Resenha de Trilha Sonora: 10 CLOVERFIELD LANE – Bear McCreary


10_Cloverfield_Lane_CDMúsica composta por Bear McCreary
Selo: Sparks and Shadows
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 11/03/2016
Cotação: star_4

Descrito como um sucessor espiritual do filme de monstros gigantes em found footage Cloverfield: Monstro (Cloverfield, 2008), o suspense Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, 2016) foi dirigido pelo estreante Dan Trachtenberg e chega agora aos cinemas brasileiros após ter recebido boas críticas e ótima bilheteria nos EUA. O filme conta a história de Michelle (Mary Elizabeth Winstead), uma jovem que acorda presa num bunker controlado pelo paranoico Howard (John Goodman), que lhe informa que lá fora ocorreu algum misterioso ataque, que deixou a atmosfera tóxica. Os dois, juntamente com o vizinho de Howard, Emmet (John Gallagher, Jr.) convivem de forma tensa dentro do bunker, porém, a personalidade instável de Howard e o desejo de Michelle em descobrir o que realmente houve podem acabar colocando o trio em perigo.

Por ter sido um filme do tipo found footage (como em Atividade Paranormal e A Bruxa de Blair), o Cloverfield original não teve trilha original, exceto por uma ótima peça para os créditos finais de Michael Giacchino, intitulada Roar!. Já este Rua Cloverfield, 10 é um suspense mais “tradicional”, por assim dizer e, desta forma, foi musicado pelo ocupadíssimo Bear McCreary. Considerado um dos mais importantes e bem sucedidos compositores de música para a TV desde que surgiu há doze anos em Battlestar Galactica, atualmente o sujeito possui nada menos que cinco séries que contam com uma trilha sua em exibição, incluindo as populares Agents of S.H.I.E.L.D. e The Walking Dead, além da premiada Outlander, considerada um dos melhores scores para séries de TV de 2015 pela crítica especializada. Porém, se nas telinhas o compositor tem se mantido ocupado, nas telonas sua carreira ainda não deslanchou, com ele trabalhando em longas menores como os suspenses Boneco do Mal (The Boy, 2016) e Floresta Maldita (The Forest, 2016), ou bizarrices como Angry Video Game Nerd: The Movie (idem, 2014) e Knights of Badassdom (idem, 2013). De certa forma, Rua Cloverfield 10 é seu maior longa para os cinemas até agora, uma oportunidade de ouro que foi muito bem aproveitada por ele, que escreveu uma das trilhas mais impressionantes do ano até agora.

Musicalmente, McCreary certamente foi inspirado pelos trabalhos de Bernard Herrmann, em especial para os longas de Hitchcock, como o clássico Psicose (Psycho, 1960) – que, claro, é uma influência clara no filme de Trachtenberg – sem, contudo, soar como uma mera repetição de seu mestre, e sim mais como uma atualização do estilo de Herrmann para o século XXI. Para alcançar este feito, além de contar com uma orquestra padrão, McCreary contou com alguns instrumentos peculiares para criar sua paleta sônica. O primeiro deles é o yaylı tambur, um instrumento originário da Turquia que lembra um banjo, porém, tocado com o arco. O outro é o famoso instrumento eletrônico Blaster Beam, tocado aqui por seu próprio inventor, Craig Huxley, e popularizado após seu marcante uso na trilha de Jerry Goldsmith para Star Trek: O Filme (Star Trek: The Motion Picture, 1979).

No longa, a história é contada do ponto de vista de Michelle, e isto se reflete na trilha sonora, em que a música de McCreary reflete não apenas o medo e a tensão da heroína, mas também sua personalidade combativa, e disposta a lutar para sair de sua prisão. Assim, o tema da protagonista é uma presença constante em todo o score, uma melodia misteriosa e agourenta. Tal tema é também literalmente a primeira coisa que ouvimos na trilha, em Michelle, um longo e impressionante cue que acompanha o prólogo quase sem diálogos do filme, de forma que a música reflete as dúvidas e o turbilhão de emoções vivido pela personagem. O uso do yaylı tambur aqui é particularmente interessante junto à orquestra, adicionando mais uma camada de mistério à história.

Porém, não demora muito e logo a personagem já está presa e novamente a trilha descreve a situação de Michelle com orquestrações ameaçadoras e performances sinistras de seu tema na orquestra, piano ou no yaylı tambur nas opressivas The Concrete Cell e Howard. Enquanto isso, A Bright Red Flash (a primeira do disco com a participação do Blaster Beam), Two Stories e A Happy Family são mais intimistas, misturando melancolia com um senso de medo e ameaça constante, e não ficariam fora do lugar num score de James Newton Howard para os suspenses de M. Night Shyamalan, como Corpo Fechado (Unbreakable, 2000) ou Sinais (Signs, 2002), por exemplo.

At the Door é a primeira faixa de ação do disco, e conta com orquestrações frenéticas, com muita percussão e metais enérgicos, finalizando com crescendos assustadores de cordas. Mais adiante, temos o momento de maior destaque do Blaster Beam em Hazmat Suit, um ótimo cue em que se une a ostinatos de cordas e percussão eletrônica, além de participações mais grandiosas e determinadas do tema de Michelle, representando a disposição da heroína em escapar do bunker e seu plano para conseguir isso, em antecipação ao clímax do filme.

Tal clímax traz mais de quinze minutos de música de ação enérgica e violenta, iniciando-se na longa The Burn, que traz o tema de Michelle perfeitamente integrado na frenética melodia de McCreary. Já Up Above começa com uma sensação de alívio momentâneo, que logo é substituído por mais horror, conforme Michelle descobre a verdade sobre o que realmente existe fora do bunker de Howard. Assim, Valencia (curiosamente, o título original do longa antes de ter sido comprado pela produtora Bad Robot e entrado para a “franquia” Cloverfield) é ainda mais explosiva, incluindo percussão caótica e os famosos crashing pianos, que fãs de James Horner poderão reconhecer de suas trilhas nos anos 1980 e 1990. Por fim, temos The New Michelle com apresentações cada vez mais grandiosas de seu tema, enquanto a suíte dos créditos finais, 10 Cloverfield Lane, serve como um ótimo resumo de todo o score, reunindo em um único cue todos os seus melhores elementos costurados no mesmo ritmo agitado da trilha.

No fim das contas, Rua Cloverfield 10 é uma ótima trilha, perfeitamente integrada ao filme, e que ainda rende um disco envolvente. McCreary aqui se mostra um discípulo talentoso de Herrmann, e, caso sua lotadíssima agenda com séries de TV permita, esse longa pode lhe ajudar a abrir portas para que exiba seu grande talento também nos cinemas.

Faixas:

1. Michelle (06:08)
2. The Concrete Cell (08:29)
3. Howard (05:00)
4. A Bright Red Flash (02:53)
5. At the Door (02:59)
6. Two Stories (02:46)
7. Message from Megan (03:07)
8. Hazmat Suit (03:01)
9. A Happy Family (03:52)
10. The Burn (06:14)
11. Up Above (03:03)
12. Valencia (06:12)
13. The New Michelle (03:25)
14. 10 Cloverfield Lane (06:23)

Duração total: 63:32

Tiago Rangel
[via ScoreTrack.net]
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