Artigos Filmes Resenhas - Filmes

O Legado de GUERRA DOS MUNDOS (1953)


ww
As icônicas máquinas de guerra marcianas

No dia 30 de outubro de 2013, a célebre transmissão radiofônica do clássico livro de H.G. Wells, Guerra dos Mundos, feita pelo Mercury Theater de Orson Welles, completou 75 anos. Já a primeira versão cinematográfica do livro, lançada nos EUA em 26 de agosto de 1953, completou 60 anos. Neste artigo revisitamos este clássico que popularizou as invasões alienígenas no cinema.

Em todas estas décadas de ficção científica, Guerra dos Mundos, produção da Paramount de 1953 baseada no livro de H. G. Wells publicado em 1897, continua a ser um dos mais devastadores ataques cinematográficos desferidos contra o nosso planeta por invasores do espaço. Apesar de não ser o único filme do período a lidar com a iminente destruição da humanidade, sua objetividade narrativa e as idéias originais de Wells garantiram seu impacto duradouro. As Máquinas de Guerra Marcianas, que no livro eram símbolos do colonialismo e da tecnologia levada ao extremo, com seus tentáculos e três pernas, passaram a fazer parte de nosso imaginário. No filme dirigido por Byron Haskin para o produtor George Pal, já em plena Guerra Fria, as máquinas passaram a representar a ameaça comunista (vermelha como Marte), e as longas pernas deram lugar a feixes antigravidade. Outras liberalidades tomadas com a história original geraram uma série de críticas quando do seu lançamento. Ainda hoje, porém, uma revisão isenta do filme nos revela que foi maravilhosamente bem-feito, seja técnica ou tematicamente.

A HISTÓRIA- O filme inicia com uma rápida viagem pelo sistema solar, ilustrada por Chesley Bonestell (que já trabalhara com Pal em Da Terra à Lua), onde ficamos sabendo, pela narração original de Cedric Hardwicke, que Marte é um planeta moribundo e a única esperança de sobrevivência para seus habitantes é migrarem para a Terra. Em seguida, vemos um grande meteoro cair na zona rural de uma cidadezinha americana, o que é presenciado por várias pessoas. Mais tarde, o meteoro é visitado pelos habitantes, autoridades locais e pelo Dr. Clayton Forrester, o cérebro por trás dos novos propulsores atômicos, que juntamente com dois colegas cientistas viera investigar o fenômeno. Já à noite, três homens ficam de guarda, e espantados testemunham a saída, de dentro do meteorito, de uma cabeça semelhante à de uma serpente, sustentada por um fino e longo pescoço. Tentando demonstrar intenções pacíficas, são desintegrados pelo raio de energia marciano, que por um efeito eletromagnético deixa toda a cidade às escuras. O Xerife, atendendo aos conselhos de Forrester, convoca o exército. As tropas cercam três máquinas marcianas, que estavam no meteoro e agora começavam a levitar. Na cena mais simbólica do filme, o Pastor Collins avança em direção aos marcianos com a Bíblia nas mãos, disposto a dialogar com os misteriosos mas inteligentes seres. Collins é impiedosamente desintegrado por raios de energia, ao mesmo tempo em que as baterias do exército abrem fogo.

ww-2
O Pastor prepara-se para encontrar o Criador

As armas terrestres, contudo, não fazem qualquer mal às naves invasoras, que são protegidas por escudos magnéticos. Já os raios de energia marcianos espalham morte e destruição, desintegrando armamentos e homens. Forrester e a sobrinha do Pastor, Sylvia (Ann Robinson), fogem em um pequeno monoplano, enquanto caças da força aérea entram na batalha. Voando baixo para não se chocar com os caças, o monoplano faz um pouso forçado próximo a uma fazenda abandonada, onde os dois se abrigam. O sossego dura pouco, até o momento em que mais um meteoro cai e se choca na casa. Do meteoro sai mais outra sonda em forma de serpente, procurando sinais de vida. O casal tenta se esconder mas é descoberto. Forrester, com um machado, arranca a cabeça da sonda, que na verdade é uma espécie de câmara de TV. Enquanto ele, fascinado, analisa o equipamento alienígena, uma mão de três dedos finos toca o ombro de Sylvia, que vira-se para ficar face a face com o marciano, um ser atarracado e com uma enorme cabeça semelhante à da sonda. Ao grito da moça, Forrester lança sua lanterna no rosto de três olhos da criatura, que emite um grito agudo e foge. Com a sonda e a lanterna suja de sangue marciano, os dois fogem da fazenda. Em seu laboratório de Los Angeles, Forrester e colegas analisam a sonda e o sangue marcianos, e descobrem que os habitantes do planeta vermelho são criaturas fisicamente frágeis. Enquanto isso, em várias partes do mundo estão ocorrendo outras batalhas com os invasores, e vemos centenas de máquinas flutuantes destruindo conhecidos monumentos e lugares da Terra.

ww-3
E.T. phone home!

