Resenha de Trilha Sonora: ARRIVAL- Jóhann Jóhannsson


arrival-cdMúsica composta por Jóhann Jóhannsson, Regida por Anthony Weeden
Selo: Deutsche Grammophon
Formato: CD
Lançamento: 11/11/2016
Cotação: star_3_5

Dirigido pelo cineasta canadense Denis Villeneuve, o drama de ficção científica A Chegada (Arrival, 2016) é a história da visita de doze naves alienígenas à Terra. Assim, enquanto o pânico aos poucos vai tomando conta do globo, o exército norte-americano convoca a linguista Louise Banks (Amy Adams), que, com a ajuda do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), devem tentar decifrar o idioma das criaturas para descobrir suas verdadeiras intenções. A dupla deve correr contra o tempo, antes que ações precipitadas dos líderes mundiais levem a incidentes mais graves com os alienígenas.

Já um respeitado diretor em Hollywood, em grande parte graças ao seu trabalho no cinema independente, Villeneuve parece ter encontrado seu parceiro musical: o compositor islandês Jóhann Jóhannsson, com quem ele colaborou em Os Suspeitos (Prisoners, 2013), Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015), e no futuro Blade Runner 2049. Suas trilhas anteriores para o diretor se adequavam bem à atmosfera carregada dos longas, mas não eram exatamente agradáveis de se ouvir em disco, e, agora, isto também serve para A Chegada. Ainda assim, elogiada pela crítica, a trilha possui grandes chances de concorrer aos principais prêmios da temporada.

O score do longa, portanto, é mais baseado em texturas e sensações do que em emoções. Segundo o compositor, ele queria evocar com sua música o que provavelmente sentiríamos ao encontrar com seres de outros planetas: fascinação, admiração, mas também confusão e horror. Além disso, a temática principal do longa é a dificuldade de se comunicar e se fazer entender, seja entre Louise e os extraterrestres, seja entre os diferentes líderes mundiais, que não conseguem chegar a um consenso sobre o que fazer. Assim, Jóhannsson procurou retratar isso ao criar uma música altamente “alienígena”, no melhor sentido da palavra, fria e estranha como o espaço sideral.

Para atingir este efeito, o músico islandês utilizou uma grande variedade de instrumentos e experimentações, acústicas e eletrônicas. Em primeiro lugar, Jóhannsson, inspirado pelo conceito de linguagem que permeia a história, decidiu utilizar o instrumento mais antigo para se comunicar: a voz humana. Assim, ele colaborou com o coral Theatre of Voices (regido por seu próprio fundador, o barítono Paul Hillier), e também com diversos solistas, de diferentes origens e estilos. Isto fica perceptível em faixas como Heptapod B, Sapir-­Whorf, Rise e Kangaru, na qual podemos ouvir diversos efeitos vocais que se sobrepõem uns aos outros. Ouvindo com atenção, é possível ouvir algumas sílabas sendo entoadas pelas solistas (como “nananananana” e algumas variações da palavra “water”, ou “água”, em inglês), embora isto não fique exatamente claro, remetendo, portanto, às dificuldades entre humanos e alienígenas em estabelecer um diálogo inteligível para ambas as espécies. Por outro lado, em Transmutation At A Distance, Principle Of Least Time e na metade final de Properties Of Explosive Materials, podemos ouvir vocalizações etéreas e processadas, que retratam ao mesmo tempo a fascinação entre as espécies, mas também a crescente tensão entre elas.

Outra das experimentações do músico foi gravar sons de pianos numa fita magnética em loop, criando um zumbido extremamente grave, que, combinado às cordas e a texturas eletrônicas, resulta numa textura ameaçadora e sinistra quase onipresente na trilha. Na mesma fita magnética, Jóhannsson também gravou algumas vocalizações do artista Robert Aiki Aubrey Lowe, resultando numa sonoridade similar a um canto de baleias. Seu objetivo era retratar os próprios sons produzidos pelos alienígenas, numa interessante fusão entre música e design de som.

Este “som de baleias”, de certa forma, pode ser considerado como o tema dos alienígenas da trilha. Ele aparece em faixas como Arrival, na ameaçadora Hydraulic Lift, Non-Zero Sum Game e, especialmente, na perturbadora First Encounter. Como o título da faixa indica, ela é ouvida durante o primeiro contato entre Louise e Ian com os extraterrestres, e ajuda a criar a tensa atmosfera da cena com os zumbidos de piano, baixos e uma sutil percussão, interrompidos pelos assustadoramente imponentes sons do tema dos alienígenas.

