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Resenha: Game of Thrones – 1ª Temporada


[SPOILERS] “Os livros são melhores que o/a filme/série!”. Mas é claro que os livros são sempre (ou na sua grande maioria) melhores que as suas adaptações ao cinema ou televisão. Os livros vivem da descrição de ambientes e de sentimentos, enquanto que na tela os ambientes assumem um papel mais secundário e precisam de um bom trabalho de câmara (um bom realizador pode criar excelente envolvência mas dificilmente consegue chegar ao grau de intimidade que a leitura proporciona), e os sentimentos precisam de um bom trabalho de representação por parte dos elencos (e nem todos os actores conseguem transmitir os sentimentos dos personagens tão bem como nós os absorvemos ao ler um livro). Mas o debate “livros vs. filmes/séries” é antigo e é algo que vejo cada vez mais como tedioso e redundante, e, por isso mesmo, é uma abordagem que prefiro evitar, até porque eu sou uma das pessoas que optou (e prefere) não ler os livros em detrimento de ser surpreendido pela série.

Ao olhar para trás, identifico dois problemas muito distintos na primeira temporada de “Game of Thrones”: o facto de parecer que a história apresentada é um segundo bloco de algo maior, uma espécie de sequela, e o facto de toda a temporada não passar de uma espécie de prólogo. Ora, eu estou ciente da contradição implícita na afirmação que acabei de fazer, mas se tomarmos como exemplo uma outra saga que é um dos maiores fenómenos cinematográficos de todos os tempos, e de seu nome “Star Wars”, é fácil perceber onde quero chegar.

Independentemente da saga “Star Wars” ter nascido e se indo adaptando às circunstâncias (e não me quero alongar muito nisto, mas muito se fala que a determinada altura estavam planeados nove filmes, apesar do próprio George Lucas hoje desmentir que assim fosse), a verdade é que o primeiro filme, de 1977, é claramente parte duma história central de algo muito maior, de algo com vários blocos, o que se viria a confirmar de 1999 a 2005 com a saída de três filmes que compõem um bloco prequela aos três filmes lançados entre 1977 e 1983. Há uma introdução a um universo totalmente novo mas que, para todos os efeitos, nos é apresentado como algo que já estaria em movimento há muito tempo. Existe todo um background de informação que serve de forma bastante substancial como catalisador ao fluir da história na linha narrativa do filme. E esta primeira temporada de “Game of Thrones” deixa um sentimento semelhante. Houve todo um passado vivido nos Sete Reinos que no presente influencia, e muito, a vida dos personagens que nos vão sendo apresentados. A grande diferença é que enquanto o universo “Star Wars”, na minha perspectiva bem mais complexo que o de “Game of Thrones”, se foca em quatro ou cinco personagens para nos expor ao mesmo, conseguindo-nos contextualizar sem nos confundir, a série da HBO fá-lo recorrendo a um número bem mais elevado de personagens, assim dispersando em demasia o grau de exposição, o que leva a uma maior dificuldade de se entrar na história (não é por acaso que ao fim de meia hora de filme já estamos bem familiarizados com os personagens e o universo, enquanto na série são precisos quatro ou cinco episódios, logo quatro ou cinco horas, para conseguir tais resultados).

Além disso, toda essa introdução ao universo de “Game of Thrones” mete em cheque uma das regras básicas e fundamentais da escrita de argumentos, que é o “Show, don’t tell” e que diz que quem escreve um argumento deve fazê-lo contando a história através das acções dos personagens, da expressão dos seus sentimentos, das suas sensibilidades, dos seus valores e das suas palavras, evitando o uso da narração, da descrição ou da sumarização. E se bem que em “Game of Thrones” todo aquele background necessário à narrativa do presente é apresentada em forma de diálogos, a verdade é que esses diálogos na sua maioria mais parecem apenas sumarizações ou mesmo narrações de acontecimentos passados. Basicamente é uma forma de dissimular a “infracção”… o que até nem teria muita importância, pois as regras às vezes são para quebrar, se não fosse o efeito que tal decisão teve, ou seja, tornou várias cenas deveras massudas e resultou em que uma quantidade de factos, que certamente serão importantes para a história no futuro, tivessem sido praticamente desperdiçados, pois poucos serão aqueles que conseguiram reter alguma informação através deles (ponham o dedo no ar todos aqueles que se lembram do que raio disse o Tyrion ao Theon no episódio “Cripples, Bastards, and Broken Things”!).