Quando as naves de guerra se aproximam de Los Angeles, o Governo americano, como última esperança, resolve usar a bomba atômica. O artefato, lançado por uma “Asa Voadora”, é inútil. As arraias marcianas emergem da nuvem atômica sem um arranhão. A essa altura o caos tomou conta de Los Angeles, e milhares de pessoas tentam fugir da cidade. Em meio à multidão em fuga, Forrester perde de vista Sylvia e seus colegas, enquanto máquinas de guerra alienígenas entram na cidade, destruindo tudo que encontram no seu caminho (a imagem de Gene Barry correndo pelas ruas desertas, ao som da destruição que se aproxima, é memorável). Após procurar em várias igrejas, Forrester acha Sylvia em uma delas, juntamente com várias outras pessoas. Com a aproximação de uma nave marciana da igreja, o ruído da destruição torna-se ensurdecedor, sobrepondo-se às orações do padre. Subitamente, o barulho dos raios de energia cessa, e um som de queda é ouvido por todos. Forrester e Sylvia saem da igreja, e constatam que a máquina invasora caíra. Subitamente, nela abre-se uma escotilha e de lá sai a conhecida mão de três dedos, como que arrastando-se para fora, até imobilizar-se. O marciano, que não possuía imunidade contra as bactérias da Terra, estava morto. Em seguida, vemos cenas das máquinas de guerra imóveis por todo o mundo, enquanto a voz de Cedric Hardwicke nos informa que, enquanto nossas mais avançadas armas falharam contra os invasores, a humanidade foi salva pela “menor de todas as criaturas que Deus, em sua sabedoria, colocou na Terra”.

ww.4
Os marcianos destroem Los Angeles

A PRODUÇÃO – Guerra dos Mundos é fruto da criação do produtor e mestre de efeitos especiais George Pal, que realizou filmes memoráveis como Da Terra à Lua (1950), Colisão Entre Planetas (1951) e outra célebre adaptação de H. G. Wells, A Máquina do Tempo (1960). Fã da science fiction, Pal ficou maravilhado ao saber que seu estúdio, a Paramount, possuía os direitos para adaptar Guerra dos Mundos desde 1925, que seria filmada por Cecil B. De Mille. Como até então o projeto não progredira, Pal obteve o sinal verde de De Mille e iniciou a produção por volta de 1950. O roteirista Barre Lyndon, adotando o mesmo tratamento dado à obra por Orson Welles (Cidadão Kane) na famosa adaptação radiofônica de 1938, situou a história na época atual, mudando o cenário da ação da Inglaterra para os Estados Unidos. A equipe de George Pal era composta, entre outros, por Byron Haskin (diretor), George Barnes (fotografia), Leith Stevens (compositor), Everett Douglas (Editor) Gordon Jennings, Paul K. Lerpae, Wallace Kelly, Ivyl Burks, Walter Hoffmann e Chesley Bonestell (efeitos especiais). Nos papéis principais, Gene Barry (Dr. Clayton Forrester), Ann Robinson (Sylvia Van Buren), Les Tremayne (General Mann) e Lewis Martin (Pastor Mathews Collins).

Ann Robinson e Gene Barry
Ann Robinson e Gene Barry

OS EFEITOS ESPECIAIS – Um marco no avanço dos efeitos especiais, Guerra dos Mundos, juntamente com King Kong, foi a inspiração para nove entre dez técnicos que posteriormente passaram a trabalhar no ramo. Apesar de o especialista em efeitos especiais Gordon Jennings inicialmente tentar criar as máquinas marcianas em sua forma trípode, como no livro, George Pal achou que o efeito obtido seria muito caro e dificilmente pareceria realista na tela. Decidiu então que os marcianos tripulariam veículos flutuantes em forma de arraia, que seriam manipulados e suspensos pelos técnicos por fios invisíveis (nem sempre tão invisíveis, se observarmos atentamente certas cenas). Em termos de construção, os modelos das máquinas marcianas eram pequenas maravilhas eletrônicas. A “cabeça de cobra” que lançava os raios de energia era controlada por controle remoto. Os comandos eram enviados pelos mesmos fios que davam sustentação às miniaturas, que estavam presos a uma plataforma móvel que movimentava-se pelo cenário, a fim de criar o movimento suave das naves. De modo geral, a performance das naves esverdeadas, que ocupa grande parte do filme, ficou muito boa. Seus raios de energia foram obtidos com o uso de tochas de acetileno aplicadas em metal, posteriormente adicionados às cabeças por efeitos óticos. As cenas de destruição em massa à época não tinham paralelo, e foram obtidas através da combinação de efeitos óticos, pinturas de fundo e miniaturas. Uma detalhada miniatura de Los Angeles foi construída apenas para ser explodida por dinamite. Quanto aos efeitos sonoros criados para o filme, talvez o mais marcante seja o ruído das máquinas de guerra marcianas. O som penetrante, agudo, foi obtido gravando-se o som de notas específicas emitidas por três guitarras elétricas, e então reproduzindo-se a gravação de trás para a frente. Os sons de explosões, raios de energia, edifícios ruindo, meteoritos em queda e até mesmo o grito do marciano foram criados graças à perícia dos técnicos de som Harry Lindgren e Gene Garvin. Muitos desses sons foram reutilizados na década seguinte na série Jornada nas Estrelas. Pal tencionava filmar o último terço do filme, da explosão atômica à sua conclusão, em 3D, mas a Paramount não permitiu, por considerá-la uma técnica ainda precária. O filme custou razoáveis de U$ 2 milhões, destes indo U$ 1,3 milhão para os efeitos especiais, e foi um grande sucesso de bilheteria.

