Resenha de Trilha Sonora: GUARDIANS OF THE GALAXY VOL. 2 (SCORE) – Tyler Bates


Música composta por Tyler Bates, regida por Gavin Greenaway
Selo: Hollywood Records
Formato: Digital
Lançamento: 21/04/2017
Cotação:

O mais inesperado dentre os sucessos da Marvel Studios, Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) conquistou o público e a crítica, apesar de ser protagonizado por personagens (então) do terceiro ou quarto escalão dos quadrinhos da Casa das Ideias. Após faturar mais nas bilheterias mundiais em 2014 do que os longas estrelados pelo Homem-Aranha, Capitão América e os X-Men, os Guardiões estão de volta numa nova aventura intergaláctica, mais uma vez comandada pelo diretor James Gunn. Intitulada Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2, 2017), a trama reúne a equipe formada pelo terráqueo Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt), a assassina de pele esverdeada Gamora (Zoe Saldana), o brutamontes Drax (Dave Bautista), o explosivo guaxinim falante Rocket (voz de Bradley Cooper) e a árvore Bebê Groot (voz de Vin Diesel). Na trama, esse bizarro e desconjuntado grupo de heróis espaciais precisa combater vilões como a sacerdotisa dourada Ayesha (Elizabeth Debicki) e os caçadores de recompensa Saqueadores, enquanto conhecem Ego (Kurt Russel), um planeta vivo (!), que é também o verdadeiro pai de Quill.

O primeiro Guardiões da Galáxia teve a trilha sonora mais elogiada de todo o Universo Cinematográfico da Marvel até agora. Não tanto por conta do score, de Tyler Bates, mas sim pelas canções clássicas dos anos 1970, presenteadas pela mãe de Quill ao filho antes que este fosse levado da Terra, e que ditaram o tom do longa. Cientes do sucesso do álbum (intitulado Awesome Mix), Gunn e a Marvel repetem a mesma estratégia aqui, com um novo volume do disco, agora trazendo canções de artistas como o Looking Glass, Cat Stevens, George Harrison, Electric Light Orchestra e Sweet. Bates, que colaborou com Gunn em todos os seus filmes como diretor, retorna para compor a trilha original.

Antes de Guardiões, a carreira de Bates consistia mais de erros do que de acertos. A aventura espacial comandada por Gunn representou uma oportunidade de ouro para o sujeito, que escreveu uma boa trilha orquestral que, mesmo por default, pode ser considerada a obra-prima da sua. Agora, três anos depois, seu trabalho no Vol. 2 certamente irá roubar este posto. Trata-se de um trabalho ambicioso de Bates que, contando com uma orquestra e coro bem maiores, amplifica tudo em relação ao primeiro score: a música de ação é mais complexa e elaborada, os momentos de drama são mais tocantes, o tom simplesmente é maior e mais grandioso desta vez. É notável o esforço do músico em compor músicas verdadeiramente melódicas, épicas e emocionais, certamente visando a visibilidade que o filme deve trazer para sua carreira. Claro, muito do crédito pela música “soar” tão bem deve ir para a equipe de orquestradores e regentes que o músico convocou para auxiliá-lo, que inclui Tim Williams, que colaborou com Bates ao longo de toda a sua carreira até agora, e Chad Cannon, que é também um excelente compositor por si próprio. Além disso, há também o retorno da excelente qualidade da gravação da orquestra, regida por Gavin Greenaway, que marcou presença em Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016), também pertencente ao Universo da Marvel nos Cinemas.

A fanfarra dos Guardiões da Galáxia que Bates compôs para o primeiro filme retorna aqui, e em arranjos ainda mais elaborados e grandiosos. Ela é literalmente a primeira coisa que ouvimos no disco, aparecendo em Showtime A-Holes, numa grandiosa versão para orquestra e coro completos que já anunciam os tons épicos desta trilha. Depois, nas faixas de ação do disco, o tema ajuda a manter o foco nos Guardiões enquanto eles lutam ou pilotam naves espaciais. Em cues como vs. The Abilisk, Space Chase e Kraglin and Drax, o tema dos Guardiões aparece em arranjos mais agressivos e violentos, para demonstrar o perigo das situação vivida pelos heróis, enquanto em Two-Time Galaxy Savers, ele recupera seus tons mais heroicos e empolgantes, na forma de uma fanfarra para trompetes, tarolas e coral.

