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Sci Files: PERDIDOS NO ESPAÇO – A Série Clássica


lostRecentemente a Netflix anunciou que seu remake da clássica série de ficção científica Perdidos no Espaço foi renovada para sua terceira e última temporada. Os mais jovens provavelmente conheceram a série apenas nesta nova versão, ou então pelo fracassado reboot cinematográfico de 1998. Portanto, é interessante relembrar como tudo começou em 1965 – ou seja, há longos 55 anos.

Na década de 1970, o famoso produtor e diretor Irwin Allen conquistou a alcunha de “Mestre do Desastre” por filmes-catástrofe de sucesso, como O Destino do Poseidon (The Poseidon Adventure, 1972) e Inferno na Torre (The Towering Inferno, 1974). Contudo, para os fãs de ficção científica ele sempre será mais lembrado como o criador de séries clássicas como Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo e Terra de Gigantes. Em 1964 Viagem ao Fundo do Mar, baseada no filme homônimo de Allen lançado em 1960, que por sua vez era livremente inspirado em 20.000 Léguas Submarinas, já era um grande sucesso.

De olho no caixa, a Fox encomendou a ele o projeto de uma nova série, e mais uma vez inspirado na literatura e aproveitando a euforia decorrente da corrida espacial, Allen, em parceria com o lendário humorista Groucho Marx (sob o pseudônimo Van Bernard), produziu um piloto repleto de ação que era uma espécie de versão futurista do clássico “Robinson Suíço”, de Johann David Wys. Batizado de “No Place to Hide” (“Sem Lugar para se Esconder”), o piloto (o mais caro até então produzido, tendo custado mais de meio milhão de dólares) mostrava o lançamento da nave espacial dos Robinsons, então chamada Gemini 12, rumo a outro sistema solar. Durante o voo a nave passa por uma chuva de meteoros que a desvia de sua rota e, danificada, faz um pouso forçado em um planeta desconhecido. Naquele mundo inóspito, a família de colonizadores enfrenta uma série de ameaças, como um ciclope gigante, um terremoto e uma tempestade em alto-mar. Como trilha sonora do piloto, foram utilizados trechos de scores compostos pelo lendário Bernard Herrmann para antigos filmes da Fox, como O Dia em que a Terra Parou, Viagem ao Centro da Terra e Rochedos da Morte.

O piloto foi apresentado à rede CBS, que deu sinal verde para a produção de uma série semanal. Mas os executivos, sentindo que faltava conflito dramático na trama, pediram a inclusão de um vilão. Allen então decidiu refazer a história, com a inclusão de dois personagens que teriam uma importância crucial no programa: o traiçoeiro Dr. Zachary Smith (Jonathan Harris) e o Robô de exploração (Bob May, com voz de Dick Tufeld). No dia 15 se setembro de 1965, Perdidos no Espaço estreou nos EUA com o episódio “O Clandestino Teimoso“, escrito por Shimon Wincelberg e dirigido por Tony Leader. A série inicia no então distante 16 de outubro de 1997, quando é lançada a primeira missão de colonização terrestre rumo ao sistema de Alpha Centaury. A bordo da rebatizada nave Júpiter 2 está a família de colonizadores composta pelo Professor John Robinson (Guy Williams, que já fora o Zorro da Disney), sua esposa Maureen (June Lockhart), as filhas Judy (Martha Kristen), Penny (Angela Cartwright) e o caçula Will (Billy Mumy). Completando a tripulação, que permaneceria em animação suspensa durante os cinco anos da viagem, estava o piloto, Major Donald West (Mark Goddard).

Após programar o Robô para destruir os sistemas essenciais após o lançamento, o sabotador Smith fica preso a bordo e seu peso extra tira a nave do curso, levando-a direto para uma chuva de meteoros. Depois de reanimar a tripulação e de o Major West desviar a nave dos meteoros, Smith não consegue alterar a tempo a programação o Robô, que danifica os sistemas e o Júpiter 2 ruma em hiper-velocidade para os confins da galáxia. No episódio seguinte, “A Nave Fantasma”, os Robinsons encontram uma nave alienígena aparentemente abandonada, e finalmente no terceiro episódio, “Ilha no Céu”, o Júpiter 2 cai no planeta desconhecido no qual permaneceria até o início da segunda temporada. Nos cinco primeiros episódios, Allen, um mestre em utilizar cenas de arquivo, economizou uma boa grana reaproveitando praticamente todo o material produzido para o piloto.

Esta primeira temporada da série, filmada em preto e branco, é considerada a melhor das três que foram produzidas. Principalmente em seus episódios iniciais a ênfase era na aventura, na sobrevivência e nos ardis de Smith para eliminar os Robinsons. Também neste primeiro ano temos o único episódio em duas partes de toda a série, o memorável “O Estranho Colecionador”, onde Michael Rennie (o Klaatu do clássico O Dia em que a Terra Parou, 1951) interpretava um alienígena cuja função era colecionar formas de vida de todo o universo. Em outros episódios houve a participação de atores convidados como Warren Oates, Torin Thatcher, Albert Salmi e um então pré-adolescente Kurt Russell. Ajudando a tornar a série um grande sucesso, habituais colaboradores de Allen, como Paul Zastupnevich (figurinos) e L. B. Abbott (efeitos especiais) integravam a equipe. O tema musical, além das trilhas de alguns dos episódios iniciais, foi composto pelo então iniciante John Williams (à época, “Johnny”), hoje o maior compositor de trilhas de cinema ainda vivo.

