Resenha de DVD: BATMAN – A SÉRIE COMPLETA DA TELEVISÃO


batman_1966_DVDBATMAN – THE COMPLETE TELEVISION SERIES
Produção: 1966 – 1968
Duração: 3.012 min.
Direção: Vários
ElencoAdam West, Burt Ward, Alan Napier, Neil Hamilton, Stafford Repp, Madge Blake, Yvonne Craig, George Romero, Julie Newmar, Frank Gorshin, Burgess Meredith, Vixtor Buono, Vincent Price
Vídeo: 1.33:1
Áudio: Inglês, Português (Dolby Digital 1.0)
Legendas: Português, Inglês, Espanhol, Francês.
Região: 4
Distribuidora: Warner Home Video
Discos: 18 DVD-9
Lançamento: 20/11/2014
Cotações (Médias): Som: *** Imagem: **** Série: **** Apresentação e Extras: ***½ Geral: ***½

SINOPSE
Batman (Adam West), o Cruzado de Capa, e seu ajudante Robin (Burt Ward), o Menino Prodígio, combatem os malignos vilões de Gotham City nesta inesquecível série dos anos 1960, que satiriza, e também homenageia, os clássicos quadrinhos da Detective Comics (DC Comics).

Batman_Original_Series_1COMENTÁRIOS

Se você cresceu durante as décadas de 1960 e 1970, a palavra “Batman” certamente não lhe evocará histórias em quadrinhos, os filmes de Tim Burton estrelados por Michael Keaton, a recentemente concluída trilogia Cavaleiro das Trevas do diretor Christopher Nolan ou, menos ainda, a versão justiceira de BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA… Não. O que de imediato lhe virá à cabeça é o ator Adam West vestindo capuz e capa brilhantes, malha colante e tendo ao seu lado o inseparável companheiro Robin (Burt Ward), que nos episódios de 30 minutos da série BATMAN (1966-1968), combatia versões caricatas dos vilões Coringa, Charada, Mulher-Gato, Pinguim, etc.

A série, na qual William Dozier adaptou para a TV a clássica criação de Bob Kane e Bill Finger, é um retrato da cultura e arte pop de então e que, num interessante efeito reverso, a ela acabou se integrando de forma inseparável. É o fruto de uma época em que seria impensável fazer uma versão séria, para TV ou cinema, de um super-herói dos quadrinhos, tanto que, após o personagem entrar em sua fase mais dark no final dos anos 1970, muitos fãs do Homem-Morcego a rotularam como camp (cômica e brega) e decidiram ignorá-la, como se fosse uma mancha no seu currículo. Eu mesmo, que na infância tanto vibrei com essas ingênuas (talvez nem tanto) e coloridíssimas aventuras da Dupla Dinâmica, passei a esnobá-la. Felizmente a maturidade me trouxe maior discernimento, para melhor avaliar uma obra artística dentro do seu contexto de origem.

Assim, vista hoje, BATMAN, com suas cores primárias vivas, desenho de produção estilizado e onomatopeias vindas diretamente dos gibis (Soc! Pow! Whaam!), revela-se como uma divertida sátira do gênero, acompanhada pelo pegadiço tema musical de Neal Hefti e pelas jazzísticas trilhas incidentais de Nelson Riddle e Billy May. Enquanto conquistava as crianças pela aventura e as Bat-engenhocas, o programa também agradava aos adultos graças ao memorável elenco convidado que, semanalmente, encarnava os vilões e vilãs de Gotham City (Cesar Romero, Burgess Meredith, Frank Gorshin, Julie Newmar e Vincent Price, entre muitos outros), e pelos irônicos comentários sociais, e até mesmo sexuais, que nas entrelinhas dos diálogos burlavam o conservadorismo da época.