Mas não é apenas na sequências de ação do filme que ele se faz presente. Na segunda metade de vs. The Abilisk, Space Chase, o tema principal ganha uma versão leve e cômica para cordas em pizzicato, como se demonstrasse o alívio após a batalha. Na faixa seguinte, The Mantis Touch, ele é ouvido em um melancólico piano, acompanhado de cordas e misteriosas texturas eletrônicas que representam a “empata” do título do cue (Pom Klementieff), lembrando um pouco Thomas Newman em seus momentos mais atmosféricos. Porém, conforme o filme se aproxima do clímax e Quill descobre a verdade acerca de seu passado, o tema ganha contornos dramáticos, como podemos ver em I Know Who You Are, Mary Poppins and the Rat e Gods.

Infelizmente, a fanfarra dos Guardiões é o único elemento temático mais proeminente na trilha. Outros personagens e situações do longa ou são sumariamente ignorados (como Ayesha e os Soberanos), ou recebem identidades musicais imperceptíveis demais para serem associadas àqueles que deveriam representar. Entre eles, há um motivo de cinco notas para violinos, ouvido na primeira metade de Family History e depois em Dad, dedicado a representar o relacionamento entre Quill e suas duas figuras paternas, Ego e Yondu (Michael Rooker). Já em Groot Expectations e Starhawk, podemos ouvir um melancólico motivo para cordas, levemente reminiscente de um dos temas da trilha de Batman Begins (idem, 2005), que representa o próprio Yondu e seu passado violento. Porém, por melhores que sejam individualmente, no contexto do score tais motivos acabam engolidos pelo restante da trilha.

Isto é uma pena, pois por mais grandiosa que seja a música, sem um norte dado por temas específicos, as melodias vagam à deriva, passando perigosamente perto de serem genéricas. Afinal, não basta apenas compor música épica, é necessário ter algo por trás, guiando-a, como temas e ideias que conectem a trilha e o filme. Sem isso, a música de Bates aqui por vezes me lembrou scores que utilizam de tons épicos não para ressaltar a grandiosidade do que está acontecendo na tela, mas para parodiar a típica música hollywoodiana em filmes de comédia, como os trabalhos de Theodore Shapiro em longas como Trovão Tropical (Tropic Thunder, 2008) e  Caça Fantasmas (Ghostbusters, 2016). E, por mais divertidos que sejam os Guardiões, estou certo de que essa não era a intenção de Bates.

Além disso, personagens como Ego, Mantis, Ayesha, Nebulosa e os Saqueadores são interessantes o bastante para merecerem seus próprios temas, que ajudariam a enriquecer o universo onde a história se ambienta. Afinal, os Guardiões estão distantes o bastante de seus colegas terrestres, os Vingadores (ao menos por enquanto), portanto Bates nem sequer teria que se preocupar em reprisar os temas ouvidos nos filmes dos heróis (não que os outros compositores da Marvel Studios estejam priorizando isso, mas enfim…).

Assim, se Bates falha ao não escrever mais temas para o longa, o compositor ao menos entrega a melhor música de ação de sua carreira. Seus cues aqui são exagerados e caóticos, mas de uma forma divertida e envolvente, uma espécie de “caos organizado”, que envolve toda a orquestra, além de cânticos do coral. As faixas vs. The Abilisk e Kraglin and Drax, por exemplo, incluem um motivo para violino bastante similar ao que Junkie XL utilizou em Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015), mas o cerca com potentes melodias para orquestra e coro, em particular na segunda, que se desenvolve rumo a um final grandioso para metais, no melhor estilo Elliot Goldenthal. Já Space Chase e Mammalian Bodies impressionam com seus poderosos cânticos para metais e orquestrações violentas, que lembram um pouco o caos de metais e percussão que James Horner costumava criar em suas trilhas de ação e ficção científica, como Aliens: O Resgate (Aliens, 1986) e Avatar (idem, 2009). É uma pena, portanto, que no longa a música de Bates fique obscurecida pelos efeitos sonoros e pelo falatório constante dos Guardiões tirando sarro uns dos outros enquanto tentam sobreviver. E quem mais perde com isso são os criativos e enérgicos cânticos para coral de Bates, que ficam praticamente ocultos na faixa de áudio durante a maioria das sequências de ação.

Groot Expectations, enquanto isso, sai um pouco do estilo da trilha, com uma divertida melodia jazzística para baixos, percussão, metais e guitarra, que poderiam ter saído de algum filme de espionagem (e fãs de Horner vão se deliciar com uma curiosa referência, aos 1:32 da faixa). Two-Time Galaxy Savers, por sua vez, é menos caótica, e mais centrada principalmente nos metais e na percussão. Por sua vez, no clímax do filme, a ação ganha tons quase operáticos e elegíacos, como podemos ouvir em faixas como The Expansion, Mary Poppins and the Rat e Gods, enquanto Ego traz cânticos quase religiosos, que devem agradar aos fãs dos corais grandiosos de compositores como Howard Shore, Christopher Young e Don Davis.

