Resenha de Trilha Sonora: INDEPENDENCE DAY – RESURGENCE – Thomas Wander, Harald Kloser


id_resurgence_CDMúsica composta por Thomas Wander, Harald Kloser
Selo: Sony Classical
Formato: CD
Lançamento: 17/06/1996
Cotação: star_3

Enfrentando a competição cada vez mais acirrada de outros meios, como TV e streaming, Hollywood resolveu tentar mais uma cartada: apelar para a nostalgia dos cinéfilos. Depois dos retornos às telonas de franquias como Jurassic Park, O Exterminador do Futuro, Star Wars e até mesmo Rocky Balboa, o mais novo (e improvável) sucesso do passado a voltar é Independence Day (idem, 1996), a aventura de ficção científica que marcou época graças a seus efeitos grandiosos e inovadores, personagens carismáticos e um senso de diversão pura e simples que hoje parece perdido no cinemão pipoca americano. Procurando resgatar a antiga magia do original, chega aos cinemas mundiais a aventura sci fi Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Ressurgence, 2016), que é passado vinte anos após o primeiro confronto com os malvados alienígenas que tentavam destruir a Terra.

Enquanto nosso mundo foi drasticamente alterado pela batalha e pelo uso da tecnologia deixado pelos invasores, os alienígenas se preparam para lançar sua vingança, o que pode levar a um novo confronto. Novamente dirigido pelo atual “mestre das catástrofes” Roland Emmerich, o longa traz no elenco jovens promessas, como Liam Hemsworth e Jesse Usher, junto a veteranos do primeiro filme como Jeff Goldblum, Bill Pullman, Judd Hirsch e Vivica A. Fox. Infelizmente, quem não volta (além do superastro Will Smith) é o compositor responsável pelo brilhante score do primeiro, David Arnold. E, em seu lugar, entra a dupla nem um pouco dinâmica Harald Kloser e Thomas Wander (músico austríaco que, originalmente chamado “Wanker”, teve de mudar o nome devido a esta palavra significar uma expressão chula em inglês).

Você pode gostar ou não de seus filmes, mas o fato é que os primeiros blockbusters de Emmerich costumavam inspirar trilhas da mais alta qualidade. Afinal, foi o diretor germânico o responsável por revelar a carreira de Arnold, que compôs para ele três ótimos scores: Stargate: A Chave Para o Futuro da Humanidade (Stargate, 1994), o primeiro Independence Day e Godzilla (idem, 1998). Infelizmente, a relação dos dois, que tinha tudo para ser duradoura, sofreu um duro revés quando Emmerich rejeitou as ideias de Arnold para a trilha de seu drama histórico O Patriota (The Patriot, 2000). Assim, o cineasta contratou ninguém menos que John Williams para musicar o épico estrelado por Mel Gibson e, embora o longa tenha rendido um dos melhores trabalhos do veterano compositor em toda a década, serviu para sepultar de vez a colaboração entre Emmerich e Arnold.

O que é uma pena, pois, para os longas seguintes, o diretor resolveu utilizar os serviços de Harald Kloser, que, também roteirista e produtor dos longas de Emmerich, contou com a ajuda de Wander. As trilhas dos dois para os longas do diretor acabaram se tornando tudo o que as de Arnold não eram: genéricas, esquecíveis, faziam seu trabalho em servir de pano de fundo para a ação, mas era quase impossível lembrar-se delas após terminar de ver o longa. Talvez você se lembre do triunfal tema de Arnold para o primeiro longa, mas duvido que, sem abrir um YouTube ou Spotify da vida, você consiga se lembrar de alguma coisa de scores como O Dia Depois de Amanhã (The Day After Tomorrow, 2004), 10.000 A.C. (10.000 B.C., 2008), 2012 (idem, 2009) ou O Ataque (White House Down, 2013).

E o mesmo vale para Independence Day: O Ressurgimento. Todos os principais ingredientes de uma trilha épica estão lá: grande orquestra, coro, eletrônicos, e um senso de heroísmo reminiscente do que Arnold trouxe para o primeiro filme. O que não se faz presente, porém, são elementos fundamentais como originalidade, criatividade e talento, que não parecem ser a prioridade de Kloser e Wander (ou da música para o cinema blockbuster hollywoodiano atual).

O tema principal de O Ressurgimento é claramente inspirado pelo de Arnold, mas não é exatamente ruim, e traz a dose de heroísmo patriota que um longa desses pede com trompetes, trompas, cordas solenes e percussão militarista. Ele responde pelas melhores partes do disco: introduzido em Great Speech, o tema aparece de forma nobre e patriótica em faixas como Fear, Welcome to the Moon, a dramática Worth Fighting For e a bela Humanity’s Last Stand, antes da conclusiva Independence Day Resurgence Finale. Em It’s Getting Real, ele ganha uma interpretação solene e fúnebre em trompas, enquanto em More Stimulation e ao final de What Goes Up o tema recebe uma heroica performance em meio às melodias de ação.

