Resenha de Trilha Sonora: X-MEN: APOCALYPSE – John Ottman


X-man apocalypse_CDMúsica composta por John Ottman
Selo: Sony Classical
Catálogo: 532120
Lançamento: 17/06/2016
Cotação: **½

Nono filme na absurdamente longeva franquia X-Men (incluindo aí também os spin-offs estrelados por Wolverine e Deadpool), o novo X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016) também conclui a trilogia iniciada com Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). No longa, que estreiOU no Brasil uma semana antes dos EUA, o poderoso vilão Apocalipse (Oscar Isaac), nascido no Antigo Egito como En Sabah Nur e considerado o primeiro mutante, é despertado após milhares de anos e resolve exterminar humanos e mutantes para reconstruir o mundo à sua imagem. Assim, cabe ao Professor Xavier (James McAvoy) e seu grupo de X-Men, os mutantes bonzinhos que incluem Ciclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner), Noturno (Kodi Smit-McPhee), Mística (Jennifer Lawrence) e Fera (Nicholas Hoult) impedirem a ameaça. Enquanto isso, Apocalipse recruta seus “Quatro Cavaleiros”, mutantes poderosos para o ajudarem em sua missão destrutiva: Magneto (Michael Fassbender), Psylocke (Olivia Munn), Tempestade (Alexandra Shipp) e Arcanjo (Ben Hardy). O numeroso elenco foi comandado por Bryan Singer, em seu quarto filme na saga. Infelizmente, apesar dos talentos à frente e atrás das câmeras, o filme não foi bem recebido pela crítica, com muitos dizendo que a venerável franquia (considerada pioneira para o sucesso que os filmes de super-herói vivenciam atualmente) hoje já está ultrapassada, frente ao sucesso de outras empreitadas com personagens de quadrinhos, como o Universo Cinematográfico da Marvel Studios.

Por mais bem recebidos que os filmes dos X-Men tenham sido, a franquia nunca foi conhecida por uma grande qualidade musical em seus scores. Mesmo com compositores talentosos envolvidos, seus trabalhos para a saga não se incluem entre os melhores ou mais memoráveis de suas carreiras. Além disso, a continuidade musical na série é um grande problema, já que nada menos que seis compositores diferentes trabalharam na franquia, que nunca tentaram trazer de volta algo criado por seus predecessores. Assim, com Singer de volta ao comando dos mutantes, coube ao seu compositor preferido, John Ottman (que também atuou como montador e co-produtor aqui), a tarefa de dar uma direção à música da franquia a partir de seu score para X-Men 2 (X2: X-Men United, 2003), que serviu de base para o retorno do músico em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, 2014) e agora em Apocalipse.

O problema é que dificilmente as trilhas de Ottman para a franquia são as melhores que os X-Men já receberam – particularmente, prefiro os trabalhos do grande Michael Kamen, John Powell e Henry Jackman para, respectivamente, o primeiro, o terceiro e o reboot Primeira Classe. Dos trabalhos de Ottman para os mutantes, X2 era um score decente, porém extremamente esquecível, enquanto Dias de um Futuro Esquecido, apesar de alguns bons momentos, tinha um estilo mais discreto e eletrônico e não devia em nada aos mais genéricos scores da Remote Control, impedindo que fosse um trabalho mais envolvente.

Apocalipse é um score mais alinhado com o estilo orquestral de X2 e menos com os eletrônicos de Futuro Esquecido. Dando continuidade ao trabalho iniciado em seu antecessor, Ottman reprisa alguns temas das duas trilhas anteriores, nomeadamente a Marcha dos X-Men (livremente baseada no tema de Lifeforce, composto por Henry Mancini em 1985) e o tema do Professor Xavier (baseado na famosíssima Time, de Hans Zimmer para A Origem). Para os diversos personagens que estreiam (ou reestreiam) em Apocalipse, dois ganharam temas de Ottman: o vilão Apocalipse e a telepata Jean Grey.

