Resenha de Trilha Sonora: LOGAN – Marco Beltrami


Música composta por Marco Beltrami
Selo: Lakeshore Records
Formato: CD, Digital
Lançamento: 03/03/2017
Cotação:

Dezessete anos e nove filmes depois, o astro Hugh Jackman finalmente aposenta as garras do Wolverine, o icônico herói da Marvel, no drama de ação Logan (idem, 2017). Na trama, o personagem se encontra envelhecido e enfraquecido, trabalhando como motorista particular na fronteira entre os Estados Unidos e o México, a fim de sustentar um envelhecido Professor Xavier (Patrick Stewart). Sua rotina muda quando uma mulher mexicana lhe procura, oferecendo-lhe cinquenta mil dólares para que leve sua filha Laura (Dafne Keen) até a Dakota do Norte. Tal missão, porém, será complicada pelo fato de que a garota também possui poderes similares e a mesma voracidade de Logan, e pelos temíveis Carniceiros, que estão no encalço de Laura para atingir seus próprios propósitos obscuros. O longa recebeu ótimas críticas, conquistando o feito de ser um dos filmes mais bem avaliados da longeva franquia dos X-Men, e fará dinheiro o bastante para levar Jackman a reconsiderar sua decisão de não prosseguir no papel.

Há alguns meses, havia sido divulgado que o compositor escolhido pelo diretor James Mangold não era Marco Beltrami, seu colaborador habitual, mas sim Cliff Martinez, músico eletrônico conhecido por scores como Drive (idem, 2011), O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer, 2011) e algumas colaborações com o cineasta Steven Soderbergh. No entanto, em dezembro, Mangold revelou no Twitter que Beltrami iria trabalhar no filme, mas sem informar se alguma parte da música de Martinez seria aproveitada – ou se ele sequer chegou a escrever algo. De toda forma, tanto Mangold quanto Beltrami, claro, já eram familiares com o personagem, uma vez que a dupla havia trabalhado no último filme solo do herói, Wolverine: Imortal (The Wolverine, 2013).

A franquia dos X-Men nos cinemas não é conhecida por seus scores marcantes, e muito menos por sua continuidade musical, com exceção de John Ottman, que, no mínimo, procurou manter alguma consistência temática nos três X-Filmes em que trabalhou. Beltrami foi apenas o segundo compositor da série a retornar à franquia, porém, seu trabalho aqui, com uma brevíssima exceção, não busca nenhum tipo de continuidade seja com sua própria trilha para Imortal, seja com qualquer outro longa da saga (embora isto seja até coerente com o caos cronológico que é a franquia nos cinemas).

Vista por si só, a trilha de Logan certamente irá surpreender quem esperava algo na linha do que estamos acostumados a ouvir em blockbusters de super-heróis hollywoodianos. Trata-se de um score quieto, melancólico e resignado, porém dono de uma ira interior, pronta para sair em explosões de violência. Se Imortal já conjurava o ambiente impiedoso vivido pelo herói através de orquestrações pesadas e dissonantes, Logan leva isso ainda mais adiante, através de sonoridades duras e carregadas. Por outro lado, ainda que, em tese, esta fosse uma ideia interessante, na prática serviu para aleijar as possibilidades da música no filme. Afinal, ainda que a trilha seja discreta e carregada, isso não significa que ela tenha uma presença particularmente marcante no longa.

Beltrami dá forma à sobriedade e à escuridão de sua trilha ao compor identidades musicais para cada um dos principais elementos do longa: Laura, Logan, os Carniceiros, e o X-24, um clone do herói criado pelos vilões para destruí-lo. Para a garota, o compositor a representa com um tema de três notas, introduzido logo ao início de Laura, e depois aparecendo de forma melancólica e triste em faixas como Gabriella’s Video, You Can’t Break the Mold e ao início de Into the Woods, na qual ganha a adição de violinos tristes. Já em Feral Tween, o tema de Laura inicia a faixa em sintetizadores tristes, antes de ser engolido por melodias de ação nervosas e carregadas, enquanto, ao fim do disco, ele ganha sua própria suíte, em Eternum/Laura’s Theme. Enfim, sendo um dos destaques do filme, o correto era que a menina ganhasse um tema próprio, assim, é uma pena que seu tema seja tão emocionalmente insatisfatório e dramaticamente inerte, tanto que você dificilmente pode ser culpado de não identificá-lo ao assistir o filme. Seu tema aqui dificilmente sustenta a complexidade da personagem, sua carga dramática e seus relacionamentos com Logan e Xavier, o que é uma pena, pois Laura merecia mais.

Logan, por sua vez é retratado de duas formas na trilha. A primeira relaciona-se com a existência penosa, triste e solitária que ele leva na desolada fronteira dos EUA com o México e, para retratar isso, Beltrami utiliza tons de rock e jazz, lembrando um pouco Bernard Herrmann e seu icônico Taxi Driver (idem, 1976), que também utilizava instrumentações similares para retratar o estado mental distorcido. A faixa inicial, Main Titles, é o melhor exemplo disso, e também a melhor faixa do disco, ao retratar a solidão do herói com piano, bateria, guitarra e uma gaita levemente reminiscente dos western spaghetti de Morricone. Depois, o motivo para piano dessa faixa retorna na curta To the Cemetery, enquanto Alternate Route to Mexico é um pouco mais determinada e agressiva, com bateria, guitarra e uma melodia para cordas que, estranhamente, me lembrou de um dos temas de Patrick Doyle para Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005). Já as atmosféricas Old Man Logan e Driving to Mexico criam texturas duras e depressivas com eletrônicos, guitarras e cordas, enquanto Up to Eden e Beyond the Hills são similares em estilo, porém levemente mais otimistas, acompanhando as revelações do terceiro ato do filme. Enfim, apesar de não ser o que estamos acostumados a ouvir em filmes de super-heróis em geral, o compositor é bem sucedido ao ajudar o longa a criar uma ambientação desolada, árida, esquecida pelo mundo.

