Sci Files: O PREDESTINADO – Papel Feminino na Ficção Científica, na Ciência e na História da Ciência


MATÉRIA ESPECIAL DEDICADA AO ‘MÊS DA MULHER’

A compreensão de que a vida é cíclica não é algo novo. Mas a concepção de que tudo se inicia na mulher não é só poético, mas também um recurso utilizado na ficção científica, e especificamente como plano de fundo do filme O Predestinado. Um agente temporal (Ethan Hawke) encara sua última missão após anos de viagens no tempo caçando criminosos e executando a lei. O desafio final será finalmente capturar seu inimigo mais desafiador, o homem que há muito o intriga e ludibria. Com direção e roteiro de Michael Spierig e Peter Spierig, o filme de 2014 ilustra melhor que qualquer outra obra a ideia de ciclo e a origem de tudo partir da mulher.

Sarah Snook e Etahn Hawke em cena de O Predestinado

[Início de spoiler] Tudo começa em Jane e termina em Jane. Ela é o começo, o fim, e o meio. Ela é o encontro com ela mesma. Ela não se enxerga em outras pessoas e precisa se enxergar em si, se encontrar e se apaixonar por si. [Fim do spoiler] Tudo pode ser interpretado de forma metafórica em O Predestinado. O filme mostra que a mulher pode ser grandiosa mesmo tendo sido abandonada, desacreditada, desiludida. O filme trabalha a força de Jane, uma mulher que dentro das suas dificuldades conseguiu crescer por causa de sua força interior, se tornou o que sempre sonhou, parte de algo maior que ela e então, mesmo com tanto sofrimento, entendeu que a vida é um ciclo e que é preciso se perdoar.

É muito difícil ser mulher em um mundo patriarcal. É difícil ser mãe, mais ainda mãe solteira. É difícil viver de ciência sendo mulher, e é na ficção científica onde mais podemos imaginar cenários possíveis nos quais essas mulheres existem e resistem. Como ignorar Louise Banks, vivida por Amy Adams em A Chegada (2016, dir. Denis Villeneuve)? Uma linguista certa de seu trabalho e que se mostra tão forte que, mesmo sabendo do seu futuro como mãe separada e em conflito com o ex-marido, ainda aceita seu destino, não hesita e se mostra forte o bastante para encará-lo. Ou Jane Doe (Sarah Snook), de O Predestinado, que tem sua vida fora do curso por ter sido abandonada grávida, sua filha sequestrada e ainda encontra forças para se identificar como um homem transexual e buscar seu sonho? E Quellcrist Falconer (Renée Elise Goldsberry) de Altered Carbon (2018 – , criada por Laeta Kalogridis), que além de líder da resistência ainda conquista seus próprios seguidores, a ponto de se tornar uma religião denominada “Quellism”? E podem-se citar muitas outras como Prairie Johnson (Brit Marling), de The OA. Uma menina cega que consegue voltar para casa depois de sete anos desaparecida, tendo sido torturada e mantida em cativeiro com outras pessoas, e no seu retorno inspira pessoas que não tem nenhuma perspectiva ou esperança. Ou ainda Hamilton (Gugu Mbatha-Raw) de The Cloverfield Paradox, que é uma mulher, negra, lidando com a culpa pela morte dos filhos, e mesmo assim vai como astronauta cumprir sua missão na ciência; e várias outras, como as irmãs de Onde Está Segunda?, as clones de Orphan Black, A Ariadne de A Origem e muitas outras, que foram bem sucedidas e devidamente reconhecidas em seus papeis dentro de suas obras. Mas historicamente, a ficção científica nem sempre foi tão generosa com as mulheres.

Mesmo hoje temos uma gama de mulheres que escrevem ficção cientifica, produzem, dirigem e roteirizam – inclusive duas mulheres brasileiras com o projeto “Universo Desconstruído”, Lady Sybylla e Aline Valek. Ainda assim, o inicio foi hostil para Mary Shelley autora do romance gótico Frankenstein: ou O Moderno Prometeu (1818), que mesmo casada com um escritor, estimulada desde cedo pelo pai e guiada pela mãe declaradamente feminista, precisou usar pseudônimo para promover seu conto que hoje é considerado a primeira história de ficção científica. E mesmo depois de se identificar, ela ainda foi desacreditada porque acreditavam que tinha sido uma obra em conjunto com seu marido, que era um grande romancista da época. E Andre Alice Norton, que muito tempo assinou como Andre Norton, Andrew North e Allen Weston, que foi a primeira mulher a ganhar um SFWA Grand Master (Damon Knight Memorial Grand Master Award), prêmio Norte-americano que consagra grandes autores de ficção científica e fantasia. E também Ursula K. Le Guin, falecida recentemente, em janeiro de 2018, aos 88 anos, que nos deixou obras que se tornaram filmes e animes, como Tales from Earthsea e Lathe of Heaven, e ainda assim amplamente criticada por explorar de maneira original as consequências de uma sociedade livre de machismo.