O antagonista do filme é acompanhado por um motivo de seis notas que retrata a arrogância e o paternalismo do personagem, que se enxerga como um deus. Ouvido geralmente nos metais ou no coro, com acompanhamento de percussão, ele é introduzido nos 0:35 da suíte Apocalypse, baseada em seu tema. A seguir, The Transference e Pyramid Collapses retratam o prólogo no Egito com o vilão, com seu tema passando da orquestra para um coro malevolente e sinistro, levemente inspirado em Jerry Goldsmith e seu clássico score para A Profecia (The Omen, 1976) e sua continuação. A forma como a melodia ganha em intensidade, desembocando na Marcha dos X-Men nos Main Titles, é particularmente interessante, e resulta nos 10 minutos mais divertidos do álbum (e do filme). Seria ótimo se ambos continuassem assim, mas, infelizmente, não é o que ocorre. Quanto ao tema de Apocalypse, depois disso ele retorna apenas para participações eventuais em cues como Moira’s Discovery/Apocalypse Awakes e Going Grey/Who the F are You!.

Do lado dos mocinhos, aparentemente Jean Grey é a mutante que mais inspira Ottman em toda a saga. A telepata já havia ganhado um bonito e tocante motivo do músico em X2, quando ainda era defendida pela atriz Famke Janssen. Agora, para Apocalipse, que traz uma versão mais jovem da heroína, o compositor escreveu um tema que, se não aproveita todo o seu potencial no score, ao menos responde pelos melhores momentos do álbum. Na maior parte da trilha, ele aparece de forma mais discreta e melancólica, em piano, harpa ou cordas, como em Just a Dream, na bonita You Can See e na sombria A Piece of His Past. Apenas em Like a Fire ele ganha contornos mais heroicos e grandiosos, num bom cue aparentemente inspirado pelo James Newton Howard de O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010) ou de uma das continuações de Jogos Vorazes, por exemplo (embora a faixa de Ottman não flua de maneira tão orgânica como as de Howard). Depois, no início de Rebuilding/Cuffed/Goodbye Old Friend, ele retorna para mais uma bela aparição, enquanto o fim da faixa reserva uma surpresa para os fãs nostálgicos de Ottman (se é que eles existem): aos 3:13, é possível ouvir uma brevíssima aparição do tema da Jean de Famke nas cordas, seguido pelo da Jean de Sophie no piano. Para a suíte dos créditos finais, Ottman segue o estilo de John Williams em franquias como Star Wars e Indiana Jones e a estrutura com a já “tradicional” marcha dos X-Men, seguida por um dos temas novos do filme em questão, no caso aqui, o tema de Jean, numa grandiosa performance junto ao tema principal.

Além disso, para uma das sequências fundamentais do filme, Ottman utiliza um truque já empregado em X2: assim como para o ataque de Noturno à Casa Branca ele fez um arranjo da peça Requiem, de Mozart, em Apocalipse o compositor volta a se inspirar em compositores clássicos, no caso aqui, Beethoven. A peça escolhida foi o segundo movimento, Allegretto, da Sinfonia n.º 7 e é ouvida numa cena crucial envolvendo Apocalipse, Magneto e Xavier, e na faixa Beethoven Havok no disco. Mesmo se você não for familiarizado com a obra de Beethoven, talvez se lembre da peça sendo utilizada no clímax da ficção científica Presságio (Knowing, 2009), com Nicolas Cage. É curioso pensar que tanto naquele longa como aqui a peça foi usada para acompanhar sequências apocalípticas. Seria esse o som que Beethoven imaginava para o fim do mundo?

Infelizmente, os elogios param por aí, porque o restante da trilha não volta a se destacar tanto. Tal como em seus longas anteriores com os mutantes, o score de Ottman nunca volta a se destacar tanto (afora os bons momentos citados acima), permanecendo sempre discreto e anônimo. A maior parte do disco se divide em momentos de drama sutil e melancolia para retratar a tragédia na vida dos personagens (e talvez os X-Men sejam os heróis mais sofridos dos quadrinhos), e outros de suspense, ameaça ou mesmo de muita dissonância para as cenas de ação.

