Resenhas - Filmes

Resenha de Filme: A COR QUE CAIU DO ESPAÇO


The Color Out of Space, EUA, 2019
Gênero: Ficção Científica
Duração: 111 min.
Elenco: Nicolas Cage, Joely Richardson, Madeleine Arthur, Elliot Knight, Julian Hilliard, Tommy Chong
Trilha Sonora Original: Colin Stetson
Roteiro: Richard Stanley, Scarlett Amaris
Direção: Richard Stanley
Cotação: 4/5

Com uma carreira bem acidentada, Richard Stanley volta à direção de longas-metragens depois de um longo período apenas trabalhando em curtas, segmentos em longas coletivos e documentários. Hollywood não foi muito gentil com ele depois de demiti-lo no meio das filmagens de A ILHA DO DR. MOREAU (1996), filme que depois foi achincalhado, mesmo tendo o nome de John Frankenheimer como diretor – ele foi o encarregado de dar seguimento às filmagens. Lembrando que Stanley era uma promessa para o cinema de horror nos anos 1990, com filmes como HARDWARE – O DESTRUIDOR DO FUTURO (1990) e O COLECIONADOR DE ALMAS (1992).

Ainda assim, mesmo tendo tanta dificuldade de conseguir entrar novamente em um grande projeto, Stanley seguiu sendo cultuado por parte de fãs do gênero. A boa notícia é que seu novo filme, A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (2019), baseado em um conto de H.P. Lovecraft, é muito possivelmente seu melhor trabalho. Não está sendo e não será nada próximo de uma unanimidade, mas é muito bonito plasticamente e tem uma atmosfera de pesadelo crescente bastante envolvente.

Chama a atenção também a participação de Nicolas Cage, ator incansável que só em 2019 tem seis produções com seu nome como ator. Este filme de Stanley é um dos que mais têm a sua cara entre as produções recentes. Ou seja, ele não economiza nos gritos, nos tiques, naquilo que já nos acostumamos a ver. E não chega a atrapalhar nenhum pouco. Cai como uma luva para o filme.

Ele interpreta um pai de família que mora em uma região rural bastante afastada da cidade mais próxima. Esse detalhe é importante para que possamos nos dar conta do distanciamento da família quando o inferno chega. E o inferno chega em cores, em especial na cor-de-rosa bem viva. Quando a família está se preparando para dormir, algo parecido com um meteorito cai no jardim, deixando uma cratera imensa e muitas dúvidas sobre o que se trata. Aos poucos, cada membro da família passa a se comportar de maneira muito estranha.

Apesar da presença de Cage, podemos dizer que a verdadeira protagonista do filme é Madeleine Arthur, uma jovem com poucos títulos marcantes no currículo, mas que aqui demonstra muito carisma. Ela faz o papel da filha de Cage. Na primeira cena do filme, ela está praticando um ritual de magia à beira de um rio quando é flagrada por um rapaz que está passando. Sua intenção é fazer um feitiço para curar definitivamente sua mãe do câncer. Sua mãe é uma mulher frágil e carinhosa vivida por Joely Richardson, e que possui outros dois filhos, um adolescente e um garotinho, cada um deles de importância pontual para a trama. Fazem parte da família também as alpacas que o patriarca cria com muito carinho.

Mas, quem espera algo parecido com uma boa construção de personagens ou diálogos ricos, pode esquecer. Não que os diálogos sejam ruins ou o roteiro seja ruim. É que não parece haver nenhuma intenção por parte de Stanley de fazer um filme com essas bases. Seu maior interesse é na beleza, tanto a beleza das cores artificiais geradas por efeitos visuais quanto a beleza da natureza. E também a beleza dos efeitos gore, que em alguns momentos remetem a O ENIGMA DO OUTRO MUNDO, de John Carpenter, e outros filmes de horror oitentistas.

Em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Stanley conta que teve que fazer algumas alterações na adaptação do conto, já que Lovecraft carrega de maneira quase explícita seu racismo e sua misoginia. Quanto aos aspectos niilistas do escritor, eles seguem presentes na adaptação, em especial quando a família vai se desintegrando mais e mais, tornando-se, literalmente, monstros sob o efeito da radiação alienígena.

Stanley também se sente muito grato a Nicolas Cage, um grande fã de Lovecraft. O cineasta afirma que ele foi o homem que restaurou sua fé em Hollywood novamente. Depois do trauma de A ILHA DO DR. MOREAU, poder filmar tudo com tranquilidade, em uma região rural de Portugal, com todo o apoio dos atores e dos técnicos e de ter um resultado muito favorável, não tem preço. As coisas foram tão bem que Stanley planeja duas novas adaptações de Lovecraft para breve. Aguardemos.

Ailton Monteiro

1 comentário em “Resenha de Filme: A COR QUE CAIU DO ESPAÇO

  1. Carlos Fernando Schmitt

    A obra de H.P. Lovecraft é sensacional! Recomendo fortemente! Quem curte Edgar Alan Poe vai gostar! Vale ler!

    Quanto ao trecho da resenha:

    “Em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Stanley conta que teve que fazer algumas alterações na adaptação do conto, já que Lovecraft carrega de maneira quase explícita seu racismo e sua misoginia.”

    Li este conto recentemente na edição da Editora Chronos e, muito embora, haja alertas nas notas do editor sobre “declarações de natureza racista e xenofóbica”, não vi, neste conto em particular, as situações descritas por Stanley.

    Quanto ao filme, foi bastante “adaptado” pelo diretor e perdeu bastante da atmosfera habilmente criada por Lovecraft. Ainda é um filme interessante, mas recomendo fortemente comprar uma das coletâneas de contos e ler. O leitor vai poder ter a “experiência” em primeira mão e vai poder ter sua própria opinião sobre o “racismo e misoginia” contidos na obra.

    Live long and prosper

    Carlos Fernando Schmitt

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