Resenha de Série: TWIN PEAKS (1990-1991)


Twin Peaks, EUA,  1990-1991
ElencoKyle MacLachlan, Michael Ontkean, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Ray Wise, Warren Frost, Sheryl Lee, David Duchovny
Roteiro: David Lynch, Vários
Direção:  David Lynch, Vários
Cotação:

Como preparação para a estreia do retorno de Twin Peaks, que em breve estreará nos EUA cumprindo uma previsão feita pela própria Laura Palmer há mais de 25 anos, faremos uma pequena revisão da série original, que entre 1990 e 1991, fez história e ditou padrões até hoje seguidos por produções televisivas.

Não é sempre que o sucesso acompanha a alta qualidade artística, e Twin Peaks é um dos principais exemplos da conjunção destes dois fatores, em se tratando de TV. Sua trama inicia aparentemente seguindo as convenções dramáticas de soap operas célebres norte-americanas como A Caldeira do Diabo e Dallas, porém em pouco tempo, no melhor estilo do cineasta David Lynch, elas são subvertidas – muitas vezes de forma bem humorada – tornando a série um exemplar único em sua época.

O título vem da pequena (e fictícia) cidade de Twin Peaks, na costa noroeste dos EUA, próxima à fronteira com o Canadá, onde a estudante e queridinha da cidade Laura Palmer (Sheryl Lee) aparece morta à beira de um lago, enrolada em um saco plástico. O excêntrico agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) chega para comandar a investigação. Na autópsia fica constatado que Laura, antes de ser morta, foi brutalmente espancada e violentada. Aos poucos o agente descobre que Laura possuía um lado obscuro, como a própria cidade. Perversões sexuais, tráfico de drogas e fraudes financeiras na sociedade local vão se revelando. Para complicar as coisas, durante as investigações a mãe de Laura passa a ter visões de um espírito maligno chamado Bob.

Por trás das câmeras, tudo começou no final dos anos 1980, quando a rede norte-americana de televisão ABC necessitava urgentemente de um grande sucesso de audiência, e deu carta branca ao diretor, produtor e roteirista de TV Mark Frost para criar algo novo e criativo. Frost convenceu seu amigo e cineasta David Lynch (O Homem Elefante, Duna, Veludo Azul) a embarcar no projeto, e o resultado foi o episódio-piloto exibido no dia 08 de abril de 1990, que em seu lançamento de forma independente na Europa teve adicionado um desfecho que solucionava o crime (essa versão alterada chegou a ser lançada em VHS no Brasil pela Warner).

O piloto dirigido por Lynch foi um grande sucesso e a ABC encomendou mais sete episódios, dando total liberdade criativa a Frost e Lynch. Neles, descobrimos que Cooper, além de esquisitão (é viciado em tortas de cereja e deixa registrados suas deduções e pensamentos aleatórios para a secretária, Diane, em um gravador portátil), possui um método de investigação absurdo, baseado na intuição e na solução de charadas recebidas em sonhos surrealistas. Mesclando suspense policial, melodrama, deformidades físicas e mentais, humor negro e o sobrenatural, a dupla Frost/Lynch apresentou ao público algo definitivamente novo e provocativo, acompanhado pela essencial trilha sonora de Angelo Badalamenti.

Ao final da primeira temporada de Twin Peaks, que lançou o enigma “Quem matou Laura Palmer” e encerrou-se com um cliffhanger mostrando Cooper baleado por um atirador misterioso, a trama estava longe de sua conclusão, e para a segunda foram produzidos mais 22 episódios tão surpreendentes quanto esquisitos. No desenrolar da nova temporada ficou comprovado que o mistério original não poderia se prolongar por muito tempo, sob pena de frustrar os impacientes telespectadores. Assim, no nono episódio, a verdade sobre o misterioso Bob e a identidade do assassino de Laura e sua prima Maddy surgem para o espectador em momentos tão (ou mais) memoráveis quanto os melhores da primeira temporada.

Após isso, na tentativa de substituir o mistério já solucionado, o foco dos episódios passou para novas subtramas envolvendo personagens secundários, com direito até a conspirações alienígenas e a participação de David Duchovny, de Arquivo X, interpretando o agente travesti Dennis/Denise Bryson. Mesmo aparecendo ocasionalmente como o chefe de Cooper, Gordon Cole, o diretor David Lynch, envolvido à época com as filmagens de Coração Selvagem (longa com o qual viria a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes), afastou-se da criação e delegou a uma nova equipe as tarefas de dirigir e escrever a série. Um programa de computador com as diretrizes básicas do enredo e as características dos personagens era seguido por todos, para tentar manter a unidade da trama.

Porém os índices de audiência despencaram, apesar de restarem na série elementos de interesse, como o jogo de gato e rato entre o agora auxiliar de Xerife Cooper e seu ex-mentor Windom Earle (Kenneth Welsh) e o mistério de White/Black Lodge. A segunda temporada encerra com outro cliffhanger envolvendo Cooper, indicando que havia a intenção de que ela fosse renovada. Infelizmente o estrago provocado pela baixa audiência já estava feito, e Twin Peaks só retornaria dois anos depois, mas via cinema, no instigante prelúdio dirigido por Lynch Twin Peaks: Os Últimos dias de Laura Palmer.

Em abril de 1991 a série começou a passar no Brasil pela Rede Globo, que para variar relegou Twin Peaks às noites de domingo, após o Fantástico. E pior, além de fazer cortes que picotaram a trama, a emissora interrompeu sua exibição durante a segunda temporada, após a solução do assassinato de Laura. Menos mal que, anos depois, a série foi reprisada na íntegra por emissoras independentes, sendo relançada em DVD e posteriormente em Blu-ray também no Brasil. Agora só nos resta aguardar as surpresas que os novos 18 episódios (todos dirigidos por David Lynch), a partir de 21 de maio, trarão aos fãs que foram assombrados pelas imagens finais de Twin Peaks transmitidas há mais de duas décadas.

Jorge Saldanha

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