Em cada aventura, dividida em duas partes, Batman e Robin tinham de derrotar os esquemas mirabolantes (e via de regra non sense) dos vilões. O primeiro episódio sempre terminava com a dupla em uma situação mortal, como nos velhos seriados do cinema, da qual normalmente escapavam de forma hilária graças às traquitanas do cinto de utilidades do Batman. Esse formato foi abandonado na temporada final, na qual foi introduzida Batgirl (Ivonne Craig) e cada episódio tinha uma trama própria. Outra característica do programa eram as pontas de celebridades de outras séries ou do show business da época, que apareciam nas janelas quando os heróis escalavam prédios usando bat-cordas. Além disso, BATMAN foi pioneira no hoje comum crossover televisivo de super-heróis, já que dois episódios da segunda temporada contaram com a participação do Besouro Verde (Van Williams) e seu sidekick Kato (o lendário Bruce Lee).

Infelizmente, como em muitos modismos da época, o sucesso avassalador levou a série a um desgaste prematuro, e nem a Batgirl ou a mudança de formato impediu que, após três temporadas totalizando 120 episódios produzidos (além de um filme lançado nos cinemas, no intervalo entre as duas temporadas iniciais), ela fosse cancelada. Porém, não sem antes influenciar os próprios quadrinhos dos quais se originou, e abrir o caminho para uma imensa variedade de futuras adaptações de HQs para a TV e o Cinema.

BatmanDVD

SOBRE O DVD
A clássica série BATMAN permaneceu décadas inédita em home video (pelo menos em edições oficiais) devido a uma disputa judicial entre a Fox, que a produziu, e a Warner, dona dos direitos do personagem desde que adquiriu a DC Comics. Seus nostálgicos fãs sempre tiveram a certeza de que, um dia, o litígio chegaria ao fim e ela seria lançada em algum formato colecionável, e isso finalmente aconteceu ano passado. Após um meticuloso processo de restauração e remasterização em alta definição, a série foi lançada nos EUA tanto em DVD como em Blu-ray, em boxes completos de colecionador (com direito a miniatura do Batmóvel, cards, etc.) ou em temporadas separadas. Todas, infelizmente, sem opções de áudio ou legendas em português, o que era mau sinal. Finalmente, na terra brasilis, tivemos uma notícia boa e outra ruim: a boa foi que a Warner confirmou o lançamento nacional; a ruim é que, previsivelmente, apenas em DVD.

Em novembro de 2014 nosso box de BATMAN – A SÉRIE COMPLETA DA TELEVISÃO, contendo uma camiseta de brinde, chegou como produto exclusivo das lojas da rede B2W. De cara, o preço assustou: nada menos que salgados R$ 399,90 pelo box (e R$ 129,90 pelas temporadas individuais, que posteriormente passaram a ser comercializadas também por outras redes), e você já deve ter deduzido porque só agora, quase um ano após o lançamento, esta resenha está sendo publicada. Como os tempos em que recebíamos DVDs e Blu-rays para avaliação há muito passaram, tivemos que comprar o box, obviamente em uma promoção.

Por esse preço de tabela, mais próximo de Blu-ray que de DVD, seria de esperar que este fosse um lançamento caprichadíssimo, mas infelizmente não é o caso. A coleção, tanto na embalagem como na autoração dos discos, revela ser vítima de desleixo por parte da Warner. Temos uma caixa grande o suficiente para acomodar os estojos das três temporadas, a camiseta e um livreto com o guia de episódios (cujos títulos não foram traduzidos), porém feita de um papelão fino e mole, e caso você dela retire a camiseta (de boa qualidade, por sinal), dentro ficará um grande espaço vazio que aumentará o risco de amassá-la no manuseio. O pior, contudo, são os quatro estojos scanavo usados para acondicionar os 18 DVDs, cada um envolto numa luva O-ring. Apesar das temporadas um e três possuírem cinco discos cada, seus estojos transparentes possuem espaço para seis, portanto neles existe um encaixe sobrando. Já a segunda temporada, com oito DVDs, foi dividida em dois estojos, cada um para quatro discos. Tudo bem, exceto que esses estojos, diferentemente dos demais, são pretos, quebrando a padronização. Como se isso não bastasse, alguns encaixes são tão apertados que, ao tirar os discos, você terá que ter um enorme cuidado para não trincá-los no centro.

