Resenha de Trilha Sonora: SPIDER-MAN: HOMECOMING – Michael Giacchino


Música composta por Michael Giacchino
Selo: Sony Masterworks
Formato: CD, Digital
Lançamento: 07/07/2017
Cotação:

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) traz a terceira versão cinematográfica do icônico herói, agora interpretado pelo jovem ator inglês Tom Holland e ao lado dos Vingadores do Universo Cinematográfico da Marvel, depois de fazer uma ponta em Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016). Na trama, Peter Parker é um garoto de 15 anos de idade, que tenta equilibrar os desafios da adolescência com sua nova carreira super-heroica. No entanto, quando ele descobre que o vilão Adrian Toomes, o Abutre (Michael Keaton) vem coletando o armamento alienígena que ficou para trás após a batalha de Nova York, mostrada em Os Vingadores (The Avengers, 2012), e revendendo-o para criminosos, Peter se dedica a impedi-lo, a fim de impressionar seu mentor, Tony Stark (Robert Downey Jr) e garantir uma vaga definitiva no grupo de heróis. Comandando a trilha sonora, está o onipresente Michael Giacchino.

Até o ano passado, eu achava curioso que, tendo feito diversos blockbusters de ação, aventura e ficção científica nos últimos anos, Giacchino não havia trabalhado em um filme de super-heróis (o gênero mais comercialmente bem sucedido de Hollywood nesse século) desde Sky High: Super Escola de Heróis (Sky High, 2005). Afinal, o estilo orquestral, criativo e colorido do compositor seria ideal para resgatar a inconstante música dos filmes de heróis, que alternam entre trilhas boas, medianas e ruins. Eis que o sujeito aproximou-se da poderosa Marvel Studios no ano passado, compondo não apenas uma ótima trilha para Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016) como também a fanfarra do novo logo da casa.

A trilha do novo Aranha, porém, traz uma dificuldade adicional: o personagem inspirou algumas das melhores trilhas de super-herói do século, nas mãos de gente como Danny Elfman, Christopher Young e James Horner (vamos fingir que o pavoroso score de Hans Zimmer e sua caríssima banda para o último filme do personagem não existiu, foi apenas um pesadelo de nossas mentes). Portanto, Giacchino deveria manter o padrão de qualidade estabelecido por seus predecessores, mas também oferecer algo que seja seu próprio, que destaque esta como sendo a sua visão para o Homem-Aranha – como Horner fez em relação a Elfman, aliás. Felizmente, Giacchino cumpriu ambas as tarefas com louvor.

Muito se reclama que a música dos super-heróis hoje em dia não ofereça temas tão icônicos quanto os de antigamente. Bem, para o crédito de Giacchino, ele ao menos tenta criar melodias identificáveis e memoráveis para os heróis de seus filmes. Seu tema para o Homem-Aranha aqui tem três partes: a primeira é curiosamente similar a outro dos temas de Elfman para filmes de heróis, o de Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, 2015); a segunda rearranja a estrutura da primeira; enquanto a última é mais abertamente heroica, lembrando as trilhas para o Aranha de Sam Raimi ao evocar o mesmo senso de espanto e admiração perante as acrobacias do personagem nos céus nova-iorquinos.

Mas o que mais se destaca em tal tema é a forma como Giacchino o põe sob diferentes perspectivas: em Academic Decommitment, ele surge num arranjo digno de uma canção pop, interpretado por cordas, bateria, violão e teclados, deixando claro que esse Peter ainda é um jovem desengonçado. Já em On a Ned-To-Know Basis e No Vault of His Own, o tema é ouvido em cordas pizzicato, flautas e percussão, representando os desafios da adolescência vividos pelo protagonista com leveza e bom humor. Apenas em faixas como Webbed Surveillance e Monumental Meltdown ele ganha ares mais heroicos e grandiosos em metais, com os quais aparecerá na música de ação do compositor.

Já o tema do Abutre é melodramático e grandioso, talvez até mesmo de forma excessiva – poderia ser um dos temas do Império Galáctico de Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016). Por outro lado, talvez isso seja proposital: afora seu embate com os Vingadores do time do Capitão América, o Abutre ainda é o adversário mais poderoso que Peter já havia enfrentado até então. O filme deixa claro que Peter aqui apenas é um garoto com um uniforme e habilidades de aranha, portanto, dificilmente seria páreo para um criminoso violento, inteligente e armado por um poderoso traje. Dessa forma, a grandiosidade do tema do Abutre serve para retratar o quão perigoso ele é aos olhos do nosso herói. No disco, ele é introduzido em The World is Changing, inicialmente de forma mais suave, porém ganhando ares cada vez mais ameaçadores a partir da segunda metade da faixa. Mais adiante, ele surgirá em arranjos quase apocalípticos em meio às enérgicas melodias de ação do compositor, denotando todo o perigo representado pelo vilão.

Além disso, a trilha também possui outros dois motivos menores. O primeiro é um tema terno e delicado para Liz (Laura Harrier), a paixão de Peter no colégio. Ouvido aos 1:51 em flautas, cordas e piano, ele infelizmente aparece pouquíssimo no disco, embora seja um pouco mais frequente no filme. O outro é dedicado a Tony Stark, e deve ser provavelmente o centésimo tema para o herói metálico desde que ele surgiu nas telas do cinema, há quase dez anos. Não é um tema ruim, na verdade: ouvido a partir da marca de 1:53 de Ferry Dust Up, ele utiliza tímpanos e trombone para retratar a força e o poder do personagem. Mais adiante, em A Stark Contrast, ele aparece de forma mais melodiosa, num suave clarinete. No entanto, particularmente, eu teria preferido que Giacchino tivesse utilizado o ótimo tema que Brian Tyler escreveu para o terceiro filme-solo do herói, oficializando-o como a identidade musical oficial de Tony Stark. Por outro lado, ao menos o compositor faz duas breves, porém divertidas, menções ao tema dos Vingadores de Alan Silvestri, primeiro em The World is Changing e depois em A Stark Contrast.

Na primeira metade do disco, esse trabalho de Giacchino não lembra a sua típica “trilha de super-heróis”. As faixas iniciais trazem um estilo quase jazzístico, combinando orquestra com baterias, baixos, teclados e guitarras, lembrando mais outra trilha do MCU: o divertido trabalho de Christophe Beck para Homem-Formiga (Ant-Man, 2015). Aqui, fica notável que Giacchino estava se divertindo bastante com a música, e não só ao nomear os títulos das faixas (e eu tenho que admitir que as piadinhas com o nome do vilão Abutre, ou Vulture em inglês, puseram um sorriso no meu rosto). As citadas Academic Decommitment, No Vault of His Own, além de The Baby Monitor Protocol, tem um estilo cool e divertido, mais alinhado com o trabalho de Giacchino em Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Zootopia, 2016) do que com qualquer outro filme de ação que ele fez anteriormente. Já faixas como High-Tech Heist e Webbed Surveillance poderiam ter saído da trilha de Giacchino para algum thriller de assalto.

No entanto, o restante da música de ação do disco tem a mesma qualidade que aprendemos a esperar de Giacchino em blockbusters de ação e ficção científica desta década. Monumental Meltdown, as duas partes de A Boatload of Trouble, bem como Lift Off, são o tipo de faixa de ação na qual Giacchino vem se especializando nos últimos anos: as do tipo slow burn. Tais faixas, através de melodias orquestrais simples, porém cada vez mais intensas, conduzem a tensão de cada cena – pense em It’s a Hellava Chase, de O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending, 2015) ou em Confrontation on Eadu, de Rogue One, por exemplo. Além disso, as performances de ambos os temas do Abutre e do Homem-Aranha são adequadas ao que está acontecendo com cada personagem naquele momento. Ouça ao triunfal arranjo do tema do vilão em Lift Off, conforme ele sente sua vitória próxima, ou às tensas interpretações da fanfarra do herói em Monumental Meltdown, por exemplo.

Por outro lado, faixas como Ferry Dust Up, Bussed a Move, Vulture Clash e, principalmente, a excelente Fly-by-Night Operations (a melhor do disco) são mais diretas e explosivas. Elas combinam cordas frenéticas, muita percussão e pratos, trombones, e até mesmo alguns curtos momentos com trompetes rápidos no melhor estilo de John Williams dos anos 1970 e 1980 (uma das maiores inspirações do compositor), enquanto os temas do Aranha e do Abutre travam seu próprio embate particular. Claro, é de se admirar a persistência do compositor em escrever faixas de ação tão complicadas e enérgicas quando, no contexto do longa, elas ficam quase inaudíveis, porém ao menos em disco podemos apreciar melhor as intenções do compositor.

Finalmente, não posso deixar de mencionar o divertido arranjo que o músico fez para a clássica canção de abertura da série animada da década de 1960 do Homem-Aranha, escrita por J. Robert Harris e Paul Francis Webster. Ouvido na primeira faixa do disco, e durante a logo da Marvel Studios no filme, ele ganha contornos heroicos ao ser interpretados pela orquestra de 90 músicos de Giacchino. Tal como é comum nos discos do compositor, o álbum se encerra com uma bela suíte que resume as principais ideias da trilha. Aqui, a suíte inclui performances dos temas do Homem-Aranha, do Abutre e de Liz, que proveem um bom fechamento para o score.

Creio que o maior defeito desta trilha é que, diferentemente dos scores anteriores do Homem-Aranha, ela traz pouco conteúdo mais diretamente emocional. Afora alguns momentos mais melodiosos, envolvendo o tema de Liz ou em Stark Raving Mad, a trilha de Giacchino não possui o mesmo peso dramático das de seus predecessores. Aqui, não há nenhuma faixa emocional como Alone e Farewell, que Elfman compôs para o primeiro filme do herói, ou I Can’t See You Anymore e Promises, do score de Horner. Young também contribuiu com alguns belos motivos de sua autoria, e mesmo Zimmer redimiu (parcialmente) sua trilha com a ótima You’re that Spider Guy, ouvida ao fim do longa. Claro, Giacchino precisou trabalhar com o que tem em mãos e, no caso, De Volta ao Lar é um filme que abraça o estilo mais bem humorado já característico do Universo Marvel dos Cinemas e, assim, evita os tons dramáticos das versões anteriores do herói, portanto, a música do compositor deve refletir isso. Porém, não consigo deixar de pensar que em muitos dos momentos mais dramáticos do filme (como na citada Stark Raving Mad, ou em certa cena durante o clímax que referencia um momento clássico dos quadrinhos), faltou certo “peso” à trilha. Talvez um ou outro momento mais melancólico, sem, contudo, invadir o estilo divertido e bem humorado que o compositor criou para o score, poderia auxiliar a tornar a jornada desse Aranha ainda mais contundente.

No entanto, devemos avaliar a trilha pelo que ela é, e não pelo que ela poderia ser. E este é mais um bom trabalho do compositor, que traz leveza, bom humor e muita ação para a nova aventura do Cabeça de Teia. Após dois trabalhos para a Marvel Studios, podemos perceber que alguém como Giacchino era justamente o que a produtora precisava. Tanto esta quanto a de Doutor Estranho estão no primeiro escalão das trilhas escritas para o Universo Marvel dos Cinemas – e esperamos que essa nova parceria continue a produzir bons frutos no futuro.

Faixas:

1. Theme (From “Spider Man”) [Original Television Series]  0:39
2. The World Is Changing 4:10
3. Academic Decommitment 1:57
4. High Tech Heist 1:26
5. On a Ned-To-Know Basis 1:45
6. Drag Racing / An Old Van Rundown 4:06
7. Webbed Surveillance 4:40
8. No Vault of His Own 2:27
9. Monumental Meltdown 5:23
10. The Baby Monitor Protocol 1:37
11. A Boatload of Trouble, Pt. 1 3:09
12. A Boatload of Trouble, Pt. 2 2:16
13. Ferry Dust Up 2:50
14. Stark Raving Mad 1:54
15. Pop Vulture 3:05
16. Bussed a Move 1:43
17. Lift Off 5:25
18. Fly-By-Night Operation  2:23
19. Vulture Clash 4:07
20. A Stark Contrast 4:41
21. No Frills Proto COOL! 0:34
22. Spider-Man: Homecoming Suite  6:12

Duração: 66:29

Tiago Rangel

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