E depois temos toda aquela questão da temporada deixar um sentimento a prólogo (ou, pelo menos, a uma etapa inicial de um bloco narrativo bem maior). Enquanto na saga “Star Wars”, o primeiro filme, apesar de nos introduzir a um universo que já tem todo um background, consegue ser uma etapa da história fechada, em “Game of Thrones” isso não acontece. Se bem que aqui a comparação é bastante injusta, uma vez que o filme foi escrito e realizado sem que os seus criadores tivessem qualquer noção do fenómeno de popularidade em que o mesmo se iria tornar (e no “O Império Contra-Ataca”, sabendo-se então que vai haver um “O Regresso do Jedi”, já termina em aberto) e a série já teria em vista a continuação, até porque neste caso a história até já está quase (ou grande parte) toda escrita. Porém, isso não invalida o sentimento de que em dez episódios muito do decorrido foi passado de duas formas: inicialmente, a introduzir o universo; e, posteriormente, a estabelecer a história para o próximo acto, fechando-se apenas três ciclos, o do reinado do Robert Baratheon, o do Khal Drogo como líder dos Dothraki e o da perda da pedra basilar da família Stark.

Mas deixando “Star Wars” para trás, a verdade é que “Game of Thrones”, não sendo uma série imune a problemas (e vários que eles são), consegue, no seu todo, dar-nos uma porção de boas horas de televisão. Esqueçamos o facto que os Dothraki passaram a temporada toda a andar de cavalo dum lado para o outro e centremo-nos na evolução e no estabelecimento de Daenerys (muito bem interpretada pela Emilia Clarke) como um dos pilares desta história. Esqueçamos o pouco (zero) impacto que teve a descoberta que o Joffrey (Jack Gleeson) não era filho legítimo do Rei Robert Baratheon (Mark Addy) – e os prescindíveis momentos de investigação do caso por parte de Eddard Stark – graças à revelação da relação incestuosa mantida entre a Rainha Cercei (Lena Headey) e o seu irmão gémeo logo no primeiro episódio e foquemo-nos nas consequências devastadoras que tudo isso trouxe para com aquele que à partida parecia ser o protagonista da história. Esqueçamos que o Jon Snow (Kit Harington) e a sua incursão na Night’s Watch pouco impacto teve na globalidade da história ao longo destes dez primeiros episódios para ficar na expectativa que ele realmente possa ser alguém de muito mais importância no futuro. Esqueçamos que o Robb Stark (Richard Madden) passou grande parte da temporada sem ter grande relevância (ou interesse) e foquemo-nos na sua ascensão como personagem nos episódios finais, algo que certamente o catapultará para um patamar de maior importância para o que resta da história. Esqueçamos a futilidade da Sansa Stark (Sophie Turner) durante grande parte da temporada e centremo-nos no momento em que ela nos conquista (quando sentimos a sua vontade em vingar o pai, mandando o Rei Joffrey num mergulho que certamente lhe seria mortal). Esqueçamos a decisão de tirar da história alguns dos personagens mais fortes (Eddard Stark, Khal Drogo) e rezemos para que tais feitos não tenham sido apenas para causar choque e que os personagens que ficaram no seu lugar consigam estar à altura. Esqueçamos que temos tanta coisa que devemos esquecer e a visão que teremos da temporada será certamente melhor. Não é sempre assim que funciona?

ZB
Via [TVDependente]

9 comentários em “Resenha: Game of Thrones – 1ª Temporada

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