Resenha de Trilha Sonora: SUICIDE SQUAD (SCORE) – Steven Price


suicide-squad-score-CDMúsica composta por Steven Price
Selo: Sony Classical
Formato: Download Digital
Lançamento: 08/08/2016
Cotação: star_3

Terceiro filme no ambicioso Universo Expandido da DC, Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) é protagonizado por um grupo de vilões da editora, como o Pistoleiro (Will Smith), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), El Diablo (Jay Hernandez) e a favorita dos fãs, Arlequina (Margot Robbie), fazendo seu debute nas telas do cinema. Na trama, esse bizarro grupo, preso numa penitenciária, é convocado pela poderosa (ainda que igualmente amoral) Amanda Waller (Viola Davis) para formar uma Força Tarefa composta por soldados descartáveis, porém capaz de combater as mais estranhas ameaças que atacarem nosso planeta, como Magia, uma criatura demoníaca que possuiu o corpo da arqueóloga June Moone (Cara Delevingne). Entretanto, a missão da recém-formada Força Tarefa X pode ser comprometida graças ao imprevisível e violento Coringa (Jared Leto), o icônico arqui-inimigo do Batman (Ben Affleck), que possui uma estranha relação com a Arlequina e quer resgatá-la das mãos do governo.

Comandando a direção do longa, está David Ayer, cineasta conhecido por seus dramas policiais urbanos como Marcados para Morrer (End of Watch, 2012) e pelo filme de guerra Corações de Ferro (Fury, 2015). Infelizmente, parece que o processo de gravação do longa não foi dos mais fáceis, com fontes internas descrevendo conflitos entre Ayer e a Warner Bros. acerca da visão que o filme deveria ter, e vários cortes diferentes – um deles, inclusive, montado por uma empresa especializada em produzir trailers de filmes (!), como descreve esse artigo do The Hollywood Reporter. Com isso, previsivelmente, as críticas recebidas pelo filme foram terríveis, embora o público tenha mostrado entusiasmo e lotado os cinemas, inclusive no Brasil.

Esquadrão Suicida é o primeiro filme do DCEU a não ser dirigido por Zack Snyder e, consequentemente, musicado por Hans Zimmer, cujos scores para O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) e Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016), muito como os próprios filmes, foram execrados pela crítica e abraçados pelos fãs. Aqui, o responsável é o jovem e oscarizado compositor inglês Steven Price, que já havia colaborado com Ayer antes no interessante score de Corações de Ferro. Tanto esta trilha como a sua antecessora, a vencedora do Oscar Gravidade (Gravity, 2013), mostravam um músico disposto a arriscar e a pensar fora da caixa – ou seja, alguém com o talento e a criatividade que só teriam à acrescentar à Música de Cinema hollywoodiana. Por isso, o casamento entre Price e um filme de super-heróis (ou, no caso, vilões) tão distinto como Esquadrão Suicida poderia ser a oportunidade perfeita para uma das trilhas mais interessantes da temporada.

Assim, não posso deixar de sentir uma ligeira decepção com a trilha. De certa forma, ela é tudo o que poderia se esperar: orquestra, coro, muita ação e momentos grandiosos, além de eletrônicos, bateria e guitarras, dando a sua música uma personalidade roqueira e agressiva – tal como em Gravidade e Corações de Ferro, por exemplo, mas com propósitos distintos. Se nesses dois longas a agressividade da trilha representava as duras condições do espaço e do campo de batalha, aqui ela retrata a atitude violenta e o estilo bad boy dos personagens. Certamente, a abordagem de Price foi a mais correta para esses personagens, mas sua execução foi, infelizmente, previsível, sem muita coisa que a destaque da típica música hollywoodiana para blockbusters atualmente.

Claro, como dito acima, a produção de Esquadrão Suicida não foi das mais fáceis, inclusive para Price. O sujeito, aparentemente, gravou uma grande quantidade de música, porém parte considerável de seu score foi substituído no filme por canções. Estas, variando do rock clássico (Rolling Stones, Queen, AC/DC) ao rap e pop mais modernos (como as canções escritas para o longa e interpretadas por Skrillex e Rick Ross, e Lil Wayne, Wiz Khalifa e Imagine Dragons), são boas por si só, ainda que sejam sintomáticas da falta de uma visão definitiva para o longa por parte do estúdio e dos realizadores. Por outro lado, grandes trilhas já foram escritas por compositores em situações piores do que as de Price, e o fato da parte musical do filme se focar em canções e não no score não é um impedimento para trilhas instrumentais de ótima qualidade. Assim, da forma que está, a trilha de Price para Esquadrão Suicida não deixa de parecer uma oportunidade perdida.

