Resenha: 2012


2012Um dos segredos para se gostar de 2012 (2009), de Roland Emmerich, é encará-lo como um filme B despretensioso. Mesmo sendo uma superprodução, 2012 tem o sabor daqueles deliciosos filmes vagabundos que passavam no SBT nos anos 1980. Vendo dessa forma, até dá pra relevar o final ridículo, os efeitos especiais nem sempre eficientes e que às vezes parecem bem desleixados para tanto dinheiro envolvido, os diálogos ruins e a extrema superficialidade dos personagens. Mas não dá para esperar algo diferente de Emmerich. Principalmente levando em consideração que o seu último filme é o horrível 10.000 A.C. (2008) e que o seu melhor é O DIA DEPOIS DE AMANHÃ (2004).

Emmerich, desde antes de SOLDADO UNIVERSAL (1992) já flertava com a ficção científica, que alcançou o auge da popularidade nos anos 1950, com uma explosão de disaster movies e de filmes que visualizavam um futuro negro para a humanidade com um holocausto nuclear, talvez fruto de um sentimento de culpa coletivo americano depois de eles terem bombardeado duas cidades inteiras no Japão. Hoje, as preocupações se voltaram para a questão ambiental. Mas Emmerich nem chega a explorar tanto esse filão no novo filme. Isso ele já havia explorado antes em O DIA DEPOIS DE AMANHÃ.

Desta vez, ele se aproveita de profecias maias que preveem o fim do mundo – ou o fim do mundo como o conhecemos – para dezembro de 2012. O que importa aqui não é nem se o mundo vai ou não acabar em 2012, ainda que muita gente esteja realmente preocupada com isso; o que importa é que as pessoas gostam de ver o mundo se acabando no cinema. O que tem se mostrado em números e na prática. Não lembro de nenhum outro filme este ano que tenha atraído tantas pessoas ao cinema. Que tenha gerado filas tão grandes. O que, de certa forma, é animador para a sobrevivência do cinema em tempos de downloads de filmes e DVDs piratas nos camelôs. Mesmo aqueles que não têm o hábito de ir ao cinema estão se sentindo motivados a saírem de suas casas para ver o fim do mundo sob a ótica do puro entretenimento.

E no que se refere a entreter, Emmerich se sai muito bem. Afinal, o seu filme tem duas horas e quarenta minutos de duração que passam voando. E um elenco de rostos conhecidos. O personagem mais interessante é, de longe, o de Woody Harrelson, que faz um radialista meio louco, ligado em teorias conspiratórias e que já havia descoberto o que apenas os governantes dos países mais ricos ou empresários milionários sabiam. Pode-se dizer que ele é uma espécie de alter-ego de Emmerich na sequência em que ele vê o mundo ao seu redor desabando e ele achando tudo aquilo lindo. O personagem principal, no entanto, é John Cusack, no papel de um chofer de limusine que escreveu um livro de ficção científica que praticamente ninguém leu e que é divorciado de Amanda Peet. Ele é a pessoa comum de mais fácil identificação com o público. Não é nenhum dos ricos que compraram uma vaga na nave que vai abrigar os poucos afortunados a sobreviver, nem nenhum dos cientistas ou políticos mais envolvidos com o fim iminente. E a cena em que ele foge no carro com a família enquanto as ruas vão se despedaçando é uma espécie de versão exagerada e tosca da cena de Tom Cruise e família em GUERRA DOS MUNDOS, de Steven Spielberg.

E não resta dúvida que nas mãos de um Spielberg ou de um James Cameron o filme teria resultado muito diferente. Teríamos nos preocupado com os personagens, teríamos nos emocionado com as cenas dramáticas. Do jeito que ficou, todas as cenas em que Emmerich tentou emocionar a plateia resultaram em fracasso. As cenas de despedida do presidente Danny Glover com a família ou com o povo americano, por exemplo, chegam a ser ridículas em suas tentativas vãs de emocionar.

E se 2012 não tem uma cena tão antológica quanto a dos americanos procurando abrigo no México em O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, as cenas das arcas da salvação são uma boa mostra da inventividade de Emmerich. Ainda assim, apesar de toda a expectativa e de toda a propaganda em torno, o melhor filme sobre o fim do mundo exibido no ano continua sendo o surpreendente PRESSÁGIO, de Alex Proyas.

Ailton Monteiro
Resenha publicada originalmente no ScoreTrack.net

Anúncios

11 Comments

  1. otimo post…..e vai da maluko se matando no final de 2011 para 2012 em todo o mundo……so posso pensar uma coisa….menos concorencia pra min em qualquer coisa…..HAHAHAHAH…….

    Curtir

  2. Bem reza a lenda que Emerich costuma fazer os roteiros de seus filmes num final de semana. Bem, com este prazo não se pode esperar nada mais profundo do que um pires. Mas é disto que o povo gosta, filmes descelebrados, com muito corre-corre e explosões, e bordões imbecis (como por exemplo: Querida cheguei! – piloto de avião meia-boca ao entrar na nave em seu previsivel ponto fraco, no filme Independence Days – que Deus queira que não , pode ter uma continuação).

    Curtir

  3. MOSTRAR CATASTROFE E DESTRUIÇÃO NÃO REQUER MUITA NECESSIDADE DE USO DO CÉREBRO, É SO VER A COISA DESMORONAR E REZAR PARA NÃO VIRAR REALIDADE…

    Curtir

  4. Sabendo o que esperar eu fui ao cinema e deliguei o meu cérebro, por isso eu gostei e consegui aproveitar bastante as cenas do mundo sendo destruído, de vulcões gigantescos surgindo, de tsunames tão grandes que quase cobriram o everest!!! E nem me importei com as incríveis coinsidências, com os absurdos impossíveis que aconteciam o tempo todo, nem com a incrível sorte dos protagonistas!

    Eu fiquei satisfeito com o filme apesar de ter ido ao cinema só para ver o mundo ser destruído de maneiras inventivas e acabar vendo os EUA sendo destruído de maneiras legais e muito pouco do resto do mundo, esse foi o grande defeito de um filme que deveria ser sobre destruição global, muito mais do que a falta de roteiro, porque ninguém vai ver um filme do Emerich esperando roteiro…..

    Curtir

    1. Qual a graça de ver cenas GIGANTESCAS de destruição global em LARGA ESCALA numa telinha de tv? Vá ver no cinema que tem uma tela gigante e no qual você vai poder aproveitar a visão do Mundo sendo destruído como ele deve ser visto! Se não nem veja o filme….

      Curtir

Comente o conteúdo da postagem

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s