Sci Files: De Frankenstein a Black Mirror – 200 anos de Terror


Em 2018 comemoramos 200 anos do gênero ficção cientifica. Iniciado em 1818 por Mary Shelley, o conto foi eleito como primeira ficção cientifica, mas também é uma história de terror. Isso gerou, durante os anos, um medo em relação à ciência e a tecnologia que, quando combinadas a religião, trazem um pavor social sobre avanços. Podemos ver exemplificada como a comunicação é um fator essencial para crença popular; em 1838, que por medo do progresso cientifico que Pierre Thuiller afirmara que o homem chegou a ponto de equiparar com Deus. Nesse contexto, Mary Shelley escreveu Frankenstein em 1818, que era uma critica aos experimentos, mostrando sua opinião sobre a ideia de criar vida em laboratório não ser exatamente algo tão positivo.

Nesse cenário, os veículos de comunicação se embasaram em que aranhas eram criadas em laboratório! Foi então, que em 1836 o Andrew Crosse teve seu nome estampado no jornal Somerset County Gazette por um editor que afirmava que havia criado animais parecidos com aranhas e ácaros em seu laboratório. Logo Crosse enviou um relatório à Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência de Bristol, e em pouco tempo jornais e revistas escreviam sobre os feitos no campo da eletrobiologia realizados por Crosse.

Fato similar ocorreu 100 anos depois, em 1938, quando a radiodifusão de Guerra dos Mundos foi ao ar no Halloween. O evento foi baseado no que parecia ser crível, uma invasão marciana, após muito se falar de estudos de vida em Marte. Aproximadamente seis milhões de pessoas estavam ouvindo, e dentre elas, ao menos um milhão foi à total histeria. Houve o caso de uma mulher que queria tomar veneno e o marido chegou na hora. Mas muitas pessoas entraram em total desespero, sentiam um medo absurdo, abandonaram suas casas, ligaram para entes queridos os alertando e se despedindo.

Isso foi estudado pelo brasileiro Roberto de Souza Causo, em 2003 no livro “Ficção Cientifica, Horror e Fantasia no Brasil”. O gênero ficção cientifica vêm de uma narrativa mais abrangente e antiga, como o gênero literatura especulativa, que deriva da capacidade do ser humano de criar e imaginar cenários, outras realidades, diferentes do que podemos de fato experimentar no nosso mundo. Segundo o autor, isso vem do desejo de relativizar a nossa realidade:

“É possível afirmar que o objeto deste estudo – a literatura especulativa – existe e sempre existiu sob a forma de narrativas orais: o que era contado em volta das fogueiras do paleolítico deviam ser narrativas de deuses e demônios, fantasmas e avatares, cujas ações podiam promover o desenvolvimento ou a destruição de uma comunidade. Em termos de crítica literária, eram narrativas próximas ao que se chamou de mito.” (CAUSO, 2003). Reafirmando esse pensamento, encontramos “Intersections: Fantasy and Science Fiction” (1987), obra de George Slusser e Eric Rabkin, que nos dirige à ideia que a ficção e a ciência estão interligados, como uma forma de questionamento e aprofundamento da compreensão do nosso universo.

Em meio a esse cenário, anos depois ainda não conseguimos nos desvencilhar do pavor à tecnologia, e a prova disso é a série Black Mirror (2011 – ) da Netflix. É impressionante que tanto tempo depois, com tantos avanços científicos e tecnológicos alcançando o mainstream, ainda consumimos entretenimento que traz sentimentos que já deveríamos ter abandonado. Isso pode ser culpa da amídala, órgão do tamanho de uma noz que nos faz identificar medo, essencial para nossa sobrevivência mas explorado por obras de horror. Então este artigo tem a intenção de resignificar as plataformas e ferramentas que foram usadas negativamente em cada episódio*, dando um sentido positivo à ciência e à tecnologia. Toda ferramenta pode se tornar uma arma, quem a corrompe é o homem, mas não podemos deixar de evoluir, ou sentirmos medo de evoluir, por causa de previsões bíblicas ou cinematográficas. (Contém spoilers)


  • Black Mirror 1 x 02

Fifteen Million Merits“, dirigido por Euros Lyn, escrito por Charlie Brooker & Kanak Huq (11/dez/2011).

Sinopse: Em uma sociedade onde as pessoas ganham a vida se exercitando para gerar energia e receber méritos como lucro, um jovem usa seus méritos herdados para ajudar sua namorada a fazer um teste em um concurso de talentos da realidade.

