Animação Resenhas - Séries

Resenha de Série: YAMATO 2199


Yamato_2199

No ano que recém se encerrou, depois de muito tempo sem assistir a séries animadas japonesas, encarei dois dos mais elogiados títulos recentes do gênero – Attack on Titan, sem dúvida um dos melhores e mais originais animes surgidos em anos, e Yamato 2199, remake em 26 episódios da setentista Space Battleship Yamato, conhecida nos EUA como Star Blazers e exibida na TV brasileira como Patrulha Estelar. Saudosismo ou não, e por melhor que seja Attack on Titan, foi o velho e valoroso encouraçado espacial Yamato que mais me agradou.

Lançada em 1974, antes portanto das produções ianques Star Wars e Battlestar Galactica, e de outros animes televisivos clássicos como Gundam e Macross, Space Battleship Yamato inovou por levar ao espaço as batalhas navais da Segunda Guerra Mundial e, certamente, influenciou fortemente tanto a saga de George Lucas como Galactica (as semelhanças tornaram-se ainda maiores no reboot desta última, de 2003).

A série buscava resgatar o orgulho japonês destruído naquele conflito: os inimigos eram uma óbvia referência aos norte-americanos; seus mísseis cósmicos equivaliam às bombas nucleares que transformaram Hiroshima e Nagasaki em cinzas radioativas; e por fim, o próprio Yamato ressurgia como a última esperança, agora não apenas do povo japonês, mas de toda a humanidade. O remake preserva as características do original, inclusive as principais músicas de sua trilha sonora, com a vantagem de receber um banho de tecnologia, conseguir desenvolver melhor seus personagens e aprofundar a discussão de alguns temas caros à ficção científica. E se antes havia apenas uma personagem feminina de relevo – Yuki Mori – agora mais mulheres tem oportunidade de se destacar nas tramas.

Capitão Okita: qualquer semelhança com o Comandante Adama não é mera coincidência
Capitão Okita: qualquer semelhança com o Comandante Adama não é mera coincidência

O argumento de Yamato 2199, lançada inicialmente nos cinemas japoneses, é o mesmo da primeira temporada da velha série, Busca de Iscandar: no século 22, a Terra está praticamente inabitável como resultado dos ataques dos alienígenas hostis chamados Gamilons (ou Gamilas, no original). O que restou da humanidade vive em cidades subterrâneas, porém é apenas uma questão de tempo até que todos pereçam. Felizmente outra raça de alienígenas, do planeta Iscandar, envia uma mensagem à Terra propondo entregar um dispositivo capaz de eliminar a radiação da superfície e tornar nosso planeta novamente habitável. Porém, há uma condição: para obter o tal dispositivo, os humanos terão de viajar a Iscandar em uma nave equipada com a tecnologia de dobra espacial por eles fornecida junto com a mensagem. Assim, como um símbolo de esperança, o antigo encouraçado Yamato é transformado em uma nave espacial equipada com a tecnologia extraterrena, e parte levando a bordo uma audaciosa tripulação disposta a enfrentar os Gamilons durante toda a jornada de 168 mil anos-luz até Iscandar.

O núcleo do argumento, como se vê, é relativamente simples, mas ao longo dos 26 episódios (uns mais direcionados à ação, outros à introspecção) há várias reviravoltas que permitem valorizar os personagens – e não apenas heróis como Kodai, o Capitão Okita e Yuki, mas também os vilões. Conhecemos as motivações deles, e a certo ponto, a bordo da Yamato, a divergência de opiniões sobre a melhor forma de salvar a humanidade transforma em inimigos quem até há pouco era companheiro de armas. Já os azulados Gamilons são inspirados nos antigos romanos (mas com uniformes que lembram os nazistas), e seu império inclui vários mundos e raças conquistados. Os habitantes desses planetas são cidadãos de segunda classe, que ou se opõem à opressão do líder Gamilon, Lorde Dessler, ou colocam-se a seu serviço na esperança de ascenderem à classe dominante. Aliás, há toda uma subtrama interessante sobre o jogo de poder Gamilon que enriquece o desenvolvimento da história. Diferentemente do que vimos no caprichado filme live-action de 2010, como no original todos os alienígenas (exceto pelos robôs Gamiloides) são humanos, que se distinguem apenas por detalhes como cor da pele e formato de olhos ou orelhas. Os Iscandarianos também são humanos, e a razão de ser desta aparente “falta de imaginação” dos realizadores acaba se justificando ao final.