Faixas como Eric’s New Life, Jet Memories e a maior parte de Rebuilding/Cuffed/Goodbye Old Friend trazem orquestrações tristes e discretas, enquanto partes de Contacting Eric/The Answer! e What Beach? tem como destaque a participação do tema do Professor Xavier do filme anterior. Porém, tais cues se contentam em apenas servir de pano de fundo para as cenas mais dramáticas do longa, sem oferecer nenhum comentário adicional ou algo que realmente marque o espectador, praticamente caindo no velho clichê de “violinos tristes para as cenas tristes”. Em suma, a não ser que você se emocione até mesmo com comerciais de margarina, dificilmente conseguirá se envolver muito com a trilha de Ottman aqui. Aparentemente, o compositor estava sem muita inspiração, pois mesmo em Dias de um Futuro Esquecido seus cues mais dramáticos estavam mais bem escritos.

Já as faixas de ação também não se destacam muito, pois são desorganizadas, sem foco. Split them Up!, por exemplo, até começa com alguns ostinatos nos cellos que podem lembrar vagamente o James Horner dos anos 1980 e 1990, mas logo descamba para os típicos clichês da Remote Control, incluindo os infames horns of doom. Já The Magneto Effect é inteiramente orquestrada nesse estilo e, se não fossem as aparições do tema de Apocalipse na faixa, eu poderia jurar que estava ouvindo uma das trilhas de Steve Jablonsky para os Transformers, por exemplo. Mais adiante, Great Hero/You Betray Me mistura tanto dissonâncias dignas de um dos trabalhos de Ottman em filmes de terror com momentos de ação mais enérgica e é praticamente a melhor faixa de ação do disco, embora isso não seja lá muito difícil. Ainda assim, elas conseguem ser mais interessantes que os cues de suspense, como Moira’s Discovery/Apocalypse Awakes, Recruiting Psylocke e The Message/Some Kind of Weapon, que trazem texturas ameaçadoras de violinos que não levam a lugar nenhum, e só deixam a audição da trilha mais monótona.

Por um lado, Ottman merece elogios por ao menos tentar manter e construir uma identidade musical para os X-Men, após anos de trilhas diferentes feitas por compositores diferentes. Porém, novamente temos um score extremamente anônimo e discreto para um filme dessa escala, com algumas boas ideias aqui e ali, mas que são mais impressionantes separadas do que no contexto geral da trilha (mais ou menos como o filme). Será que o acúmulo de funções como co-produtor, montador e compositor desgastou o sujeito? De toda forma, é uma situação triste, pois o fato é que 2016 até agora foi dominado nas bilheterias por quatro filmes de super-heróis dos quadrinhos, e nenhum deles teve um score marcante. Apenas Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016) conseguiu ter uma trilha razoavelmente divertida, já Deadpool (idem, 2016), Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016) e agora esse Apocalypse foram acompanhados por scores que poderiam ter sido bem melhores. Afinal, independentemente da qualidade de tais longas, todos ofereciam uma grande oportunidade para que compositores talentosos e bem dispostos escrevessem partituras memoráveis. Agora, cabe a Steven Price e Michael Giacchino, nos futuros Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) e Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016) a missão de resgatar as trilhas dos super-heróis neste ano.

Faixas:

1. Apocalypse 3:43
2. The Transference 3:50
3. Pyramid Collapse / Main Titles 2:25
4. Eric’s New Life 1:27
5. Just a Dream 1:16
6. Moira’s Discovery / Apocalypse Awakes 4:35
7. Shattered Life 2:54
8. Going Grey / Who the F are You? 1:49
9. Eric’s Rebirth 2:48
10. Contacting Eric / The Answer! 5:01
11. Beethoven Havok 2:53
12. You Can See 1:31
13. New Pyramid 2:13
14. Recruiting Psylocke 2:04
15. Split them Up! 4:15
16. A Piece of his Past 1:42
17. The Magneto Effect 4:26
18. Jet Memories 1:46
19. The Message / Some Kind of Weapon 4:01
20. Great Hero / You Betray Me 5:13
21. Like a Fire 4:24
22. What Beach? 1:51
23. Rebuilding / Cuffed / Goodbye Old Friend 3:35
24. You’re X-Men / End Titles 4:09
25. Rest Young Child (Vocal Version) (with Jasper Randall) 2:18

Duração: 76:09

Tiago Rangel
[via ScoreTrack]

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