Tecnologia/ciência: Um gerador de energia a partir de exercícios físicos

Como foi usada: Como simbolismo de “ratos de laboratório”, “hamsters”. Colocando-nos como ratinhos que estão constantemente girando e não conseguem pegar o pedaço de queijo, mas eles no caso estão motivados pelo entretenimento exagerado, como reality shows e pornografia descarada.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Da forma mais óbvia possível! Um gerador de energia barato que te obriga a deixar de ser sedentário?! Como isso seria negativo?

  • Black Mirror 1 x 03

“The entire history of you”, dirigido por Brian Welsh, escrito por Jesse Armstrong (18/dez/2011).

 Sinopse: Um casal passa por problemas conjugais quando o marido suspeita que sua esposa está o traindo, o que é provado através do uso onipresente de implantes de “chips” que registram tudo o que uma pessoa vê e ouve e é reproduzido através de “redemonstrações”. Elenco: Toby Kebbell e Jodie Whittaker.

Tecnologia/ciência: Um chip empregado atrás da orelha que é a capaz de registrar tudo que o usuário viu. Pode filmar, fotografar, repassar, transmitir, tudo o que o usuário vê, se torna arquivo.

Como foi usada: Mostrando uma distância nas pessoas em momentos reais, onde eles utilizavam para viver no passado, com memórias antigas, e posteriormente como provas de uma traição conjugal, onde o marido consegue assistir tudo que a esposa fez com outra pessoa, o fazendo perder a cabeça.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Hoje temos como filmar e fotografar tudo com o celular, a temos na palma da mão, o tempo inteiro. Dificilmente você vai chegar a um lugar onde as pessoas não tenham celulares na mão ou ao menos no bolso. Uma tecnologia que possa fazer isso sem o uso de uma tela, com um gadget implantado, tudo apenas com um botão que vai e volta, é impressionante! Isso seria excelente para resolução de casos onde não acreditam nas vitimas ou apenas para desenvolver empatia, já que quem está assistindo, está vendo quase que literalmente, com os olhos de outra pessoa.

  • Black Mirror 2 x 01

“Be right back”, dirigido por Owen Harris, escrito por Charlie Booker (11/fev/2013).

Sinopse: Quando seu namorado Ash morre em um acidente de trânsito e descobre que está grávida de um filho dele, Martha recorre a uma tecnologia que simula a personalidade de Ash de acordo com seu perfil em redes sociais.

Tecnologia/ciência: Robótica, inteligência artificial.

Como foi usada: Para o comércio, como um ressucitador de mortos.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Eu pessoalmente acredito que esse seja um dos episódios mais perturbadores e um dos mais próximos da nossa realidade. A dor do luto é algo que ainda não sabemos lidar perfeitamente, mas utilizamos o tempo para seguir a vida. Esse episódio nos apresenta a ideia de imortalidade, como poderíamos usar a tecnologia a nosso favor para driblarmos a morte. O maior problema é a questão ética (quem morreu realmente gostaria de continuar vivendo através de um robô?) e a questão filosófica (até que ponto ele é uma pessoa já que tem memória e sentimentos?). São questões não respondidas, mas apenas por ser uma forma de contornar a morte, é algo no mínimo, admirável. Um filósofo americano chamado Jason Silva diz que a tecnologia acelerou a evolução e nós hoje temos o poder de sermos imortais, a tecnologia é o que nos transformou em deuses. Hoje em dia, inspirado na série já temos aplicativos, como o Replika, que fazem exatamente o que a série faz (na parte do software), uma inteligência artificial que conecta em redes sociais, conversa com o usuário e aprende sobre ele a ponto de traçar sua personalidade com mais precisão que pessoas próximas a cada vez que passa de nível.

  • Black Mirror Especial de Natal

“White Christmas”, dirigido por Carl Tibbetts, produzido por Charlie Brooker (16/dez/2014).

Sinopse: No Natal, em uma cabana isolada de uma área coberta de neve, dois homens discutem como chegaram até lá, um ponto de discussão que eles nunca tiveram nos últimos cinco anos.

Tecnologia/ciência: um “ovo” onde você guarda uma cópia de alguém, e a pessoa acredita estar no mundo real. A cópia está em uma realidade simulada, onde seu dono tem capacidade pra medir o tempo que ele está lá e pode o torturar psicologicamente independente de seu fim desejável. E também mostra no fim do episódio um bloqueio, exatamente como o das redes sociais mas no mundo real; quem foi bloqueado não pode ver nem interagir com outras pessoas e as outras pessoas não conseguem o ver, tudo é um borrão e a voz é abafada.