O Yamato em meio a uma  batalha espacial digna de Ano Novo
O Yamato em meio a uma batalha espacial digna de Ano Novo

O ótimo conteúdo de Yamato 2199 encontra um equivalente visual à altura. Apesar de manter suas características básicas, os personagens receberam o refinamento dos animes modernos, que possuem traços mais realistas. Exceto pelo Yamato, que se manteve praticamente o mesmo, naves e caças foram redesenhados e a computação gráfica foi usada em profusão para garantir a fluidez de seus movimentos e criar ambientes e efeitos visuais. A série é muito bonita de se ver, e cenas como a do Yamato entrando e saindo de dobra, usando sua poderosa Arma Ondulatória ou enfrentando sozinho as frotas Gamilons, com seus canhões e lançadores de mísseis disparando por todos os lados, são empolgantes.

Mas como nada é perfeito, nota-se um certo descompasso entre os roteiristas, que parecem ignorar em alguns episódios eventos ou tecnologias de outros. Por exemplo, temos um interessante episódio no qual o Yamato é atacado por um sorrateiro submarino dimensional (que levando ao extremo o conceito de batalha naval no espaço, é capaz de literalmente submergir em outra dimensão, tornando-se invisível exceto por seu periscópio). Por todo o episódio o Yamato sofre danos pesados provocados pelos torpedos inimigos, porém já no seguinte descobrimos que a nave possui um escudo de energia capaz de resistir ao impacto de centenas de torpedos da frota Gamilon… e quem não está acostumado ao estilo anime poderá estranhar alguns momentos de exagerado dramalhão, outros de um humor quase infantil, e se for mais atento, a exploração gratuita da anatomia feminina – mas estas são características do gênero, que dão à experiência um tom diferente da produção estadunidense à qual estamos mais acostumados.

Atenção, retire as crianças da sala!
Atenção, retire as crianças da sala!

O que realmente importa é que Yamato 2199 consolida a franquia como uma das grandes space operas da ficção científica mundial, abrindo caminho para uma continuação (provavelmente refazendo a segunda temporada da série original, Cometa Império) e uma nova versão cinematográfica, dessa vez em Hollywood. Fortemente recomendado, apesar de até o momento ter sido exibida apenas na televisão japonesa, e com lançamento em Blu-ray restrito àquele país. O que, para quem não tem medo de se aventurar pelos diversos caminhos da internet, não será obstáculo.

Jorge Saldanha

8 comentários em “Resenha de Série: YAMATO 2199

  1. João Ferreira

    Patrulha Estelar ganhou um remake a altura da fama da franquia.

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  2. Trabalhador Anonimo.

    Ficou bem bacana, combinando bem com o que eu penso da série.
    Só corrige lá em cima, a viagem é de 166.000 anos luz e não 166 somente.

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  3. Rogério

    gente, será q vai rolar um remake da sequencia: Cometa Império e Guerra de Polar???

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  4. Pingback: PATRULHA ESTELAR poderá ter filme live-action de Hollywood (ATUALIZADO) | SCI FI do Brasil

  5. Sensacional resenha, amigo! Só agora que fui ler, parabéns! Sou um “convertido” dos anos 80, da época da TV Manchete, era – e sou! – um fanático pelo Patrulha Estelar, consegui, já adulto (27 anos de idade) cópias de “Cometa Império” e “A Crise do Sol” gravados da época em VHS, pude notar que a série era basicamente adulta mesmo, tramas sérias e profundas para o que se esperava de uma animação, e pude finalmente tomar contato com o original japonês das três séries com um torrent salvador que jogaram na rede anos atrás, com legendas! Particularmente achei o live action meia boca, não de produção, mas de enredo mesmo, parece que em algum momento faltou grana para pagar os roteiristas… Mas esse remake Yamato 2199 ficou ESPETACULAR! Vejo e revejo dezenas de vezes, tramas e subtramas, incluindo dos “inimigos” como você muito bem observou… enfim, fizeram um trabalho primoroso. Ao ponto de que, sabendo que as edições japonesas em blu-ray tivessem legendas em português (não têm!), eu venderia meu rim e meu fígado pra poder encomendar da Amazon.jp, kkkk parabéns pela resenha!

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