A partir da segunda temporada a série passou a ser filmada em cores, porém a aventura cedeu lugar ao humor (influência de outro grande sucesso da Fox na época, Batman, que era exibido em uma rede concorrente no mesmo horário) centrado nas figuras do garoto Will, do Robô (“Perigo! Perigo!”) e do cada vez mais covarde e hilariante Dr. Smith. Esta é a fase pela qual a série é mais lembrada, graças à atuação impagável de Harris como Smith. No início da temporada, os Robinsons correm contra o tempo para reparar a nave e extrair o combustível necessário para que eles possam decolar antes que o planeta se desintegre. Eles conseguem fugir a tempo, mas encontram-se frente a um dilema – prosseguir para Alpha Centaury, seu destino original, ou voltar para a Terra? No entanto, graças às trapaças de Smith, eles novamente se perdem no espaço e, fugindo de um míssil alienígena, mais uma vez caem em outro planeta inóspito, onde irão encontrar alienígenas cada vez mais bizarros como vikings, piratas, cowboys, cavaleiros medievais, gladiadores, artistas de um circo espacial, e por aí vai. A caracterização dos alienígenas é tosca, as cores são berrantes e muitas tramas são ingênuas, mas o conjunto é por demais divertido. Como astros convidados, houve a participação de atores do calibre de Strother Martin, Albert Salmi, Al Lewis (o “Vovô” de outra série cult da época, Os Monstros) e John Carradine. Além disso, a temporada inclui alguns episódios favoritos dos fãs, como “O Homem Dourado” (dois alienígenas em conflito dividem os Robinsons), “A Revolta dos Androides” (surge o androide destruidor IDAK – vivido por Don Matheson, de Terra de Gigantes, com seu bordão “Esmagar, Matar, Destruir!”) e “Viagem Através do Robô” (Smith e Will têm que entrar no interior do Robô para salvá-lo).

Na terceira  é última temporada, a família Robinson concluiu os reparos do Júpiter 2 e está pronta para partir do planeta onde ficou por quase toda a temporada anterior, retomando sua viagem rumo a Alpha Centaury. A decolagem é precipitada pela chegada de um cometa em curso de colisão com o desolado mundo. Eles conseguem escapar por um triz da destruição, mas este é apenas o início de mais aventuras que levarão os exploradores espaciais a encontrar novas criaturas do espaço. Nesta temporada as histórias infantis e humorísticas são alternadas com tramas mais voltadas à ficção científica e à aventura. Certamente há episódios bem tolos, como “Jardim Zoológico das Galáxias”, “O Planeta Prometido” ou o nefando “A Revolta das Plantas” (unanimemente considerado o pior episódio da série, onde os Robinsons são aprisionados por uma tosca cenoura falante). Mas é o tom de aventuras sci fi como “Visita a um Planeta Hostil” (nos EUA de 1947, os Robinsons são considerados alienígenas invasores), “A Noite do Caçador” (o Professor Robinson vira a caça do alienígena Megazor) e “Robinson nº 2” (o professor Robinson e o Major West enfrentam suas versões malignas de um universo anti-matéria) que se destaca nesta temporada. O último ano de Perdidos no Espaço também se beneficia de outros fatores que dão maior dinamismo ao programa; a decisão de não deixar os Robinsons naufragados em um único planeta por quase toda a temporada – há mais aventuras passadas no espaço ou em outros mundos; a introdução de uma cápsula que permite à tripulação explorar os planetas sem neles pousar o Júpiter 2 (de onde saiu essa cápsula nunca é explicado, se ela existisse nas temporadas anteriores várias encrencas dos Robinsons poderiam ter sido evitadas); e uma abertura mais atraente, que ganhou um novo tema musical de John Williams, e que hoje é o mais lembrado.

Infelizmente, devido aos custos de produção elevados e a índices de audiência declinantes, a série não foi renovada e os Robinsons permaneceram perdidos no espaço e nas reprises. No total foram produzidos 83 episódios no período de 1965 a 1968, e após o cancelamento foram feitas várias tentativas de trazer Perdidos no Espaço de volta. Mas foi somente após a morte de Allen, em 1991, que as negociações realmente foram adiante, o que resultou no filme de 1998. Infelizmente o longa fracassou por não conseguir resgatar o fascínio, a aventura e o humor da série original. Já a nova versão da Netflix, lançada em 2018, agradou tanto à maioria dos velhos fãs como às novas gerações. Vista sob os padrões sociais, científicos e técnicos contemporâneos, a série original é ultrapassada e ingênua – mas o espectador tem que avaliá-la na perspectiva da época em que foi produzida. Assim fazendo, será mais fácil constatar o porquê do programa ter se transformado em um dos maiores  clássicos televisivos de todos os tempos, possuindo muitos fãs até hoje. Estes, revendo aos episódios em DVD, Blu-ray (em box infelizmente lançado apenas nos EUA) ou na Rede Brasil de Televisão, voltam às suas infâncias e relembram os momentos de aventura e deslumbramento que viveram pela primeira vez, há mais de cinco décadas, com a família Robinson.

Jorge Saldanha

2 comentários em “Sci Files: PERDIDOS NO ESPAÇO – A Série Clássica

  1. ca1701

    Não podemos esquecer que o tema memorável é do mestre John Williams!

    Curtir

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