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Sci Files: DOLLHOUSE – Um Ambicioso Fracasso de Joss Whedon


Muito antes de participar dos universos da Marvel e da DC, o roteirista/produtor/diretor Joss Whedon tornou-se uma figura cult principalmente graças a séries de TV como Buffy, A Caça Vampiros, Angel e Firefly. O curioso é que, destas três citadas, a única que realmente pode ser considerada um sucesso de audiência e de crítica foi Buffy, que teve sete temporadas entre 1997 e 2003. Sua série derivada, Angel (1999-2004), foi bastante irregular em suas cinco temporadas, e o western espacial Firefly foi cancelado pela Fox com apenas 14 episódios produzidos entre 2002 e 2003 – sendo que os três últimos nunca foram exibidos nos EUA, sendo apenas disponibilizados posteriormente em DVD e Blu-ray.

Whedon criou outras produções televisivas, e dentre elas a hoje pouco lembrada sci-fi Dollhouse – Programados para o Perigo (2009-2010) talvez tenha sido a mais ambiciosa em termos criativos e artísticos. Nela acompanhamos a “boneca” Echo (Eliza Dushku, a Faith de Buffy), uma mulher que teve sua personalidade original removida e armazenada, e que para cada nova tarefa recebe uma nova através de um processo chamado “impressão”. Os contratos de Echo e de outros bonecos da Dollhouse de Los Angeles, comandada com pulso firme por Adelle DeWitt (Olivia Williams), são com clientes ricos e geralmente possuem caráter romântico e sexual, o que permite a Whedon e sua equipe de roteiristas (que incluía o irmão Jed e sua esposa Maurissa Tancharoen, de Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.) discutirem as ambiguidades morais e éticas dos personagens e das situações apresentadas.

O confiável Boyd (Harry Lennix), o genial Topher (Fran Kranz) e a “boneca” Echo (Eliza Dushku)

Na primeira temporada, com 13 episódios, os iniciais envolviam principalmente os contratos/missões semanais de Echo e os esforços do agente do FBI Paul Ballard (Tahmoh Penikett, de Battlestar Galactica) para localizar a Dollhouse e libertar Caroline, a identidade original de Echo. Ao longo da temporada outros arcos e personagens são desenvolvidos, descobre-se que há outras Dollhouses espalhadas pelo mundo e Echo vai adquirindo uma consciência própria, o que a leva a tentar libertar os bonecos da Dollhouse de LA. Após um incidente com o boneco psicopata Alpha (Alan Tudyk), Echo descobre ser capaz de acessar todas as personalidades que nela impressas, o que lhe dá acesso a um grande manancial de conhecimentos e habilidades.

No episódio final da temporada, todo narrado em flashforward e que originalmente não foi exibido pela Fox nos EUA, descobrimos que dez anos mais tarde (em 2019), a tecnologia da “impressão” usada sem escrúpulos pela Corporação Rossum, controladora da Dollhouse, levou à queda da humanidade. O grande público, provavelmente pelos episódios iniciais mornos e pela trama, digamos, muitas vezes desconfortável oferecida por Whedon, começou a abandonar a série. Dollhouse só foi renovada para a 2ª temporada porque a Fox temeu uma forte reação negativa de fãs similar à que houve quando a emissora, alguns anos antes, cancelou prematuramente Firefly.

Com mais 13 episódios garantidos para concluir sua trama, na 2ª temporada Whedon abandona o formato episódico e mostra Echo e Ballard (expulso do FBI e agora trabalhando na Dollhouse) unindo-se a aliados improváveis para destruir a corporação por dentro. Topher (Fran Kranz), o nerd criador da tecnologia de impressão, deixa de ser um mero fantoche de DeWitt e ganha importância. Ao final, como em toda a produção de Joss Whedon, vilões se redimem, heróis viram vilões (no caso, o próprio fundador da Rossum, infiltrado na Dollhouse e que era de plena confiança de Echo), e personagens importantes morrem – seja por obra do acaso ou em busca de redenção. No último episódio da série, igualmente passado no futuro, Echo e os sobreviventes finalmente conseguem eliminar a tecnologia de impressão, permitindo que a humanidade renasça.

Joss Whedon no set de Dollhouse

Com um caldeirão de ideias subjacentes – o uso de forma invasiva e imoral da tecnologia, a exploração e o abuso do ser humano (especialmente de mulheres), o poder indiscriminado das grandes empresas, a busca pela vida eterna -, Dollhouse falhou em alguns pontos mas sem dúvida foi uma série ousada e até à frente do seu tempo. O que não é de admirar vindo de Joss Whedon, que foi pioneiro ao introduzir no horário nobre temporadas com arcos individuais e personagens de sci-fi/fantasia abertamente gays. Caso fosse feita hoje para um canal fechado ou streaming, sem as amarras criativas ou de audiência da TV aberta, Dollhouse poderia ter explorado melhor seus temas e ser mais bem sucedida. Mesmo sendo um fracasso ambicioso na sua época, é uma série que hoje merece ser conhecida ou revista, e reconhecida.

Jorge Saldanha

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