Mas o que podemos ver no sci-fi é um breve espelho do que acontece da área da ciência, todos os dias. Temos um histórico de mulheres que são desde sempre desestimuladas a ponto de desistirem da carreira científica. Não se vê dentro da área, e quando conseguem entrar, mesmo com tanta dificuldade, ainda sofrem pressão contínua de várias formas para que a abandone. Essas mulheres se sentem o tempo todo dentro de suas carreiras como se estivessem lá para cumprirem protocolo, uma cota ou um favor que lhes foi concedido, e nunca por mérito ou justiça. Ao fazerem algum tipo de denúncia a um ato, a um superior ou colega, a uma situação, tendem a temer pelos seus empregos porque sentem em tempo integral que ninguém as queria ali; reclamar não faz diferença, porque nem era para ela ter chegado ali.

Joan Clarke (Arte: Gini Wade)

Mas ainda precisamos saudar mulheres como Rosalind Franklin, que nunca recebeu um Nobel ou reconhecimento pelo descobrimento da estrutura do DNA. Fato importantíssimo para a Medicina, mas que foi creditado a James Dewey Watson e os britânicos Maurice Wilkins e Francis Crick, que apenas confirmaram a dupla estrutura helicoidal da molécula do DNA, dando-lhes o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina no ano de 1962. Rosalind morreu de câncer aos 37 anos, em 1958 e o Nobel nunca é entregue de forma póstuma, portanto ela nunca foi consagrada pelo Prêmio; e aí vemos Marie Curie, física, química e primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel, primeira mulher a ganhar um Nobel duas vezes e a única pessoa a ganhar dois Nobels em ciências diferentes. E além de seus feitos, ainda colocou sua filha, Irène Joliot-Curie, na ciência, e a mesma, mais tarde ganhou um Nobel de Química pela descoberta da radioatividade artificial em 1935; Dorothy Hodgkin, pesquisadora química, mãe de três filhos e ganhadora de um Nobel em 1964; Joan Clarke, criptoanalista e nominalista britânica, famosa por ter participado da equipe de Alan Turing que venceu a Enigma, máquina de criptografia nazista. Ainda que brilhante e próxima de Turing, é mais reconhecida por ter sido noiva do mesmo, como um disfarce, e mais tarde interpretada por Keira Knightley no filme O Jogo da Imitação (2014, dir. Morten Tyldum); Hedy Lamarr, inventora do que hoje é o wi-fi, é mais reconhecida como atriz e bombshell do que por seus feitos científicos; Ada Yonath, vinda de uma família pobre, mas hoje aos 78, com um trabalho pioneiro na estrutura dos ribossomos e um Nobel em 2009; e a mais recente, Alexandra Elbakyan, de apenas 29 anos, cazaque estudante de pós-graduação, programadora de computadores e criadora do site Sci-Hub.

Todas essas mulheres, brilhantes em suas áreas, relatam ou relataram casos de abusos. Temos pouquíssimas mulheres que entram para a ciência, e quando entram, são desestimuladas e encorajadas do começo ao fim de suas carreiras a desistirem. Ainda existem pensamentos muito retrógrados em centros de pesquisa e desenvolvimento e geralmente quem coordena esses centros são homens. Homens que não contratam mulheres, homens que contratam mulheres apenas por perversão, homens que perseguem mulheres, homens que perseguem, matam, estupram, assediam mulheres todos os dias dentro da ciência por se sentirem detentores do poder de decidir a carreira de uma pessoa apenas pelo gênero. Hoje as mulheres são minoria na ciência, estima-se que para cada 8 homens, temos 2 mulheres trabalhando no ramo científico, e é o que precisamos mudar urgentemente, para vermos cada vez mais mulheres em cargos de orientação e coordenação, e que torne o ambiente mais confortável para outras mulheres.

Hoje, vivemos em tempos de mudanças abruptas e profundas, então podemos começar pela ficção científica, que como sabemos, sempre inspirou filosofia, ciência e tecnologia no mundo real, então podemos começar no sci-fi ou entre seus fãs, para que tenhamos menos da imagem feminina colocada como musas inspiradoras como Lois Lane, ou mulheres sucedidas usadas como exemplo da isenção de seletividade da mulher na ciência, como o memorando do ex-engenheiro da Google, ou a sexy ingênua que precisa de um homem para guiá-la, como em O Quinto Elemento. A mulher pode, e deve, ser colocada como um ícone de força independente ou de colaboração equilibrada como a Major de Ghost in the Shell (1995, dir. Mamoru Oshii) ou Claudia Tiedemann de Dark (2017 – , criada por Baran bo Odar e Jantje Friese). Não precisamos de mulheres que apenas saibam pegar em armas, mas também de mulheres que representem um futuro desejável para mulheres na ciência, e que respondam por seus nomes.

Larissa Limas

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