Artigos Séries

Sci Files: Nos Infinitos Caminhos do TÚNEL DO TEMPO


James Darren, Irwin Allen e Robert Colbert no set de Túnel do Tempo

O produtor e diretor Irwin Allen (1916-1991) pode ser considerado o Steven Spielberg dos anos 1960 e início dos 1970. Muitos dos seus filmes, aventureiros e de cunho fantástico ou sci-fi (5 Semanas em Um Balão, Viagem ao Fundo do Mar, O Mundo Perdido) foram produções milionárias com grandes elencos e de apelo popular, legítimos precursores dos hoje conhecidos blockbusters. Com os memoráveis e estelares longas O Destino do Poseidon (1971) e Inferno na Torre (1974), Allen se consagrou como o “Mestre do Desastre”, tendência que ainda continuou com os filmes O Enxame (1978) e O Dia em que o Mundo Acabou (1980).

Mas para os fãs da ficção científica, a grande contribuição de Allen foram suas séries clássicas de TV – a versão televisiva de Viagem ao Fundo do Mar (1964-1968), Perdidos no Espaço (1965-1968), Túnel do Tempo (1966-1967) e Terra de Gigantes (1968-1970). Allen tinha a tendência de basear suas séries em obras literárias, sendo que no caso de Túnel do Tempo (The Time Tunnel), a inspiração mais óbvia é o clássico de H.G. Wells A Máquina do Tempo, porém tem mais. O autor Murray Leinster, dois anos antes do lançamento da série, publicara um livro com o mesmo nome mas sem qualquer relação com ela. Allen adquiriu os direitos para adaptar o livro, dele utilizando apenas o título, e curiosamente encarregou Leinster de escrever outro livro, mantendo o mesmo título, para promover o lançamento da série, agora empregando seus personagens principais e a premissa básica.

Na série, produzida para a Fox e a rede ABC, um projeto ultra-secreto do governo norte-americano (Projeto Tic-Tac) desenvolve a máquina do tempo conhecida como o Túnel do Tempo. No episódio piloto, dirigido e co-escrito pelo próprio Allen, o Senador Clark (Gary Merrill) chega às instalações do Túnel para avaliar se o projeto justifica a enorme quantia de dinheiro público nele investida. Na tentativa de provar ao Congresso norte-americano que o Túnel do Tempo funciona, um dos cientistas responsáveis, o Dr. Tony Newman (James Darren), usa clandestinamente a máquina e volta no tempo, chegando ao navio Titanic na véspera de sua colisão com o iceberg fatídico. A equipe da sala de controle do Túnel, General Kirk (Whit Bissell), Ann (Lee Meriwether), Jerry (John Zaremba) e o próprio Senador Clark conseguem ver e ouvir Tony através de uma grande tela, mas não conseguem encontrar uma maneira de trazê-lo de volta.

Tony sem sucesso tenta convencer o capitão do Titanic (Michael Rennie) a mudar de rota a fim de evitar a tragédia, e acaba sendo preso. A fim de tentar resgatar Tony e ajudá-lo a evitar o naufrágio, seu colega Doug Phillips (Robert Colbert) é autorizado pelo General Kirk a também voltar ao passado. Doug consegue encontrar Tony, mas a dupla não consegue evitar a colisão com o iceberg. Pior que isso, atingidos por uma explosão, Tony e Doug são lançados ao mar, e para salvá-los a única opção da equipe do Túnel é enviá-los para outro local em outra época. Eles conseguem, mas assim fazendo deixam os dois cientistas perdidos nos “infinitos caminhos do tempo”. O Senador Clark retorna a Washington com a promessa de que o orçamento do projeto será mantido, deixando o General Kirk no comando.

O elenco de Túnel do Tempo

O episódio piloto foi um dos mais caros produzidos até então, e mostrou as gigantescas instalações do projeto Tic-Tac, incluindo o gigantesco gerador que abastecia o projeto e incontáveis andares subterrâneos, com centenas (talvez milhares) de soldados e funcionários por eles circulando. Os elaborados cenários da sala do Túnel, uma combinação de matte-paintings com sets em escala real, ainda impressionam. O hoje célebre compositor John Williams, que já trabalhara com Allen em Perdidos no Espaço, criou o vibrante tema de abertura e a trilha incidental do episódio.

Durante o restante da série, que teve apenas uma temporada com 30 episódios, a equipe do Túnel tenta encontrar um meio de trazer os dois cientistas de volta, ou então os ajuda por intermédio dos recursos de que dispunham, como precárias transmissões de voz ou envio de armas ou equipamentos, quando possível. Cada episódio terminava com um cliffhanger, onde a dupla era enviada para alguma situação de perigo em outra data aleatória do passado ou do futuro. Tony e Doug tornam-se participantes em outros eventos marcantes do passado, como o ataque japonês a Pearl Harbor, a erupção do vulcão Krakatoa, o assassinato do Presidente Abraham Lincoln e a Batalha do Álamo. Eventualmente vão para o futuro e até mesmo encontram seres alienígenas. Mesmo com a ampla utilização de imagens extraídas do grande acervo de filmes da Fox, Túnel do Tempo era muito cara para produzir, e a série acabou sendo cancelada no verão norte-americano de 1967 pela ABC, antes que Tony e Doug retornassem ao presente.

Em 1976 Allen produziu e escreveu o telefilme Degraus para o Passado (Time Travellers), com participação na produção de Rod Serling (Além da Imaginação) e que contava no elenco com Richard Basehart, o Almirante Nelson de Viagem ao Fundo do Mar. A história lembrava um típico episódio do Túnel do Tempo: dois homens voltam ao passado, um dia antes do incêndio de Chicago em 1871, em busca de anotações de um médico (Basehart) que trazia o segredo perdido da cura para uma epidemia que ameaçava o presente. Em 2002, Kevin Burns e a viúva de Irwin, Sheila Allen, produziram o episódio piloto de um remake mais sombrio de Túnel do Tempo, onde as alterações de uma tempestade temporal tinham reflexos no presente e no futuro, mas ele não foi aprovado. Tanto Degraus para o Passado como o piloto de 2002 foram incluídos como extras no box lançado pela Fox nos EUA.

Após Doctor Who (1963-1989, 2005-), Túnel do Tempo foi a segunda série de TV a ter viagens no tempo como tema predominante. Apesar de sua curta duração virou um legítimo clássico televisivo, sendo reprisada por décadas e descoberta por novas gerações através do home video (infelizmente no Brasil apenas em DVD, e mesmo assim em lançamentos independentes de qualidade irregular). Sua influência foi grande, tendo aberto o caminho para programas similares como Contra Tempos (1989-1993), 12 Monkeys (2015-2018), Travelers (2016-2018), Timeless (2016-2018) e a recente Dark (2017-2020).

Jorge Saldanha

1 comentário em “Sci Files: Nos Infinitos Caminhos do TÚNEL DO TEMPO

  1. Dênis Winston Brum

    Excelente artigo! O Grande Jorge Saldanha generosamente nos permite resgatar Tony & Doug com sua prosa e seu conhecimento cativantes. Parabéns!

    Curtir

Comente o conteúdo da postagem

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: