Resenhas - Séries

Resenha de Série: FUNDAÇÃO – 1ª Temporada


Foundation – Season 1 (2021)
Elenco: Jared Harris, Lee Pace, Lou Llobell, Leah Harvey, Terrence Mann, Laura Birn, Cassian Bilton, Sasha Behar, Kubbra Sait, Alfred Enoch, Clarke Peters, T’Nia Miller, Alexander Siddig
Criação: David S. Goyer
Direção: Vários
Cotação: 3,5/5

ATENÇÃO: caso você ainda não tenha assistido a primeira temporada de Fundação, o texto a seguir contém SPOILERS!

A longa saga Fundação, iniciada em 1942 e que inclui livros e contos do mestre da ficção científica Isaac Asimov, sempre foi considerada infilmável. Isto porque a trama, que se passa ao longo de vários séculos, tem uma narrativa fragmentada e o custo da produção (especialmente de efeitos visuais e cenários), para fazer jus àquele universo literário, seria muito elevado. Porém, o sucesso da HBO Game of Thrones mostrou que a melhor forma de adaptar este tipo de obra é a serialização, em várias temporadas para a TV (principalmente por assinatura ou streaming). E depois de muitos anos de desenvolvimento em diferentes estúdios, primeiramente como uma trilogia de filmes e depois como série, a criação de Asimov encontrou seu lar no streaming Apple TV+.

Porém, mesmo sem as limitações de metragem típicas das adaptações cinematográficas, a tarefa de traduzir a saga para a tela envolvia vários desafios. E o encarregado de enfrentá-los foi David S. Goyer, roteirista/diretor/produtor mais conhecido pela franquia Blade e por vários projetos da DC para cinema e TV. A base da história é a mesma dos livros: em um futuro onde a humanidade espalhou-se por toda a galáxia, o matemático Hari Seldon (Jared Harris) prevê, através da sua teórica Psico-história, a inevitável queda do Império Galáctico. Ele reúne sua equipe e estabelece a Fundação a fim de criar a Enciclopédia Galáctica, preservar o conhecimento e, com sorte, restaurar a civilização no futuro. E as semelhanças param por aí, já que Goyer e sua equipe de roteiristas claramente buscaram não uma adaptação fiel dos livros, mas sim preservar a essência e as ideias da obra em uma narrativa atualizada, mais adequada aos dias de hoje.

Lee Pace (Irmão Dia), Leah Harvey (Salvor Hardin) e Jared Harris (Hari Seldon)

Além da mudança de sexo de vários personagens chave, arcos inéditos foram escritos especialmente para a série, enquanto outros pré-existentes foram eliminados ou profundamente alterados. A criação, para a versão televisiva, da Dinastia Genética (os três clones do Imperador Cleon I que governam a galáxia a partir do planeta Trantor), serviu para garantir a continuidade do Império por longos períodos de tempo e fornecer um adversário constante à Fundação. A troca de gênero de personagens como Salvor (Leah Harvey), Gaal (Lou Llobell) e Demerzel (Laura Birn) permitiu que mulheres tivessem protagonismo na trama, algo que não acontecia nos livros. Também, a incorporação de material dos prelúdios e continuações do primeiro livro deu à história maior alcance e solidez.

Por outro lado, existem tantos desvios dos livros que fica difícil associar a série ao seu material de origem. Salvor é um personagem totalmente diferente, independentemente de seu gênero, e a trama de Terminus, em especial no que se refere à descoberta da nave imperial Invictus, leva Fundação para o território dos exemplares mais recentes da franquia Star Trek. Uma vez que esse arco ocupou a maior parte dos episódios finais da temporada, torna-se óbvio o quanto foi mudado em relação aos livros. De certo modo nem a essência do conceito da Fundação escapou 100% ileso: no episódio final da temporada, o holograma senciente de Hari revela que seu verdadeiro propósito nunca foi preservar o conhecimento, mas sim selecionar pessoas capazes de fazer frente ao Império. E isto de fato inicia com a união entre a Fundação, thespianos e anacreonianos, e a perspectiva da construção de mais naves de guerra como a Invictus. Ou seja, Hari e a própria Fundação serão as causas efetivas da vindoura queda do Império, basicamente confirmando os receios do Irmão Dia, como visto no primeiro episódio.

Apesar de todas as alterações que poderão desagradar a muitos puristas, pessoalmente acho que ainda há muito para se apreciar em Fundação – desde que relevando conveniências de roteiro como o encontro fortuito de Gaal e Salvor (que aliás, na série, são mãe e filha), ou a quebra de ritmo nos episódios intermediários da temporada. O arco da Dinastia Genética foi o que mais me agradou, onde se destacam a grande atuação de Lee Pace (Irmão Dia) e tramas que discutiram temas como a estagnação do poder, a perda da individualidade e a fé. E também ali encontramos a personagem mais complexa da série: Demerzel, o último robô inteligente da galáxia, que serve como consultora e mãe dos clones Imperadores. A cena onde, após cometer um ato vil em defesa do status quo imperial (em desrespeito às famosas Três Leis da Robótica de Asimov), arranca a pele do rosto e revela sua caveira metálica, parece indicar que elementos de outra saga famosa do autor, Eu, Robô, poderão ter destaque em temporadas futuras.

Efeitos visuais de ponta em Fundação

Fundação, já renovada para a segunda temporada, está disponível no serviço de streaming Apple TV+.

Jorge Saldanha

1 comentário em “Resenha de Série: FUNDAÇÃO – 1ª Temporada

  1. afonsoaero

    Não desgostei da série, mas de Fundação mesmo tem apenas o nome e muito pouco da trama e do espírito original da obra. Essa história de trocar o sexo dos personagens para compactuar com o “politicamente correto”, a meu ver é totalmente desnecessária. Afinal, mais da metade da trama é protagonizada por pesonagens femininas fortes – Bayta e Arcadia Darell.
    Asimov se inspirou na “Queda do Império Romano” de Gibbons, mas também bebeu muito na fonte da política interna universitária americana e no ufanismo da doutrina do “destino manifesto” dos Estados Unidos,o que acredito ter sido em boa parte responsável pelo sucesso da obra, inclusive por ter sido escolhida a melhor obra de ScyFy do século, suplantando Tolkien, que (sem desmerecer Fundação), sem sombra de dúvida é superior literariamente..
    Espero que algum dia façam um filme (filmes ou série) que seja mais fiel e faça mais justiça à obra prima de Isaac Asimov.

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