Por outro lado, até há uma orquestra no trabalho (a renomada City of Prague Philharmonic Orchestra), com foco principal na sessão de cordas. Em faixas como Transmutation At A Distance, Around The Clock News e Properties Of Explosive Materials podemos ouvir um motivo dramático, de duas notas, para as cordas. Mais relacionado aos humanos do filme, ele é uma das poucas melodias que nos trazem uma aliviante sensação de familiaridade, após tantas sonoridades estranhas e alienígenas que permeiam o score. Entretanto, mesmo a orquestra é utilizada em favor do experimentalismo de Jóhannsson, cuja escrita para cordas, na maior parte das vezes, é bastante desafiadora, como em Sapir-Whorf, por exemplo, no qual violinos abstratos servem de acompanhamento para o coral. Já Hazmat e Non-Zero Sum Game trazem cordas agitadas e ameaçadoras, ainda que sutis, no melhor estilo de Krzysztof Penderecki, citado como uma das principais influências de Jóhannsson em sua trilha.

A maior parte da música, claro, é tensa e atmosférica, porém, por incrível que pareça, a trilha também traz alguns momentos de ação, concentrados especialmente nas faixas Ultimatum e Escalation. Elas começam de forma mais serena, com o coral, mas logo ganham ritmos cada vez mais intensos de cordas e percussão – que, bizarramente, me lembraram das trilhas de filmes de ação dos anos 1980 e 1990. Aliás, a utilização de Jóhannsson da percussão aqui, embora tão abstrata quanto o restante da música, ajuda a construir uma sensação de inquietude e urgência, como os tambores de madeira que ouvimos em Heptapod B, Principle Of Least Time e Hammers And Nails. Já em Xenolinguistics e Xenoanthropology, os efeitos percussivos são mais ocultos, quase subliminares, em meio aos violinos “pendereckianos” e os zumbidos graves.

Nas entrevistas que deu para promover seu trabalho, Jóhannsson comentou que começou a trabalhar na música logo depois que o roteiro foi fechado, antes das filmagens. Seu objetivo era evitar ou reduzir ao máximo a influência das temp tracks no processo de montagem do longa, garantindo a originalidade de sua trilha. Ainda assim, a cena inicial foi montada usando como trilha sonora a peça On the Nature of Daylight, que o compositor Max Richter escreveu em 2004 para o seu álbum The Blue Notebooks – e ouvida aqui na última faixa do disco. Trata-se de um estilo radicalmente diferente do restante da trilha de Jóhannsson, uma melodia lamentosa e melancólica para um quarteto de cordas, que é ouvida durante os momentos mais emocionais do longa, no início e no final. Embora o islandês tenha escrito cues para ambas as cenas (segundo ele, mais próximas em espírito ao restante de sua música), ele acabou por concordar com o diretor de que a faixa de Richter funcionaria melhor com a natureza das cenas, de modo que ela acabou prevalecendo. De toda forma, é uma situação similar à sua trilha indicada ao Oscar para A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, 2014), quando a peça ouvida na cena final e nos créditos não era de sua autoria, mas sim do grupo The Cinematic Orchestra, cuja belíssima Arrival of the Birds foi originalmente escrita para o documentário Balé Vermelho (The Crimson Wing: Mystery of the Flamingos, 2008).

Compositores como Jóhannsson e Mica Levi estão entre os grandes responsáveis por levar experimentalismo e novas técnicas musicais para o cinema hollywoodiano – e, no processo, conquistando novos trabalhos com outros renomados cineastas. Assim, nós podemos (e devemos) reconhecer o talento do islandês ao utilizar um grande número de ideias aparentemente díspares para criar uma trilha engenhosa e inteligente. Ao mesmo tempo, isto não significa que a música seja particularmente “agradável” ou “divertida”. O compositor claramente se esforçou ao montar seu álbum com cues fora de ordem e com arranjos diferentes dos ouvidos no longa, focando na experiência auditiva do ouvinte, mas, ainda assim, este é um disco de música sutil, quieta, bizarra e experimental, de quase uma hora de duração. No contexto pedido pelo longa, a trilha de Jóhannsson funciona exemplarmente, porém, no disco, esta pode não ser a melhor opção se você está procurando apenas uma trilha sonora para se emocionar ou relaxar. Ainda assim, se você quiser se inteirar pelas tendências mais experimentais da música de cinema, vale a pena conferir este trabalho de Jóhannsson.

Faixas:

1. Arrival  2:50
2. Heptapod B  3:42
3. Sapir-­Whorf  1:16
4. Hydraulic Lift  3:32
5. First Encounter  4:49
6. Transmutation At A Distance  1:34
7. Around The Clock News  1:34
8. Xenolinguistics  3:29
9. Ultimatum  1:52
10. Principle Of Least Time  1:20
11. Hazmat  4:48
12. Hammers And Nails  2:31
13. Xenoanthropology  3:08
14. Non-Zero-Sum Game  4:17
15. Properties Of Explosive Materials  3:31
16. Escalation  2:02
17. Decyphering  2:05
18. One Of Twelve  3:09
19. Rise  1:47
20. Kangaru  2:55

Duração: 56:11

Tiago Rangel
[via ScoreTrack.net]

Comente o conteúdo da postagem

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s