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Resenha de Filme: LIGA DA JUSTIÇA DE ZACK SNYDER


Zack Snyder’s Justice League, EUA, 2021
Gênero: Ficção Científica, Aventura
Duração: 242 min.
Elenco: Ben Affleck, Ezra Miller, Gal Gadot, Henry Cavill, Jason Momoa, Ray Fisher, Amber Heard, Jeremy Irons, Amy Adams, Ciarán Hinds, Billy Crudup, Connie Nielsen, Joe Morton, Diane Lane, J.K. Simmons, Jared Leto, Harry Lennix, Jesse Eisenberg, Kiersey Clemons, Joe Manganiello
Trilha Sonora Original: Tom Holkenborg
Roteiro: Chris Terrio, Zack Snyder
Direção: Zack Snyder
Cotação: 3,5/5

Antes de entrarmos propriamente nos comentários sobre o filme, é necessário voltarmos no tempo para contextualizar um fato que, para o bem ou para o mal, definiu o destino de Liga da Justiça (2017) e do próprio Universo Cinematográfico da DC. Com a maior parte das filmagens principais encerradas, o diretor Zack Snyder teve de abandonar a produção em virtude de uma tragédia familiar – o suicídio de sua filha Autumn, que sofria de depressão.

À época, os filmes baseados em quadrinhos da DC feitos por Snyder estavam sendo criticados por parte do público por serem demasiadamente sérios e sombrios, contrastando com o tom mais leve e aventureiro das bem sucedidas produções do Universo Cinematográfico Marvel, e a Warner viu ali uma oportunidade de transformar esse Liga da Justiça em algo mais aproximado do concorrente Os Vingadores (2012). Para isso trouxeram o próprio diretor daquele filme, Joss Whedon, para completar o trabalho de Snyder e tornar o corte original mais enxuto, leve e colorido.

Para tanto Whedon fez várias alterações no roteiro e na montagem, descartando boa parte de subtramas e cenas de desenvolvimento de personagens, filmou segmentos adicionais, deu cores mais vivas à imagem (inclusive colorizando o traje preto que Superman usaria no corte original) e trouxe o compositor Danny Elfman para criar uma trilha original mais orquestral e “heroica”. E o que vimos na telona em 2017? Um longa truncado e superficial, onde as visões diferentes de Snyder e Whedon não combinaram. O resultado disso foi seu fracasso de público e crítica, que levou ao cancelamento de suas duas continuações e de outros projetos, como o filme solo do Ciborgue.

Desde então, Snyder passou a revelar em suas redes sociais amostras do que seria originalmente utilizado no filme, e isso acabou desencadeando uma imensa campanha de fãs nas redes sociais para que a Warner/DC permitisse ao diretor completar sua versão. Essa campanha, provavelmente, não daria em nada caso o estúdio não tivesse resolvido criar seu novo serviço de streaming global (que chega ao Brasil em junho), já que os executivos deram carta branca (e grana) a Snyder para fazer o que quisesse com Liga da Justiça desde que o novo corte fosse exclusivo do HBO Max, como forma de atrair novos assinantes.

O diretor não desperdiçou a chance e finalmente revelou ao mundo, no último dia 18 de março, a versão do filme que mais se assemelha à que ele pretendia que fosse vista nos cinemas. Rebatizado como Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder’s Justice League), o longa agora é dividido em seis capítulos totalizando quatro horas de duração, que incluem uns quatro minutos de novas cenas filmadas em 2020 (a maior parte delas para o epílogo) e duas horas e meia de material eliminado do corte lançado em 2017. Os segmentos de Whedon, que incluem o funeral do Superman, o momento vergonhoso em que o Flash (Ezra Miller) cai sobre a Mulher-Maravilha (Gal Gadot), ou a sequência onde ele salva família russa, foram devidamente limados por Snyder.