Numa longa entrevista concedida à Film Music Magazine, Price indica que seu desejo era escrever uma trilha temática, com identidades musicais para cada um dos membros do Esquadrão. De certa forma, foi o que ele fez, embora apenas um tema se destaque na trilha. Trata-se do que representa a própria equipe, ouvido logo na primeira faixa, a suíte Task Force X, um interessante cue que combina orquestra, bateria, guitarra e eletrônicos, numa fusão entre rock e música orquestral que lembra um pouco o trabalho de Ramin Djawadi em Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013), filtrado através da música de Price para Corações de Ferro. O tema do Esquadrão Suicida é ouvido aos 2:38 da faixa, numa arrojada fanfarra para trompas que parece ter sido inspirada por Jerry Goldsmith e seu trabalho na trilogia Rambo. É a melhor faixa do disco também e, se o restante da trilha mantivesse a mesma qualidade, estaríamos diante de um álbum bem superior.

O tema do Esquadrão Suicida é o único que ganha certo desenvolvimento, com Price dando a ele alguma flexibilidade que seja adequada ao arco narrativo da equipe. Por exemplo, o ostinato que conduz a melodia forma a base de I Want to Assemble a Task Force, ainda de forma sutil, representando a ainda incipiente equipe, enquanto em A Serial Killer Who Takes Credit Cards e You Die, We Die, com a Força Tarefa X a caminho de sua missão impossível, ele surja de forma rápida, em metais tensos e preocupados. Por outro lado, mais adiante no disco (e no filme), em The Squad, o tema volta a ter os ares heroicos e grandiosos da faixa inicial, em orquestra, guitarra e bateria, conforme a equipe finalmente encontra uma forma de trabalhar juntos e cumprir a missão. Por fim, em I Thought I’d Killed You e The Worst of the Worst, Price procura dar a ele alguns tons mais emocionais e catárticos para o fim do longa.

Outros personagens ganham seus temas, embora nenhum que seja lá muito marcante ou que deixe uma grande impressão – na verdade, é até difícil diferenciá-los na trilha, o que não deveria acontecer. Afinal, temas servem justamente como a identidade musical de um personagem, local ou acontecimento e, portanto, precisam ser capazes de se distinguir e se fazerem notados, refletindo para a audiência quem são aquelas figuras. É uma abordagem arriscada, afinal, Esquadrão Suicida é um filme repleto de personagens, portanto é necessário ter uma dose extra de cuidado ao escrever temas para cada um deles. Como resultado, da forma que está, a trilha tem uma grande quantidade de temas, mas que dificilmente serão assimilados pela audiência como representando os personagens que deveriam.

Para o Pistoleiro, por exemplo, Price parece ter se inspirado em Zimmer e seu trabalho com outro personagem da DC, o Batman (o de Christopher Nolan, não o de Snyder): o tema que ele escreveu para o vilão atirador é composto por acordes de duas notas, tal como o do Morcego. Por outro lado, como o personagem é o mais importante e centro moral da equipe, seu tema ganha performances mais dramáticas e tristes, em cordas e piano, como ao final de I’m Going to Figure this Out e A Killer App, ou em Hey Craziness e You Need a Miracle. Sua melhor aparição, porém, se dá quando ele ganha contornos verdadeiramente heroicos, ao final de That’s How I Cut and Run.

A Arlequina também ganha seu próprio tema, que também representa especialmente sua relação com o Coringa. Introduzido pela primeira vez aos 0:51 em Arkham Asylum, ele consiste numa misteriosa, sombria e quase gótica melodia para cordas, em especial violinos e cellos, com leves e ocasionais acompanhamentos de trompas ou coro. Mais adiante, em Harley and Joker, ele ganha sua performance mais completa, com orquestrações trágicas, quase como se Price, com sua música, simpatizasse com a personagem, cuja obsessão pelo Coringa a levou ao mundo do crime. Já no fim da faixa seguinte, The Bird is Baked, o tema da vilã ganha alguma urgência, mas sem perder o estilo dramático, conforme o arco da Arlequina e o Coringa chegam ao clímax.

Falando em tragédia, o pirotécnico El Diablo foi um dos poucos personagens que foram capazes de surpreender a audiência, graças à sua história repleta de perdas pessoais. Normalmente, devido às origens latinas do personagem, seu tema incluiria violões ou outros instrumentos típicos, porém Price, conseguiu enxergar além disso e escrever música relacionada apenas à tragédia do personagem, evitando os clichês. Seu momento de maior destaque, obviamente, é em Diablo’s Story, no qual ganha contornos dramáticos. Entretanto, ele também ganha tons mais enérgicos conforme o personagem participa das batalhas do grupo, como ao final de You Die, We Die, ou em Are We Friends or Ar We Foes?. Estranhamente, me lembrou do tema que Henry Jackman escreveu para outro vilão, Zemo, de Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016), embora isso certamente tenha sido uma coincidência.

Por fim (ufa!), o tema da vilã Magia inclui também um coro, embora este último surja quase escondido em meio às orquestrações barulhentas e aos eletrônicos. Introduzido na sinistra Brother, Our Time Has Come, ele tem seu grande momento de destaque no clímax. Em Are We Friends or Ar We Foes? e She’s Behind You, ele trava uma batalha contra o tema dos heró… digo, do Esquadrão Suicida.