Batman_Original_Series_2Já quanto à autoração dos DVDs, alguns problemas, como a falta da narração no episódio inicial “Hi Diddle Riddle” e a perda de um minuto no final do episódio “Marsha’s Scheme of Diamonds”, são comuns às versões norte-americanas, tanto que lá isso até motivou um recall para troca dos respectivos discos. Aqui, além de obviamente nem se pensar em recall, a autoração para o nosso mercado gerou problemas adicionais (e neles nem vou incluir o fato de que a Warner não se deu ao trabalho de traduzir para o português os menus dos discos, que são de uma simplicidade franciscana, apresentando uma imagem estática de Batman e Robin com a música tema da série tocando ao fundo). Em dois episódios da segunda temporada, não foi incluída a opção de áudio em português (a explicação oficial é de que as dublagens foram perdidas, apesar de elas existirem nas cópias reprisadas até recentemente na TV paga). Agora, se você não se importa com a falta parcial da dublagem, prepare-se para as legendas em português: além de erros de digitação e ortografia, a tradução é um samba do morcego doido. Em alguns episódios, o Menino Prodígio virou Garoto Maravilha (!), e o coitado do Comissário Gordon foi rebaixado para “Delegado”.

Poderia também criticar a arte feia dos discos, mas prefiro, finalmente, passar ao que, desleixos à parte, justifica  a presença desta edição em sua coleção: a apresentação visual da série, que é ótima. Mesmo em resolução 480p, a qualidade do vídeo, em seu formato original 1.33:1, é muito superior à das cópias que até recentemente eram reprisadas na TV. A imagem é muito nítida, de forma a revelar detalhes de figurinos, cenários e maquiagem (por exemplo, é possível distinguir perfeitamente o bigode de Cesar Romero, o Coringa, sob a pintura branca do seu rosto). Mas o que realmente se destaca é a reprodução fiel da rica paleta de cores empregada na série, preservada sem a aplicação do notório teal & orange. Os tons de pele são naturais, as cores primárias, apesar de intensas, são estáveis e firmes, e podemos notar claramente, por exemplo, as mudanças de tons no capuz do Batman e as diferentes nuances de verde nos trajes do Charada. O nível do preto é muito bom, e artefatos de compressão não foram percebidos. Sujeiras, riscos e outros danos de película são mínimos, e concentram-se principalmente nas cenas de arquivo, mais usadas no início dos episódios para mostrar as paisagens urbanas de Gotham City.

Quanto ao áudio, todas as opções são Dolby Digital mono. A de melhor qualidade é a faixa original em inglês, que sempre soa clara e com boa qualidade, apesar da óbvia limitação de dinamic range da mixagem original. Portanto, não espere agudos cristalinos e graves retumbantes, e seja feliz. Quanto à nossa dublagem, e a par do “sumiço” em dois episódios, ela está com qualidade satisfatória. E agora, uma curiosidade que poucos sabem: apesar de ser a mesma que ouvimos há décadas na TV, a dublagem em português das duas primeiras temporadas não é a original da década de 1960, feita pela Odil Fono Brasil. Isso porque as cópias dessas temporadas, juntamente com as dublagens, foram perdidas em um dos vários incêndios que ocorreram em diferentes emissoras de TV no Rio e São Paulo, entre 1966 e 1976 (não sei precisar qual). Assim, quando a série foi reprisada no Brasil já na era da TV a cores, foram distribuídas novas cópias que foram redubladas pela AIC (atual BKS), onde apenas para a voz de Robin foi empregado o mesmo ator. Já na terceira temporada foi mantida a dublagem original, feita pela TV Cine Som.

