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Sci Files: Os 50 Anos de 2001 – Uma ODISSEIA NO ESPAÇO


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2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO é um belo e intrigante filme que provocou controvérsia e mudou os rumos da ficção científica no cinema, quando foi lançado há 50 anos. Este verdadeiro balé de imagens cósmicas é baseado no conto de Arthur C. Clarke “A Sentinela”. Ele e Stanley Kubrick escreveram o roteiro, e Kubrick gastou três anos nas filmagens, tendo iniciado sua produção em dezembro de 1965.

O ENREDO – Não há dúvida de que sua história pode ser resumida, mas será plenamente compreendida? Clarke, na seqüência 2.010, filmada por Peter Hyams em 1984, bem que tentou. Mas o ideal é que cada espectador absorva as idéias de Clarke/Kubrick, transformadas em soberbas imagens, e tire suas próprias conclusões. Durante a primeira meia hora, acompanhamos a rotina de uma tribo de macacos vegetarianos, há cerca de 4 milhões de anos. Kubrick usa atores em roupas de macacos e uns poucos animais reais. Subitamente um grande monolito negro surge, atraindo a atenção dos antropóides. Até então o filme mostrara apenas formas da natureza, cenas magnificamente captadas pelo fotógrafo Geoffrey Unsworth, e seu contraste com as formas retas e artificiais do monolito é o primeiro grande momento de impacto do filme. A partir do instante em que tocam a sua superfície lisa, os pacíficos símios tornam-se carnívoros, territoriais, e começam a usar os ossos de suas presas como armas, a fim de manter os macacos de outras tribos longe dos seus domínios. Após um rápido confronto entre dois grupos, vencido pelos “eleitos” do monolito, um osso é lançado para o ar e começa a cair em câmara lenta, transformando-se em uma nave espacial. Com essa clássica cena, o filme encerra a narrativa do alvorecer do homem na Terra e avança 4 milhões de anos até 2001.

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Acompanhamos então a chegada do Dr. Heywood Floyd (William Sylvester), um cientista, à estação orbital (outro grande momento, a chegada do ônibus espacial à estação, ao som do “Danúbio Azul”). Lá chegando, quando colegas russos lhe perguntam porque eles foram retirados da estação lunar, apesar do acordo de cooperação com os EUA, Sylvester responde que não tem a mínima idéia. Já na Lua, descobrimos que o cientista sabia de toda a verdade, mas estava proibido de tocar no assunto com qualquer pessoa de fora do grupo de funcionários americanos de alto escalão. Na verdade, o governo havia feito uma descoberta assombrosa, e temia que a divulgação do fato provocasse pânico na Terra.

Sylvester e seus compatriotas usam um transporte lunar para levá-los a uma escavação, onde havia sido encontrada a primeira evidência de vida extraterrestre inteligente – um monolito que estivera enterrado por pelo menos 4 milhões de anos… Quando eles chegam perto do assombroso objeto, este emite um sinal de altíssima freqüência aparentemente em direção ao planeta Júpiter.

Um ano e meio depois, a grande espaçonave Discovery 1 está a caminho de Júpiter. David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) controlam a nave com a ajuda de HAL 9.000, o mais sofisticado computador dotado de inteligência artificial. A voz de HAL (Douglas Rain) é agradável, mas possui um tom irônico, às vezes sombrio (Martin Balsam originalmente gravou a voz de HAL, mas posteriormente foi substituído). A tripulação é completada por mais três homens mantidos em sono criogênico, e nem Bowman ou Poole conhecem sua real missão. HAL a conhece, porém foi programado para mantê-la em segredo até chegarem ao seu destino. Bowman e Poole cuidam das pequenas rotinas de bordo, tentando não ficar afetados pelo longo enclausuramento, enquanto HAL comanda todos os sistemas da nave. O computador era incapaz de mentir ou cometer algum erro, e os dois astronautas acreditam piamente em HAL quando ele reporta um defeito na antena da Discovery. Após Bowman retirar da antena a peça que estaria defeituosa, ambos com espanto não conseguem descobrir qualquer irregularidade.

Convencidos por HAL a recolocar a peça na antena e esperar pela falha, os homens do controle da missão, na Terra, informam-lhes que o impossível acontecera – o supercomputador aparentemente estava enganado. Os dois tripulantes começam a desconfiar da eficácia de seu computador de bordo, e dentro de uma cápsula auxiliar, isolados do resto da nave, decidem desativar as funções lógicas de HAL. O que eles ignoravam é que o computador estava acompanhando toda a conversa, lendo os seus lábios através da escotilha transparente da cápsula. Quando Poole sai da nave, HAL toma os comandos da cápsula e o ataca, cortando seu cabo de oxigênio. Poole fica flutuando no espaço, aparentemente morto. Bowman tenta salvá-lo em outra cápsula, enquanto HAL desativa as sistemas que mantinham vivos os astronautas em hibernação. Falhando em sua missão de salvamento, Bowman tenta voltar a bordo, mas é impedido pelas maquinações de HAL. Quando finalmente consegue retornar através de uma câmara de vácuo, Bowman desativa manualmente o “sistema nervoso” do computador, e ao fazê-lo descobre que a missão da Discovery possui relação com o monólito desenterrado na Lua.