Como foi usada: A primeira para confissões de criminosos, e a segunda como pena.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Surpreendentemente, eu creio que seja positivo. Como é usado pela policia (a segunda), significa que é usada por pessoas treinadas e com um fim especifico. Já a segunda, também seria positiva se tivesse sido usada apenas pela policia, mas é uma tecnologia comercializável, que a pessoa pode usar como um assistente. Mas esse assistente vive em uma tortura constante já que seu original pode determinar quantos dias são passados dentro do ovo. Inclusive, isso pode nos falar muito sobre empatia. Como a empatia é algo difícil de desenvolver se não conseguimos ver o que o outro vê, até quando se trata de nós mesmos (quem nunca fez uma conta imensa e deixou para o seu futuro-eu pagar, sem saber se ele poderia arcar?).

  • Black Mirror 3 x 06

Hated in the Nation“, dirigido por James Hawes, escrito por Charlie Brooker (21/out/2016).

 Sinopse: Uma série de assassinatos está ligada a Insetos Drones Autônomos, substituições mecânicas do distúrbio do colapso das colônias e a hashtags em redes sociais.

Tecnologia/ciência: redes sociais, drones

Como foi usada: para vigilância, e posteriormente, justiça com as próprias mãos.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Como a minha ideia não é tratar de ferramentas que já temos, então nesse item vou comentar apenas sobre as abelhas robóticas. Não é surpresa o desequilíbrio ambiental que o ser humano causou (e causa!), usar a tecnologia para reparar isso e manter a cadeia alimentar funcionando é algo plausível, já que a nossa interferência causou o desastre, então é justo usarmos nossa tecnologia para repararmos isso. Creio que a série usa inicialmente isso de forma positiva, mas com o hack, se torna uma arma de assassinato em massa, e algo positivo vira terrorismo. Sempre haverão hackers, sempre haverão pessoas que conseguem burlar um código, mas isso não significa que a segurança dessa tecnologia não vá avançar. Imagine que você tem uma casa. Essa casa é aberta, e um dia alguém a invade. Você põe uma cerca. Alguém passa por baixo. Você põe um muro. Alguém pula. Você põe arame farpado. Alguém o tira. E assim por diante. Alguém sempre vai quebrar a segurança, mas se alguém pode quebrar, alguém também pode barrar.

  • Black Mirror 4 x 01

“USS Callister”, dirigido por Toby Haynes, Charlie Brooker & William Bridges (29/dez/2017).

Sinopse: Ao descobrir que está em um mundo digital, uma nova tripulante da USS Callister deve instruir seus colegas a fugir de um capitão tirano. Elenco: Jesse Plemons, Cristin Milioti, Jimmi Simpson e Michaela Coel.

Tecnologia/ciência: jogo de realidade virtual onde você pode recriar pessoas a partir do seu DNA dentro do jogo, fazendo upload de memórias e crenças.

Como foi usada: Como vingança do desenvolvedor que segue o padrão nerd, solitário e totalmente obcecado.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Em alguns momentos fica claro que o jogo com material genético e usado para tortura é apenas do desenvolvedor; a empresa ou os usuários comuns não tem essa tecnologia, e o jogo é online. O jogo em si não apresenta nenhum risco, creio que a emprego positivo esteja em algo também apresentado na série: a tecnologia só é um instrumento de tortura se um torturador a usar.

  • Black Mirror 4 x 02

“Arkangel”, dirigido por Jodie Foster, escrito por Charlie Brooker (29/dez/2017).

Sinopse: Ao perder sua filha momentaneamente, uma mãe preocupada apela a meios alternativos para zelar por sua segurança.

Tecnologia/ciência: um dispositivo de GPS que além da localização, é possível ver o que o filho vê e colocar um filtro, que o impede de ver situações estressantes como violência, morte ou pornografia.