A trama principal segue basicamente a mesma: Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) reúne os meta-humanos Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman (Jason Momoa), Ciborgue (Ray Fisher) e Flash para combater o lacaio do alienígena Darkseid, Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), que para se redimir com o seu mestre vem à Terra recuperar as três Caixas Maternas, que unidas permitem a transformação e a dominação de mundos inteiros. Ao longo do caminho a equipe consegue trazer de volta à vida Superman (Henry Cavill), que morrera em Batman Vs, Superman. Os furos do roteiro continuam, como o de nunca se cogitar o uso de militares para ajudar os super-heróis a destruírem a fortaleza do Lobo da Estepe – que estranhamente parece ser invisível para o resto do mundo.

Já a forma de contar a história muda radicalmente: as mais de duas horas adicionais permitem dar aos personagens, especialmente Ciborgue e Flash, um desenvolvimento que inexiste no corte de Whedon. Estes dois, aliás, ganham mais proeminência, e no confronto final achei particularmente emocionante o momento em que o velocista escarlate, ao se deslocar pela primeira vez mais rápido que a luz, muda o rumo da batalha que já estava perdida. Agora também temos personagens ausentes (ou quase) na versão anterior como Darkseid (agora é ele, e não Lobo da Estepe, que lidera a batalha na antiguidade), Vulko (Willem Dafoe), Caçador de Marte (Harry Lennix), Exterminador (Joe Manganiello), Iris West (Kiersey Clemons) e Coringa (Jared Leto, menos caricato do que em Esquadrão Suicida).

Estilisticamente falando o filme também mudou bastante: estão de volta as tradicionais marcas registradas do diretor, como muitas cenas em câmera lenta, o tom de cores desbotado e a trilha sonora elegíaca, mais eletrônica, aqui a cargo de Tom Holkenborg, que já colaborara com Hans Zimmer nos filmes anteriores de Snyder para o DCEU. Lobo da Estepe, todo feito em CGI, ganhou um novo visual, o Superman usa seu uniforme preto e o Ciborgue também teve algumas alterações, como o capacete que cobre sua cabeça em voo.

O que menos me agradou, visualmente falando, foi o emprego do formato de tela 4:3 (1.33:1), que deixa o filme em nossas TVs 16:9 com grandes tarjas pretas nas laterais. Snyder alega ter utilizado esse recurso para adaptar a imagem às telas IMAX, gigantes e quadradas, dos cinemas. Mas convenhamos, a justificativa não convence no momento em que, durante a pandemia, a esmagadora maioria assistirá a produção em casa, em suas telas retangulares. E quando já estava acostumando com o visual de uma produção feita para a TV antes dos anos 1990, surgem cenas em que a imagem foi esticada na vertical para que coubesse toda na tela quadrada, como alguns trechos da luta entre Superman e os outros heróis e uma visão superior do avião do Batman pousando.

Pesando todos os prós e contras, constata-se que Liga da Justiça de Zack Snyder, se não é perfeito, já fez história entre as versões do diretor ou estendidas por ser a primeira a surgir graças a uma mobilização sem precedentes de fãs na internet. E o esforço valeu a pena, já que, dentro da filmografia de Snyder, só perde para Watchmen como sua melhor adaptação de quadrinhos. E, indiscutivelmente, é uma obra mais sombria, pesada, violenta, grandiosa e superior àquilo que foi despejado nas telas anos atrás. Seria ainda melhor caso tivesse uma hora a menos e preenchesse toda a tela das nossas TVs, como a versão do Whedon, mas discordo daqueles que, por exemplo, acharam o epílogo totalmente desnecessário. Ele foi a maneira do diretor mostrar o que tinha em mente para os dois outros filmes que, no momento, a Warner/DC não pretende fazer já que o novo DCEU tomou um rumo bem diferente, inclusive com reboots de Batman e Superman a caminho.

O que provavelmente os executivos não previam é que a estratégia feita para catapultar as assinaturas de um novo serviço de streaming desencadeasse outra campanha de fãs, agora para que Snyder retome o projeto inicial de uma trilogia. Se vai funcionar desta vez não sei, mas sem dúvida eu teria interesse em ver mais dois filmes com o desenrolar da saga Darkseid no multiverso. No Brasil, Liga da Justiça de Zack Snyder está disponível para aluguel ou compra em diversas plataformas digitais, será lançado em Blu-ray em data ainda a ser anunciada e, a partir de junho, ficará exclusivo do nosso HBO Max.

Jorge Saldanha

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