Infelizmente, se Price foi ambicioso ao compor uma grande quantidade de temas, o mesmo não se pode dizer do restante da música. Conforme dito, seu score soa extremamente agressivo, com instrumentos acústicos e eletrônicos, mas, no fundo, sua trilha não tem nada de especial. Nas (muitas) faixas de ação, isso fica particularmente evidente: cues como Arkham Asylum, You Make My Teeth Hurt, A Serial Killer Who Takes Credit Cards e The Bird is Baked podem até ser violentos e energéticos na superfície. Porém, quem ouvir com mais atenção poderá perceber que, em tais faixas, é quase como se Price estivesse usando seus eletrônicos para disfarçar o fato de que suas melodias de ação para a orquestra não tem nada de muito inventivo e, pelo contrário, trazem todos os clichês das trilhas de ação da atualidade. De vez em quando, ele até tenta fazer algo diferente: That’s How I Cut and Run, por exemplo, é a melhor faixa de ação do disco, apenas por causa da citada aparição do tema do Pistoleiro ao final. Já em One Bullet is all I Need o compositor tenta dar um ar emocional à música, mas ela acaba soando como mais uma das típicas elegias que ouvimos aqui e ali quando Zimmer ou outro compositor da Remote Control quer passar um clima dramático ao seu score.

Além disso, a constante violência musical acaba ofuscando os momentos menores e mais íntimos da trilha – estranhamente, são neles que Price se sai melhor. Faixas como I’m Going to Figure this Out, Hey Craziness e You Need a Miracle até incluem alguns bons momentos mais tristes, com cordas, piano e texturas eletrônicas, reminiscentes dos bons cues nesse estilo do músico em Corações de Ferro. Porém, eles são poucos e espaçados entre as partes mais agressivas da música. Não seria nenhum problema, claro, caso essas mudanças de tom fossem bem costuradas, mas não é o que acontece aqui. A conclusiva I Thought I’d Killed You é uma exceção, por ser uma tentativa de injetar genuína emoção ao fim do longa, e sendo (parcialmente) bem sucedida.

O lançamento digital do disco inclui oito faixas-bônus adicionais, totalizando cerca de 94 minutos de score. Porém, todas são mais do mesmo, em relação ao restante da trilha. Dentre elas, os principais destaques são Did That Tickle! e Introducing Diablo and Croc. A primeira é uma interessante faixa de ação (talvez por ser construída de forma mais coerente que as outras), enquanto a segunda, além do tema do vilão pirotécnico, também traz coros masculinos e percussão para representar o segundo personagem. Este último motivo, por soar relativamente diferente do restante da música, representa o tipo de inventividade que Price deveria levar a todos os outros personagens que ele escolheu para retratar musicalmente. Mesmo assim, os vinte minutos adicionais de score apenas servem para deixar a audição do disco ainda mais cansativa, de uma forma geral.

Esquadrão Suicida, tanto o filme como a trilha, eram a esperança de trazer um ar fresco, divertido e ousado aos longas baseados em HQs da DC, porém, no fim das contas, ambos acabaram sendo mais do mesmo. Afinal de contas, Steven Price é um compositor talentoso, com toda uma carreira ainda pela sua frente, mas também com capacidade de entregar uma trilha bem melhor do que essa. Os bons momentos de seu score ainda a colocam acima de coisas como o trabalho de Tom Holkenborg em Deadpool (idem, 2016) e o de John Ottman em X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016). Mesmo assim, ele foi mais uma vítima da “maldição” que abateu os filmes de super-heróis do ano, grandes sucessos de bilheteria, mas incapazes de ter uma trilha memorável. Aparentemente, na Marvel as coisas estão começando a mudar (Michael Giacchino compondo para Doutor Estranho e para o novo logo do estúdio, Alan Silvestri retornando para os próximos dois filmes dos Vingadores), esperemos que a DC ouça as críticas e reaja também.

Faixas:

1. Task Force X  4:53
2. Arkham Asylum 3:23
3. I’m Going to Figure This Out 1:41
4. You Make My Teeth Hurt 2:30
5. I Want to Assemble a Task Force 2:52
6. Brother Our Time Has Come 4:42
7. A Serial Killer Who Takes Credit Cards 2:09
8. A Killer App 2:53
9. That’s How I Cut and Run 3:09
10. We Got a Job to Do 1:41
11. You Die We Die 4:01
12. Harley and Joker 2:49
13. This Bird Is Baked 4:42
14. Hey Craziness 4:01
15. You Need a Miracle 2:36
16. Diablo’s Story 1:42
17. The Squad 3:58
18. Are We Friends or Are We Foes? 4:16
19. She’s Behind You 3:02
20. One Bullet Is All I Need 3:32
21. I Thought I’d Killed You 3:49
22. The Worst of the Worst 4:11
23. BONUS TRACKS (MP3 & ITUNES ONLY): June Moone 2:37
24. Did That Tickle? 3:41
25. You Know the Rules Hotness 1:58
26. Enchantress in the War Room 2:35
27. Introducing Diablo and Croc 2:09
28. Task Force X Activated 2:11
29. Can Everyone See This Trippy Stuff? 4:25
30. I Promised My Friends 1:29

Duração: 93:37

Tiago Rangel
[via ScoreTrack.net]

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