A nave chega a Júpiter, e Bowman vê um outro monólito gigantesco em órbita do planeta. Ao sair na cápsula para examinar o intrigante objeto, o astronauta é envolvido por um show de luzes e cores, inúmeras imagens de oceanos estranhos, paisagens inóspitas e explosões de estrelas. Bowman desfalece, e quando acorda está envelhecido, em um quarto de dormir estilo 1.700, provavelmente no mundo natal dos criadores do monólito (ao fundo, ouvimos sussurros e sons guturais- a voz dos alienígenas?). Cada vez mais velho, ele se vê frente a frente com si mesmo, transformado em um ancião de 100 anos de idade. Dullea interpreta as duas versões de si mesmo, que travam entre si uma silenciosa conversação. É então que um novo monólito aparece e aproxima-se da cama do velho, agora agonizante. O filme se encerra quando um embrião, com um rosto que se parece com o de Bowman, flutua no espaço em direção à Terra.

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A PRODUÇÃO – Kubrick deliberadamente escolheu, para o elenco, Lockwood, Dullea e Sylvester, três atores praticamente desconhecidos à época, a fim de evitar qualquer interferência no modo como ele pretendia transmitir a sua visão da obra de Clarke, que de um conto foi transformado em novela, e em seguida no roteiro que a MGM pretendia financiar por míseros US$6 milhões. O orçamento, contudo, foi aumentando, o que gerou alguns atritos entre Kubrick e os executivos do estúdio, que achavam o filme estranho e arriscado. O custo final da produção acabou ficando em US$15 milhões, gastos principalmente nos então revolucionários (e ganhadores do Oscar) efeitos visuais, supervisionados pelo próprio cineasta. O jovem técnico em efeitos Douglas Trumbull (que posteriormente dirigiria e criaria os efeitos de Corrida Silenciosa e Projeto Brainstorm) elaborou o sistema que permitiu aos espectadores testemunharem, com um realismo à época inédito, o passeio de naves espaciais e astronautas pela tela dos cinemas.

Na equipe de Trumbull estava o ainda mais jovem John Dykstra, que alguns anos depois aperfeiçoou o sistema de controle de câmera e criou os combates espaciais do Star Wars original. Trumbull e Dykstra voltariam a se encontrar em 1979, para fazerem Jornada nas Estrelas – O Filme. A elogiada maquiagem e os trajes dos primatas foi criada por Stuart Freeborn (que em Star Wars confeccionou, com Rick Baker, as máscaras dos alienígenas da cantina de Mos Eisley). Juntamente com os efeitos especiais, a música de 2.001 é um capítulo à parte. Stanley Kubrick encomendara a trilha sonora para o veterano compositor Alex North, que no prazo acertado concluiu o trabalho, recebeu seu cachê e foi para casa. Imaginem a surpresa do compositor quando assistiu ao filme em sua estréia, e descobriu que a sua trilha havia sido substituída por peças de música clássica compostas por, entre outros, Aram Khatchaturian (“Gayane Ballet Suite”), Richard Strauss (“Thus Spake Zarathustra”), Johann Strauss (“Blue Danube Waltz”), etc. Mais uma amostra da genialidade de Kubrick, que a fim de acentuar o impacto das imagens do seu filme trocou uma trilha de qualidade, porém convencional, por peças orquestrais que mesclam momentos de belíssima harmonia musical com outros de extremo mistério e estranheza.

O INÍCIO DE UMA NOVA ERA – Ainda hoje 2.001 surpreende pelo perfeccionismo de seus efeitos visuais, porém o mais importante é que esta obra-prima dificilmente será superada por ter praticamente inaugurado uma nova linguagem cinematográfica; sua narrativa, por exemplo, ainda permanece tão profunda, sombria e dúbia como o enigmático monólito. O fascinante sobre este filme é que ele é “frio” em um nível meramente humano – o desempenho dos atores, seus rostos impassíveis como os de bonecos de cera, foi deliberadamente contido pelo diretor – , mas empolgante em uma escala “cósmica”. As visões do espaço são estupendas, as naves criadas para explorar o universo de Kubrick são perfeitas máquinas impessoais que se sobrepõem ao homem. O filme é pleno de interpretações, porém uma mensagem é clara: os avanços, o progresso do homem rumo às estrelas, sempre foram propiciados pelas máquinas perfeitas e imunes a falhas – a espaçonave Discovery, o computador HAL (que apenas falhou quando resolveu lutar por sua sobrevivência, tornando-se praticamente humano) e o próprio monólito. Na verdade, o homem só vai ter o seu grande momento na meia hora final de 2.001, quando acompanhamos a vitória de Bowman sobre HAL e a odisseia que terminará com o seu renascimento – quando, finalmente, vencer a máquina (?) e tornar-se um ser cósmico.

