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Sci Files: SINAIS – Um Clássico Subestimado


Não sou o um grande fã do diretor e roteirista M. Night Shyamalan, mas aprecio as qualidades, inclusive as hitchcockianas, de seus trabalhos mais valorizados. Com especial predileção por narrativas de cunho fantástico, em seus filmes autorais ele busca homenagear os gêneros que provavelmente são os de sua predileção – como histórias de fantasmas em O SEXTO SENTIDO, super-heróis na trilogia CORPO FECHADO, contos de fadas em A DAMA NA ÁGUA e ficção científica neste SINAIS (Signs, 2002). E como bom apreciador de sci fi que sou, é exatamente o filme de extraterrestres de Shyamalan o meu preferido dentre sua irregular filmografia.

Subvertendo o normalmente explosivo subgênero “invasão alienígena”, SINAIS é uma abordagem intimista do clássico GUERRA DOS MUNDOS (ao qual há uma referência explícita e outras mais sutis) e filmes por ele inspirados como INDEPENDENCE DAY, onde não vemos destruição ou batalhas contra os extraterrestres: a invasão é acompanhada pela pequena e interiorana família Hess principalmente através da TV.

O alienígena de Passo Fundo

Como em GUERRA DOS MUNDOS, temos um elemento religioso que permeia a trama, aqui centrado no pai de família Graham (Mel Gibson), ex-pastor cuja esposa morreu em um brutal atropelamento – tragédia que o leva a perder a fé em Deus e a abandonar seu clero. Neste sentido o elemento alienígena do filme, além de servir para propiciar cenas de suspense e sustos, é um caminho que cruza com o da religião e levará à retomada da fé perdida pelo protagonista, a partir da constatação de que tudo na vida tem um desígnio superior, de que não existe o acaso. Assim, os sinais do título se referem não apenas aos desenhos feitos pelos alienígenas nas plantações, mas principalmente às várias pistas de um enigma que Hess terá de solucionar, a fim de salvar sua família em um clímax surpreendente.

Além de ser muito bem escrito e dirigido (apesar do seu ritmo lento), o filme apresenta outros grandes trunfos, como o excelente desempenho de Gibson e Joaquin Phoenix como os irmãos Hess, e dos então pequenos Rory Culkin e Abigail Breslin (PEQUENA MISS SUNSHINE, ZUMBILÂNDIA) como os filhos do ex-reverendo. Até mesmo o diretor não decepciona na sua pequena mas decisiva aparição, como o veterinário que atropelou a esposa de Graham.

O suspense é gradualmente construído em sequências de ameaça latente, como as primeiras aparições no milharal do rancho, os noticiários que registram a chegada de astronaves e a primeira gravação de um alienígena feita em Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul. Shyamalan demonstra o seu pleno domínio do thriller em toda a soberba sequência onde a família está sitiada no porão, tentando evitar que as criaturas nele entrem – uma espécie de expansão da cena da casa em GUERRA DOS MUNDOS.

O trabalho de câmera é excelente, e os efeitos CGI dos pouco vistos alienígenas, usados discretamente e apenas com maior relevância no final (e ainda assim em poucas tomadas), se não são foto-realistas como os das produções atuais, são eficazes. Outro valor de produção que merece destaque é a trilha sonora original do colaborador do diretor em seus primeiros filmes, James Newton Howard, uma das melhores de sua carreira.

Bactérias em GUERRA DOS MUNDOS; água em SINAIS

Assim como Shyamalan segue a escola de Hitchcock, Howard aqui busca inspiração na obra do compositor das maiores obras do falecido diretor inglês, Bernard Herrmann. E ele o faz, sem que seu tema principal e a música incidental do filme soem como meras imitações. Sua partitura é praticamente a espinha dorsal do filme, gerando tensão e suspense, transmitindo delicadeza nos momentos certos, e finalmente construindo o palco sonoro para o memorável confronto final. Essa música, por vezes hipnótica, é responsável por grande parte da força das sensações que o filme transmite ao espectador.

Revisto hoje, SINAIS cresce como uma moderna e tocante parábola sobre a superação baseada na fé e no amor à família. Não tendo sido bem recebido pela crítica e arrecadando menos do que o previsto nas bilheterias, na época do seu lançamento, hoje este filme de Shyamalan pode ser considerado um pequeno clássico, subestimado por muitos mas progressivamente redescoberto por outros tantos, e cada vez mais apreciado.

Jorge Saldanha

3 comentários em “Sci Files: SINAIS – Um Clássico Subestimado

  1. Carlos Fernando Schmitt

    Excelente resenha de um excelente filme de ficção! Não abusa de “efeitos especiais realistas”, usa a imaginação do espectador. Um clássico!!

    Obrigado por lembrar deste excelente filme!

    Live long and prosper

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  2. Realmente. Excelente filme.

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  3. Eu gostei do filme, mesmo na época.

    Relembrando críticas a Zumbilândia, na época também não deram relevância, mas foi muito bom pela proposta, e agora o 2 chegando bate a nostalgia e os críticos mudam de idéia sobre o primeiro, pra vaiar. rsrs

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