OS PRÊMIOS – O filme foi indicado para os Oscars de Melhor Som e Melhor Edição, tendo Gordon Jennings, que morreu logo após a conclusão das filmagens, recebido o prêmio póstumo por Efeitos Especiais.

Hello sweetie!

O LEGADO – Talvez a melhor ideia deixada pelo filme seja a milagrosa vitória do homem contra a tecnologia monstruosa, representada pelas máquinas marcianas. Nesse aspecto, há um sentimento religioso que permeia o filme, ausente do livro e da radiofonização. As imagens do Pastor caminhando em direção aos invasores com a Bíblia erguida, as pessoas buscando as igrejas como último refúgio e a narração final deixam claro que, na falta de uma tecnologia à altura, a humanidade teve Deus a seu lado. Não há dúvida que a Guerra Fria teve muito a ver com a introdução desse conceito, se considerarmos que na época a religião era tida como uma arma não contra alienígenas, mas sim contra os soviéticos, que a desprezavam. Apesar de não ter o caráter revolucionário do livro original, e nem ter provocado o pânico da adaptação radiofônica de Orson Welles, o filme é uma vívida e aterrorizante adaptação da obra de Wells, transportando a ação do século XIX para a era atômica. É o produto de uma época em que os extraterrestres, antes de terem sido “suavizados” por Steven Spielberg, eram vistos apenas como monstros sanguinários, que tinham por único objetivo matar e conquistar. Ainda hoje, este holocausto marciano dos anos 1950 impressiona, misturando suspense, romance e religiosidade, com efeitos revolucionários realçados pela competente música de Leith Stevens, e merece com justiça ser considerado um clássico sci-fi, superior inclusive à refilmagem que Spielberg (que baseou o visual do seu E.T. nos marcianos de Pal) lançou em 2005.

Jorge Saldanha

14 comentários em “O Legado de GUERRA DOS MUNDOS (1953)

  1. Pingback: Morre Gene Barry « Sci Fi do Brasil

  2. Pingback: Morre Gene Barry « Sci Fi do Brasil

  3. Pingback: Resenha: Sinais (Blu-ray) « Sci Fi do Brasil

  4. Pingback: Resenha: Independence Day (Blu-ray) « Sci Fi do Brasil

  5. Pingback: Resenha: Guerra dos Mundos (Blu-ray) « Sci Fi do Brasil

  6. Pingback: Resenha de DVD: CLÁSSICOS SCI-FI VOL. 2 | SCI FI do Brasil – O Portal da Ficção Científica em Português

  7. Pingback: Sci Files: Marte – SCI FI do Brasil – O Portal da Ficção Científica em Português

  8. Pingback: Resenha de Blu-ray: INDEPENDENCE DAY – 20th ANNIVERSARY EDITION (US) | ScoreTrack.net

  9. Pingback: Resenha de Blu-ray: INDEPENDENCE DAY – 20th ANNIVERSARY EDITION (US) – SCI FI do Brasil – O Portal da Ficção Científica em Português

  10. Pingback: Vem aí GUERRA DOS MUNDOS – A SÉRIE – SCI FI do Brasil – O Portal da Ficção Científica em Português

  11. Para os apaixonados pelos filmes de ficção científica e pelos estudiosos e buscadores de verdades, encontramos ligados a Ufologia moderna, e sempre atentos as novidades, este belo filme, considerado por mim como um marco imbatível do que é possível fazer história cinematográfica com talento e destaque. Guerra dos Mundos, ano de 1952, reconhecido como um dos maiores filmes de ficção científica de todos os tempos. Poucos sabem, que antes do último lançamento com Tom Cruise, houve um outro Guerra dos Mundos – Radioatividade Olho por olho, e como diz na sinopse, depois de 35 anos eles voltaram, estavam de volta. Olho por olho, é o presente que comemorou os 50 anos desta primeira apresentação nas telas dos cinemas mundiais, sempre com destaque de público e das mídias. Este segundo filme, ano de 1988, estrelado pelos artistas, Jared Martin e Linda Mason e outros. Graças a Deus tenho os três, e não poderia faltar em meu Arquivo …

    Curtir

  12. Pingback: Sci Files: De Frankenstein a Black Mirror – 200 anos de Terror – SCI FI do Brasil – O Portal da Ficção Científica em Português

  13. Pingback: Na Trilha: A Música da Série VIAGEM AO FUNDO DO MAR – ScoreTrack.net

  14. Pingback: Sci Files: A Música da Série VIAGEM AO FUNDO DO MAR | SCI FI do Brasil - O Portal da Ficção Científica em Português

Comente o conteúdo da postagem

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: