo pela explosão da TARDIS e seu posterior reboot, e o fato de O Silêncio ter manipulado a humanidade por milênios.

Com Chibnall seguindo essa linha, em “Flux” temos uma enorme onda destruidora (o Fluxo do título) avançando e destruindo galáxias, e o próprio tecido do tempo e do espaço começa a se desfazer. Surgem novos e até interessantes vilões – Enxame, Azure, Grande Serpente – e a Divisão, milenar e misteriosa organização de Gallifrey que recruta diferentes alienígenas para fiscalizar o tempo, e da qual a Doutora já foi um dos seus principais agentes. A Divisão está conectada à polêmica trama da Criança Atemporal, criada por Chibnall, que reescreveu a mitologia de Doctor Who que, até então, conhecíamos. Recapitulando: conforme revelado pelo Mestre na temporada anterior, o primeiro Doutor da história não seria o Senhor do Tempo originalmente interpretado por William Hartnell, mas sim uma menina vinda de outro Universo misteriosamente abandonada em Gallifrey milênios atrás, capaz de se regenerar indefinidamente.

Para temperar essa salada, Chibnall promove o regresso de vilões e alienígenas queridos do público, como Sontarans (em uma caracterização retrô), Daleks, Cybermen, Anjos Lamentadores, Oods, e por aí vai. Infelizmente a maioria está ali apenas para fan service ou pior, acabam desvirtuados. Alguém em sã consciência acharia possível que os Anjos Lamentadores, por sua própria natureza, pudessem ser agentes da Divisão, obedecendo a uma hierarquia de comando? Pois é. Para complicar as coisas, nos primeiros quatro capítulos a trama é excessivamente picotada, ocorrendo simultaneamente em diferentes locais e épocas. Personagens inéditos e situações são jogados na cara do espectador a cada minuto, e o ritmo, como que para compensar os episódios arrastados das temporadas anteriores, é excessivamente frenético e amalucado.

Por sua vez Jodie Whittaker, com sua verborragia, trejeitos e ainda por cima multiplicada por três no episódio final, cada vez mais parece uma imitação do Doutor encarnado por Matt Smith. Um dos pontos positivos é o novo companheiro Dan, que demonstra ter uma boa química com a Doutora e Yaz. Já Vinder, na maior parte do tempo, só faz figuração. Outros novos personagens como Claire, Bel, Diane e Jericho necessitariam de mais tempo de tela para serem melhor desenvolvidos. Não posso deixar de mencionar uma das maiores tolices desta temporada, o Lupari Karvanista, de uma ridícula raça de caninos protetores da humanidade desde sempre, e aí é de se perguntar: onde andavam esses totós alienígenas nas ameaças anteriores à Terra?

A Doutora e Karvanista, o Lupari que é uma versão barata do Chewbacca

O penúltimo episódio é dos mais polêmicos: descobrimos que a UNIT, desde a sua criação, esteve sendo manipulada pela Grande Serpente e a Doutora é levada à Divisão, localizada em uma bolha entre Universos – temos aqui o início oficial do Multiverso de Doctor Who. Lá ela descobre que sua chefe é Tecteun, a cientista que a adotou em Gallifrey e replicou sua capacidade de regeneração, de forma limitada, para os Senhores do Tempo. Tecteun confirma as revelações do Mestre e também que a Doutora fora uma agente da Divisão, onde atuou por sabe-se lá quantas regenerações, até se rebelar e ter a sua memória apagada. E mais, Tecteun reconhece que o Fluxo fora criado pela Divisão para destruir nosso Universo e recomeçar tudo de novo em outro.

O episódio derradeiro, que recoloca os Sontarans como força motriz, até consegue ser satisfatório, mas para isso retoma o ritmo frenético e ainda deixa algumas pontas soltas. Os vilões são derrotados porém ninguém, nem a Doutora, parece se importar com os zilhões de mortes causadas pela destruição da metade do Universo. A propósito, a solução encontrada para acabar com o Fluxo, feito de antimatéria, é risível – anulá-lo com matéria. Parece que Chibnall esqueceu que todas as galáxias, sistemas, planetas e civilizações que já haviam sido destruídos pelo Fluxo eram feitos exatamente de matéria, e isso não afetara em nada o seu avanço. Quanto à trama da Criança Atemporal, ficou dormente no coração da TARDIS junto com o relógio de bolso que contém as memórias das regenerações perdidas  da Doutora, até que ela algum dia resolva abri-lo… ou não.

Para o encerramento da fase Chibnall/Whittaker, restam agora apenas três especiais que serão exibidos em 2022 – a começar pelo de Ano Novo, “Eve of The Daleks”, já no dia 1º de janeiro. Resta saber se Russell T. Davies, que retornará ao comando a tempo de comemorar os 60 anos da série, aproveitará alguma coisa do legado de Chibnall, irá simplesmente ignorá-lo (mas mantendo-o canônico) ou se bolará algum retcon/reboot para reconquistar os fãs perdidos. Seja como for, ele e a produtora Bad Wolf terão liberdade criativa total e uma enorme responsabilidade à frente, começando pela escolha do(a) sucessor(a) de Jodie Whittaker. Uma coisa é certa: pelo menos Davies já demonstrou saber referenciar/reverenciar a mitologia da série sem precisar cancelá-la. O que, hoje em dia, é uma raridade nas franquias da TV e do cinema.

Jorge Saldanha

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