Batman_Original_Series_3EXTRAS
Os suplementos de BATMAN – A SÉRIE COMPLETA DA TELEVISÃO, reunidos no último disco da terceira temporada, são inéditos em qualquer mídia, tendo sido produzidos (exceto pelo material da seção de arquivos) especialmente para este lançamento. Os documentários destacam, com justiça, a persona do ator Adam West, que além de ser o astro do programa, por décadas foi um incansável defensor do lançamento da série em vídeo. Se há alguma crítica a fazer é quanto à pequena participação dos membros remanescentes do elenco original (como Burt Ward e Julie Newmar). Os vídeos, apresentados na proporção 1.78:1 ou 1.33:1, foram todos devidamente legendados em português. Como os menus não foram traduzidos, mantive os títulos dos extras em seu idioma original:

  • Hanging With Batman (30 min.) – Uma bela retrospectiva/homenagem dedicada a Adam West, narrada por ele mesmo e com vários depoimentos antigos e atuais do ator. Tudo intercalado por imagens do início de sua carreira e do período de produção da série;
  • Holy Memorabilia Batman (30 min.) – West visita o apresentador de rádio e podcasts Ralph Garman, para conhecer sua coleção de itens relacionados a Batman. Em paralelo também conhecemos Kevin Silva, que segundo o Guinness é o dono da maior coleção dedicada à série no mundo todo;
  • Batman Born! Building the World of Batman (30 min.) – Documentário sobre o legado da série, com depoimentos dos atores Adam West, Burt Ward e Julie Newmar, além de Bruce Timm, Jim Lee, Mike Carlin e outros nomes ligados ao universo de Batman na DC Comics;
  • Bats of the Round Table (45 min.) – Divertido encontro onde Adam West, o diretor de cinema e roteirista de quadrinhos Kevin Smith, Ralph Garman, Jim Lee e o ator Phil Morris, em um sofisticado restaurante, conversam sobre a série e revelam várias curiosidades. Infelizmente, exceto para West, o final da refeição será indigesto…;
  • Inventing Batman: In the Words of Adam West (59 min.) – Como alternativa à falta de comentários em áudio, temos aqui uma reprise das duas partes do episódio piloto de BATMAN (“Hi Diddle Riddle” e “Smack in the Middle”), onde Adam West intervém de tempos em tempos para consultar as anotações que fez em sua cópia do roteiro original;
  • Na Na Na Batman (12 min.) – Integrantes do elenco e da equipe de séries contemporâneas da Warner Bros. como The Following, Arrow e Supernatural falam sobre a série, inclusive sua clássica canção-tema;
  • Bat Rarities! Straight from the Vault (21 min.) – Para encerrar com chave de outro os extras, temos aqui uma curta, porém valiosa, seleção de material de arquivo da série. Ela inclui um curto (8 min.) piloto da personagem Batgirl, introduzida na terceira temporada, onde a recentemente falecida Yvonne Craig faz sua primeira aparição usando uma máscara diferente da que utilizou na série; o teste de Adam West e Burt Ward (onde a dupla revelou possuir a “química” necessária); o teste de Lyle Waggoner e Peter Deyell (Waggoner, que nas suas falas mostrou não ter o tom irônico de West, co-estrelou na década seguinte a série MULHER-MARAVILHA); e um tributo – na verdade, um depoimento – ao falecido James Blakeley, supervisor de pós-produção da série.

Jorge Saldanha

5 comentários sobre “Resenha de DVD: BATMAN – A SÉRIE COMPLETA DA TELEVISÃO

  1. Ótima resenha. Eu também curtia a série quando moleque, “reneguei” durante um bom tempo até me tocar que podem existir várias leituras de um personagem que já faz parte do imaginário popular. Claro, não dá pra dizer que qualquer releitura funcionaria automaticamente, mas a série “camp” dos anos 60, para o bem e para o mal, tem seu espaço.

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