Os alienígenas, por sua vez, também ganham um motivo de Wander e Kloser, notadamente inspirado num tema de James Newton Howard para outro longa sobre invasão de extraterrestres ao nosso planeta: Sinais (Signs, 2002). Introduzido em What Goes Up, ele mistura sintetizadores e ideias para cordas e sopros, e depois é repetido de forma mais sutil em Flying Inside e numa potente variação para coro e orquestra na climática Bus Chase.

Falando em ação, o disco, como seria de se esperar, possui um punhado de faixas do tipo. Embora elas não tenham a mesma qualidade ou sejam tão vibrantes como as de Arnold (que contou com a ajuda inestimável do orquestrador e maestro Nicholas Dodd), também não são de todo ruins. A citada More Stimulation, por exemplo, é uma enérgica, ainda que curta, faixa de ação conduzida por cordas, percussão e metais. Mais ao fim do disco, Whitmore’s Choice é um pouco mais moderna, com sua mistura de orquestra e sintetizador, incluindo algumas frases para metais ao fim da faixa ligeiramente reminiscentes do tema de Brian Tyler para Thor: O Mundo Sombrio (Thor: The Dark World, 2013) – provavelmente influência da temp track. Mas a melhor do disco é Bus Chase, uma épica faixa para orquestra e coral, bem orquestrada e metais rápidos. Provavelmente, esta será a única faixa do disco a qual retornarei com frequência.

Infelizmente, o restante da trilha não mantém a mesma qualidade. Grande parte dela, na verdade, é constituída por composições que tentam construir uma atmosfera de suspense, mas que acabam soando apenas genéricas e sem inspiração. Do cue de abertura, Traveling Through Space, passando por faixas como Hostile Territory, How Did They Get the Lights On!, Inside the African Ship, It’s a Trap, The Sphere e The Queen is Leaving, ocasionalmente você pode notar algumas uma ou outra coisa notável, como a melancolia de The Only Family I Got ou a interessante The Friendly Spaceship. Mas, pela maior parte do tempo, o score se contenta em servir de papel de parede musical, sem se destacar.

E isso fica ainda pior quando a comparamos com o tema que Arnold escreveu para o longa de 1996, ouvido duas vezes no disco, em We Are Rich e ID4 Reprise. Claro, como reviewer, minha tarefa é me manter imparcial frente a qualquer trilha, não importa qual seja seu compositor. Entretanto, é difícil não sentir uma ligeira decepção quando ouvimos a grandiosa melodia do músico inglês vinda logo após de uns 45 minutos com as criações de Wander e Kloser, não apenas por causa do legado musical da recém nascida franquia, mas também porque filmes como esse costumam (ou costumavam) inspirar grandes e épicos scores, como provado por Arnold. Infelizmente, a falta de ambição e de ousadia mostrada pela dupla de músicos (e por seu diretor, que vem se contentando com trilhas como essa há doze anos) impediu que tivéssemos em mãos um trabalho memorável e marcante.

A trilha de O Ressurgimento não é ruim, nem Wander e Kloser, por sua vez, são maus compositores. Eles possuem talento e sabem comandar uma orquestra, como demonstrado pelos relativos acertos da trilha. Mesmo assim, seu score aqui é apenas genérico, inofensivo, do tipo que se esquece no minuto em que acabamos de ouvir. Talvez um dia os dois entreguem uma trilha de ótima qualidade, mas, até lá, nós, como fãs de Música de Cinema, não podemos nos contentar com trabalhos tão medianos como esse.

Faixas:

1. Traveling Through Space (with Thomas Schobel)  1:26
2. Great Speech  1:37
3. Hostile Territory  1:23
4. How Did They Get the Lights On?  1:13
5. Inside the African Ship  1:22
6. More Stimulation  1:50
7. Fear  2:06
8. The Friendly Spaceship  3:18
9. The Only Family I Got  1:01
10. Welcome to the Moon  1:17
11. What Goes Up  2:11
12. It’s Getting Real  3:06
13. Flying Inside  2:00
14. It’s a Trap  2:36
15. Worth Fighting For  1:12
16. The Sphere  3:37
17. The Queen is Leaving (with Thomas Schobel)  1:09
18. Whitmore’s Choice  1:59
19. Humanity’s Last Stand  1:10
20. Bus Chase  3:08
21. We are Rich (with David Arnold)  1:05
22. Independence Day Resurgence Finale  3:14
23. ID4 Reprise (David Arnold)  2:27
24. Electric U (performed by Kid Bloom, composed by Josh Conway, Lennon Kloser, Jesse Perlman)  2:50
25. Bang Bang (My Baby Shot Me Down) (performed by Annie Trousseau, composed by Sonny Bono)  2:57

Duração: 51:14

Tiago Rangel
[via ScoreTrack.net]

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