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À época do seu lançamento, Kubrick deliciou-se com a confusão provocada pelo filme, afirmando que deliberadamente manteve muitas perguntas sem resposta porque sua intenção era aguçar a curiosidade dos espectadores. Afinal, o que é o monólito? Quem o criou e o colocou na Terra? Para onde foi Bowman ao entrar no monólito de Júpiter? O renascimento do astronauta ao fim do filme significa o próximo estágio evolutivo do homem? Kubrick nunca responde. Mas hoje isso não importa muito, pois ao terminarmos de assistir o longa ficamos principalmente lamentando que, já tendo há muito deixado o ano de 2.001 para trás, ainda estejamos muito longe daquele futuro espetacular idealizado por Clarke e Kubrick nos anos 1960. É indiscutível, no entanto, que 2.001 foi um verdadeiro divisor de águas no cinema de ficção científica, que continuará a intrigar e maravilhar aqueles que tiveram a sorte de assisti-lo no cinema ou no mínimo em uma TV widescreen de tela grande, de preferência em Blu-ray.

Kubrick dirige 2.001 - Uma Odisseia no Espaço
Kubrick dirige 2.001 – Uma Odisseia no Espaço

Jorge Saldanha

32 comentários em “Sci Files: Os 50 Anos de 2001 – Uma ODISSEIA NO ESPAÇO

  1. Fabiano

    Bacana, tai um filme que mereceria ser refilmado com o mesmo tema, ou então uma reedição dos efeitos especiais.

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  2. REFILMAGEM SÓ DA PROBLEMA , MEXEM , ALTERAM ,MUDAM A LINHA TEMPORAL…

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  3. Fabiano

    Eu diria que toda refilmagem deveria por definição ter uma abordagem diferente como teve a nova BSG perante a original, acredito que por muito tempo, BSG será um marco e exemplo a ser seguido neste quesito.

    Eu só não consigo de forma alguma assitir filmes onde tenham efeitos especiais toscos, StarWars é de longe classico pois seus efeitos são ainda hoje muito apreciados…..

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  4. Opinião é opinião… para mim os efeitos de 2001 ainda são melhores que muitos CGIs de hoje.

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  5. Roberto

    Concordo com o Jorge.

    A sensação de realidade com maquete – no caso de 2001 – é muito melhor de que vários filmes em CGI.

    Um filme memorável e com efeitos fantásticos mesmo tantos anos após seu lançamento.

    Saudações!

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  6. É incrível que este filme ainda é um dos maiores filmes da história do cinema e o maior filme de sci-fi de todos os tempos. Sei que a molecada hoje, ficou “mal acustumada” com todo tipo de CGI e efeitos especiais. Poucos são os filmes com conteúdo, só tem efeitos.

    Refilmagem ? Heresia pura.

    Engraçado que vi “2001” pela primeira vez, na Globo, quando tinha uns 12 anos, passou em dois dias, pois era muito grande. Lembro da molecada falar que o filme era muito “besta”, pois não tinha ação. Mas algo já tinha me pegado. Depois de mais uma seção em VHS, tive a sorte de ver o filme nos cinemas, em 1999, aqui em Sampa, em um Festival que ocorreu na cidade. Foi uma seção a meia-noite em um lugar muito longe da capital paulista. VAleu cada centavo.

    Marco da ficção, Arthur C.Clarke virou meu escritor favorito. 2010 não chega nem aos pes do filme original. Os livros que continuam a saga, escritos pelo Mestre Clarke, são bons também, mas o filme ainda continua sendo único.

    Aula de cinema, e ispirou diretores como Spielberg, Lucas e…Duncan Jones. E nos inpira até hoje.

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    • Também tive a sorte de ver 2001 no cinema, mas isto bem antes de 1999 rs. Na época ainda existiam aqueles cinemas grandes, com telões 70mm (Cinerama) e som estéreo de 6 pistas. Sem dúvida foi uma das experiências que me fizeram apaixonar pela FC.

      Curtido por 1 pessoa

    • jesuelp

      Pois é refilmagem me lembra muito passar um vinil para cd… aquela coisa metalica sem graves puros, a gente não sabem bem o que é, mas é estranho. Pra quem não viu o antigo pode ate não estranhar, mas quem viu, compara e não gosta… Ta ai O Vingador do Futuro, Ben Hur, incomparaveis.

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  26. João Ferreira

    Um filmaço, o irônico é que a versão literária da obra, escrita pelo próprio Arthur C. Clarke, explica muita coisa que rola no longa.

    De qualquer forma, gosto da narrativa claramente subjetiva, do uso de composições clássicas para contrastar com a impressionante visão futurista ou sequências alienígenas e do embate Homem X Máquina.

    Mas é um filme que, reconheço, tem que ter uma certa “carga” para melhor apreciá-lo,

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