Ainda mais impressionante do que isso são os momentos mais dramáticos da trilha, verdadeiramente emotivos e tocantes. Quem iria imaginar que o mesmo sujeito que escreveu scores como A Hora da Escuridão (The Darkest Hour, 2011) hoje injeta drama e emoção a níveis que o cinema hollywoodiano blockbuster tenta evitar a todo custo? Aqui, a música dramática do compositor me lembrou um pouco dos trabalhos de James Newton Howard em filmes de fantasia como O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010), Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, 2012) e a citada Batman Begins. E, se Bates deixa as temp tracks um pouco evidentes demais, por assim dizer, ao menos compensa com melodias bem escritas e tocantes.

A bela Family History, por exemplo, traz uma expressiva melodia para orquestra e coro, deixando evidente toda a alegria de Quill naquele momento, ao realizar um sonho que ele desejava desde a infância. Trata-se de melodrama em seu estado mais puro, com o compositor não temendo usar sua música para expressar as emoções do protagonista. É realmente surpreendente ver algo assim na franquia que, apesar de ser a mais lucrativa do cinema na atualidade, foi no mínimo irregular com relação à qualidade de suas trilhas sonoras. Mais adiante, I Know Who You Are poderia ter saído da trilha de A Origem (Inception, 2010), com sua misteriosa melodia para cordas e guitarra, mas seu encerramento repleto de tragédia já dá o tom para o dramático clímax do filme.

Indiscutivelmente, as melhores faixas dramáticas da trilha são as últimas. Merece um destaque especial a emocionante Dad, um cue tão bom que o diretor Gunn transmitiu sua gravação com a orquestra ao vivo em sua página no Facebook, em janeiro (uma excelente iniciativa em minha opinião, que não apenas valoriza o trabalho de Bates como também aproxima as trilhas originais do público). O desenvolvimento cuidadoso da faixa, bem como a combinação de heroísmo, nobreza e dramaticidade, deixa evidente a inspiração em Howard, especialmente em Flow Like Water, de O Último Mestre do Ar, e The Stampede, de Água para Elefantes (Water for Elephants, 2011). Dessa forma, ela funciona como o ápice emocional da trilha, acompanhando a igualmente climática cena do longa. Depois, se as outras faixas não atingem os mesmos tons catárticos de Dad, ao menos providenciam um belo e emocional encerramento para o longa. A Total Hasselhoff desenvolve outro dos motivos menores da trilha, em tocantes performances para piano, cordas, trompas e celesta. Já Sisters é igualmente emocionante, além de acrescentar certos tons de tragédia em sua melodia para cordas, cello solo e coro, dando pistas do que aguarda os Guardiões em seu confronto final com o supervilão Thanos (que deve ser mostrado nos próximos dois filmes dos Vingadores). Finalmente, Guardians of the Frickin Galaxy encerra o disco com uma elegíaca performance do tema dos Guardiões em orquestra e coro.

Talvez o que me impeça de dar uma avaliação ainda melhor a esta trilha seja o fato de que ela ainda soe tão derivativa dos trabalhos de outros compositores (temp tracks são um adversário mais difícil de ser combatido do que os vilões da Marvel, afinal). E isso é agravado pela falta de mais temas memoráveis e marcantes que, como eu disse logo acima, ajudariam a evitar que o score soasse tão genérico. Por outro lado, quem iria imaginar que Tyler Bates, de todas as pessoas, iria escrever uma trilha orquestral tão grandiosa, emocional e colorida quanto essa? É improvável quando pensamos em retrospecto, claro, embora o próprio sucesso de bilheteria de dois filmes tão curiosos quanto os dos Guardiões seja tão surpreendente quanto Bates sendo elogiado por um score orquestral. E, se a trilha deste Vol. 2 já representou um aumento exponencial em relação à do primeiro filme, só posso esperar coisas boas do compositor para o já anunciado terceiro volume da franquia.

Faixas:

1. Showtime a-Holes  1:27
2. vs the Abilisk  2:35
3. The Mantis Touch  1:53
4. Spac  3:20
5. Family History  3:48
6. Groot Expectations  1:57
7. Mammalian Bodies  1:50
8. Starhawk  1:49
9. Two-Time-Galaxy Savers  3:01
10. I Know Who You Are  4:20
11. Ego  2:47
12. Kraglin and Drax  1:34
13. The Expansion  1:05
14. Mary Poppins and the Rat  3:07
15. Gods  1:28
16. Dad  2:28
17. A Total Hasselhoff  2:01
18. Sisters  2:05
19. Guardians of the Frickin Galaxy  0:59

Duração: 43:34

Tiago Rangel
[via ScoreTrack.net]

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