Como foi usada: para uma vigilância constante e não autorizada da mãe com a filha

Como poderíamos empregá-la positivamente: é uma tecnologia que já temos, e a parte do filtro e de ver o que filho vê é quase uma arma, não tem como, de forma alguma, ter um bom resultado a partir disso. Mas eu coloquei esse episódio aqui para salientar a questão da empatia. A ultima cena, quando a filha quase mata a mãe porque o filtro está ativado, é uma critica aos ataques que fazemos porque não conseguimos ver a dor do outro. A filha começa agredir a mãe e por acidente coloca o filtro, e a cada vez que ela bate com mais força, ela não vê o dano que tá sendo causado. É basicamente o que acontece com quem “não acredita” em lutas de minorias, não consegue ver o que o preto, o pobre, o LGBT, a mulher sofrem, então eles se sentem confortáveis em atacar. E se mantém com o “filtro levantado” justamente para não precisarem ver essa dor. Mas tudo é adaptável, como a série mostra o cachorro. Quando criança ela tinha medo, e depois ela desenvolve uma amizade com ele depois que ela consegue o enxergar, sai da bolha e deixa de o invisibilizar.

  • Black Mirror 4 x 03

“Crocodile”, dirigido por John Hillcoat, escrito por Charlie Brooker (29/dez/2017)

Sinopse: Uma arquiteta luta para que seu segredo não seja descoberto e uma detetive investiga um acidente.

Tecnologia/ciência: um aparelho que transmite em vídeo as memórias quando acionadas e um food truck que não precisa de motorista nem atendente, totalmente robotizado.

Como foi usada: para a assassina chegar à família da investigadora, e para a investigadora incriminar a empresa dos food trucks que atropelou um rapaz.

Como poderíamos empregá-la positivamente: esse episódio trata da empregabilidade da mentira, como precisamos de mentiras cada vez maiores para cobrir algo. Mas a tecnologia é bem vista, o aparelho das memórias é usado pela policia e mesmo disponibilizado ao publico, poucas pessoas tem conhecimento disso, é usado por detetives e agentes de seguros para auxiliar nos processos de vitimas de acidentes. Sem falar do food truck que funciona de forma remota, é a mesma coisa que a gente vê na Pizza Hut, mas sem precisar de alguém para colocar e tirar a pizza.

  • Black Mirror 4 x 04

“Hang the DJ”, dirigido por Tim Van Patten, escrito por Charlie Brooker (29/dez/2017)

Sinopse: Um casal resolve desafiar o funcionamento de um aplicativo de relacionamentos. Elenco: Georgina Campbell, Joe Cole, Gwyneth Keyworth e George Blagden.

Tecnologia/ciência: um sistema como o Tinder, mas que mostra a validade do relacionamento e você vive dentro do sistema.

Como foi usada: para mostrar o par ideal, aquele com quem você vai passar o resto da vida.

Como poderíamos empregá-la positivamente: Esse é meu episódio preferido da temporada, se não, o meu preferido da série, por isso fiz questão de colocá-lo. Não era necessário que ele aparecesse nessa lista já que é uma tecnologia positiva. Eu o coloquei para saudar Charlie Brooker, que conseguiu imaginar um futuro tão positivo a partir de uma tecnologia que não usamos de forma saudável HOJE! O Tinder é um calibrador de autoestima, onde as pessoas o usam para sanar na maior parte das vezes um tesão momentâneo. Há sim casais que dão certo no Tinder, e foi justamente isso que Charlie Brooker trouxe. É lindo ver como ele transfere os algoritmos para uma realidade simulada, onde você dá um significado para a precisão de acerto do sistema, onde ele te cansa e te faz provar o quanto você quer e merece e estar com aquela pessoa. Cada situação vivida, cada rebelião, “tudo acontece por uma razão”, e é colocado de forma belíssima, trazendo vida para sistemas automatizados.


Todos os cenários apresentados pela série são sim possíveis dentro de seus contextos porque insegurança, medo, senso de justiça com as próprias mãos e apenas maldade são características humanas (o próprio criador da série tem como característica trabalhar com elementos surreais e um pessimismo latente), mas isso não significa que vá ser usado assim por todo mundo. Se seguirmos essa linha de pensamento, precisamos tirar carros das ruas também! Carros são armas se usados de forma irresponsável, mas isso não significa de forma alguma que todo motorista é sádico ou irresponsável. A ficção cientifica nos dá a capacidade de imaginar um futuro desejável ou de avaliar possibilidades com a tecnologia. Inclusive, por causa de Black Mirror, nasceram aplicativos e ferramentas que estão em fase de protótipo porque desenvolvedores viram que aquilo é algo positivo. Nem todo futuro precisa ser distópico, e Black Mirror é uma série de terror psicológico altamente perturbadora que nos apresenta apenas uma das possibilidades, dentre as inúmeras que temos para construir.

* Episódios não citados são os que mostram uma tecnologia que já temos hoje e é comum, ou que é uma tecnologia com único intuito de ser usada como arma.

Larissa Limas

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