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Resenha de Filme: CORINGA


Joker, EUA, 2019
Gênero: Drama Policial
Duração: 122 min.
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Frances Conroy, Brett Cullen
Trilha Sonora Original: Hildur Guðnadóttir
Roteiro: Scott Silver, Todd Phillips
Direção: Todd Phillips
Cotação: 3,5/5

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos e toda semana, para poder sustentar ele e a mãe idosa doente, ele precisa comparecer a uma agente social regularmente, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido injustamente, Fleck reage mal à gozação de três homens que estava assediando uma garota em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne (Brett Cullen) é seu maior representante e quer se tornar prefeito para acabar com a corrupção e colocar os bandidos na cadeia. Arthur Fleck também é um aspirante a comediante cujo maior sonho é mostrar seu talento no programa de Murray Franklin (Robert De Niro), mas tudo muda quando o vídeo dele vai parar no programa do ídolo da TV. Se as coisas já não estavam boas, então…

Mesmo sendo inspirado no icônico vilão das HQs do Batman e interpretado por vários outros atores talentosos (com direito até a surtos e um Oscar), o longa traz uma reimaginação completamente nova, complexa, profunda e psicologicamente perturbada do personagem Coringa (Joker, no original). O diretor Todd Phillips optou por seguir uma história quase que inteiramente original, sem muita ligação com os quadrinhos, para a origem do Palhaço do Crime. Por mais que já saibamos que o personagem de Joaquin Phoenix se tornará o Coringa ao longo do filme, o caminho que o leva até lá é surpreendente, e traz grandes reviravoltas ao longo da projeção.

Outro fator fundamental para a transformação de Arthur Fleck no Coringa é, claro, a sociedade. O incidente catalisador acontece quando o protagonista é agredido no metrô de Gotham, reagindo violentamente ao assassinar os três atacantes – funcionários das Empresas Wayne. Como o roteiro de Phillips estabelece uma luta de classes muito forte na cidade, o ato de Arthur é idealizado por parte da sociedade, que adota o símbolo de um palhaço para protestar contra Wayne e a inabilidade do governo em resolver os problemas das classes mais pobres. Como se o Coringa fosse o verdadeiro herói justiceiro que depois veríamos em Batman, mas por motivos diferentes. É o culto à bandidagem, comum em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

Mesmo que Arthur seja vítima do sistema injusto e também represente uma crítica à humilhação que os deficientes mentais sofrem até os dias de hoje, o filme pode valer, neste sentido, como uma forma de alerta para os problemas destas pessoas, que precisam de tratamento adequado. Em determinado momento, quando Arthur visita um manicômio, ele pergunta como as pessoas acabam parando lá. O filme acaba por mostrar uma viagem sem volta para o protagonista, pela sua pura psicopatia assassina, alimentada pelo seu culto popular. O que ele mais queria no mundo era fazer sucesso, mas escolheu a pior forma para isto.

A fotografia é cinzenta e suja, e sua Gotham City é bastante inspirada na Nova Iorque do final dos anos 1970, quando houve um aumento muito grande do desemprego e da criminalidade. Na verdade o ano não é especificado na produção, mas os três filmes que estão sendo exibidos nos cinemas de Gotham (Um Tiro na Noite, As Duas Faces de Zorro e Excalibur) são todos de 1981.

Dois clássicos filmes de Martin Scorsese (que semana passada meteu pau nos filmes de super-heróis Marvel) são bastante referenciados aqui: Taxi Driver e O Rei da Comédia. Mas também há uma pequena ligação com a trilogia Batman do Chris Nolan. Em verdade, o filme é Warner/DC mas não está ligado de forma alguma ao universo compartilhado que a DC desenvolveu no cinema nos últimos anos para concorrer com o Universo Cinematográfico da Marvel. É um filme em um universo próprio, como deverá ser o próximo longa do Batman com Robert Pattinson. A trilha sonora é outro destaque, bem como as escolhas das músicas. Joaquin Phoenix, ator que muitos achavam até agora que não fosse brilhante, dá um show de interpretação, sem contar é claro o Robert De Niro, cujo papel é curto mas lembra seus grandes momentos da carreira. Creio que os dois poderão ser indicados ao próximo Oscar.

Existe outro fato que remete muito às produções do Nolan: o filme mostra a visão do próprio personagem e seus delírios. Sendo assim, poderia ser toda a história contada algo que nunca existiu, mas que se passou apenas na cabeça do personagem o tempo inteiro? Duas das cenas (sem spoilers) mostram realmente isto! Outra coisa interessante é que o filme tem referências das HQs, mas poucas, já que não é exatamente do universo da DC, mas o diretor do filme sugeriu que Arthur Fleck não é o verdadeiro Coringa, mas sim o homem que o inspirou. A produção dá margem a muitas interpretações.

Brilhante… mas perturbador. Infelizmente vivemos em uma sociedade que não consegue controlar mais seus instintos, e Coringa poderá instigar o lado ruim delas, sendo considerado misógino, violento (realmente não é um filme para crianças e adolescentes, deveria ter censura 18 anos), às vezes racista ou pretensioso, com piadas de deficientes – mas estes são mais problemas do filme ou das pessoas que o assistem?

Ricardo Melo

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