Por outro lado, representando o lado violento e animalesco do herói, o compositor escreve alguns dos cues mais dissonantes de sua carreira (e isso é muita coisa, no caso de Beltrami), com percussão e violinos frenéticos, pianos caóticos e explosões de metais no melhor estilo Elliot Goldenthal. No disco, este estilo aparece nas faixas de ação, como a caótica El Limo-Nator, a melhor do tipo na trilha, que combina orquestra, percussão e piano, mas ainda é escrita no estilo que aprendemos a esperar de Beltrami em faixas do tipo, e Feral Tween, que lembra algo saído de Junkie XL. Por fim, em Forest Fight, o compositor inclui também o único fragmento de continuidade entre suas duas trilhas para o Wolverine: um motivo de duas notas para gaita ouvido ao fim da faixa, que é na verdade uma variação selvagem e violenta de um dos temas que ele escreveu para o herói em Imortal (ouça à faixa A Walk in the Woods daquele score, por exemplo).

A música do X-24, por sua vez, é uma versão corrompida do motivo de ação do próprio Logan, o que é adequado, considerando que o vilão é um clone distorcido do protagonista. No disco, temos exemplo de sua música em faixas como X-24 e Farm Aid, que retratam o vilão com guitarras, percussão incessante e pesados eletrônicos. Seus criadores, os Carniceiros, possuem seu próprio tema: um ameaçador motivo para baixos e sintetizador que serve para anunciar a chegada dos vilões, ouvido em faixas como The Grim Reavers, That’s Not a Choo-Choo, Farm Aid e Into the Woods. Nos cues Forest Fight e Logan vs. X-24, que acompanham o clímax do filme, Beltrami aproveita para promover uma colisão do motivo de ação do protagonista, dos tons distorcidos de seu clone e do tema dos Carniceiros, para representar o confronto entre as partes.

Ao fim do álbum, temos quatro suítes baseadas em ideias anteriores da trilha. Além da citada Laura’s Theme, há também Logan’s Limo, que expande o material ouvido em Alternate Route to Mexico; Loco Logan, baseada no motivo de ação do herói; e Logan Drives, que retoma os tons mais urbanos do início do score.

Depois de tanta discussão sobre o quanto as trilhas para filmes de super-heróis dos dias de hoje são genéricas e repetitivas, Beltrami merece elogios por ao menos tentar criar algo distinto, próprio e diferente do que estamos acostumados a ouvir. Logan não é uma aventura sobre um grupo de super-heróis impedindo o mundo de ser destruído por um vilão megalomaníaco, mas sim um drama de ação violento e realista, com toques de western, portanto, uma trilha mais bombástica aqui teria sido fora de lugar. Por outro lado, uma trilha tão restrita, carregada e esparsa acaba por deixar de lado seu papel de tornar a narrativa mais contundente e emocionante. A faixa que acompanha a muito discutida cena final, Don’t Be What They Made You, é um exemplo particularmente triste disso, constituindo-se apenas de cordas, piano e eletrônicos que pouco fazem para comentar sobre a emotiva sequência. Mesmo quando comparamos este score com o de Wolverine: Imortal, o do novo longa sai perdendo. Afinal, apesar da trilha anterior não ser exatamente uma obra-prima da Música de Cinema, ainda cumpria relativamente bem seu papel de acompanhar o filme, e retratar seus diversos tons, sejam eles de suspense, angústia, drama ou ação.

Beltrami é um compositor talentoso, e certamente foi trabalhoso reunir tantos instrumentos eletrônicos e acústicos para criar as duras texturas pretendidas para esse trabalho, e as ambientações áridas e desoladas de sua música são muito bem construídas. Entretanto, eu só desejaria que isso estivesse a favor de uma trilha mais envolvente e mais emocionalmente satisfatória para a conclusão desta fase dos mutantes no cinema.

Faixas: 

1. Main Titles 2:21
2. Laura 2:24
3. The Grim Reavers 1:32
4. Old Man Logan 2:45
5. Alternate Route to Mexico 1:23
6. That’s Not a Choo-Choo 2:13
7. X-24 2:46
8. El Limo-nator 1:38
9. Gabriella’s Video 2:36
10. To the Cemetery 0:55
11. Goodnight Moon 1:55
12. Farm Aid 3:11
13. Feral Tween 3:34
14. Driving to Mexico 1:42
15. You Can’t Break the Mould 1:07
16. Up to Eden 1:51
17. Beyond the Hills 2:09
18. Into the Woods 3:09
19. Forest Fight 2:30
20. Logan vs. X-24 4:13
21. Don’t Be What They Made You 2:04
22. Eternum – Laura’s Theme 3:35
23. Logan’s Limo 2:32
24. Loco Logan 1:20
25. Logan Drives 2:08

Duração: 57:33

Tiago Rangel

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