O Planeta Proibido


Muitos imaginam os filmes de ficção científica dos anos 1950 como aquelas produções baratas, repletas de discos voadores pendurados por fios e mulheres gritando nas garras de alienígenas de borracha. Sem dúvida que houve muitas “jóias” deste tipo, porém este padrão “Ed Wood” teve honrosas exceções, e O Planeta Proibido (Forbidden Planet), lançado pela MGM em 1956, é uma das mais admiráveis. De fato, pode-se dizer que o filme é uma raridade, já que foi uma produção relativamente cara de um dos maiores estúdios de Hollywood (MGM), em uma década na qual os conceitos de qualidade e ficção científica muitas vezes se excluíam.

Apesar de sucessos inesperados, menos ambiciosos e mais lembrados como O Monstro do Ártico (The Thing, 1951), de Christian Nyby/Howard Hawks, ou Os Invasores de Corpos (Invasion of The Body Snatchers, 1956), de Don Siegel, O Planeta Proibido é uma das primeiras tentativas de combinar ficção científica séria, um grande orçamento e os melhores efeitos especiais disponíveis. O roteiro foi escrito por Cyril Hume, baseado em uma história entitulada “Planeta Fatal”, escrita por Irving Block e Allen Adler, por sua vez inspirada em um texto clássico da literatura inglesa, A Tempestade. Assim, em um dos melhores filmes de FC dos anos 1950 (na verdade, de todos os tempos), a mágica ilha de Shakespeare tornou-se o planeta Altair-4, o mago Próspero tornou-se o cientista Morbius; a filha de Próspero, Miranda, cujo único homem que conhecia era o seu pai, agora chama-se Altaira; e Caliban transformou-se em um extravagante monstro freudiano – composto de puro “id”. Só faltou ao diretor Fred Wilcox a coragem de reproduzir alguns dos diálogos escritos por Shakespeare.

Porém, não fosse o interesse do produtor Nicholas Nayfack, a produção resultaria em um outro filme “B”, tão precário como a maioria dos seus contemporâneos. Nayfack conseguiu fazer com que a MGM realmente se interessasse em investir no roteiro, e o envolvimento dos melhores técnicos do estúdio (com a adição de alguns tomados emprestados à Disney) garantiu um nível de qualidade de efeitos especiais que, se hoje obviamente estão ultrapassados, até então sem precedentes. Com a perícia dos magos A. Arnold Gillespie, Warren Newcombe, Irving G. Reis e Joshua Meador, e dos cenários literalmente de outro mundo criados por Edwin B. Willis e Hugh Hunt, as maravilhas e mistérios do mundo Krell são reveladas em deslumbrante Eastman Color e tela larga: o céu verde, no qual brilham duas luas, pés de um monstro invisível que deixam claras pegadas na areia, um “educador plástico” que materializa os pensamentos do homem, máquinas auto reparadoras espalhando-se por incontáveis andares subterrâneos, etc.

Como se isso não bastasse, o departamento de efeitos especiais da MGM criou um dos mais célebres personagens cibernéticos da história do cinema: Robby, o Robô. Os modos educados de Robby, às vezes desajeitado ou engraçado, inspirou legiões de seguidores, do Robô da série de TV Perdidos no Espaço (com o qual contracenou no episódio “A Guerra dos Robôs”) ao polido C3PO de Star Wars. Rimando com os “clics” e zumbidos de Robby, ecoa a música composta por Louis e Bebe Barron. Apesar de instrumentos eletrônicos terem sido usados anteriormente, O Planeta Proibido foi o primeiro filme a ter uma trilha incidental completamente eletrônica (disponível em CD da gravadora Intrada). A música combina perfeitamente com as imagens alienígenas, e é um daqueles raros casos em que a trilha é parte indissociável do filme e dos efeitos sonoros, ao invés de limitar-se a acentuar seus momentos dramáticos.

Estes, por sua vez, centralizam-se no Dr. Morbius (Walter Pidgeon, o Almirante Nelson do filme Viagem ao Fundo do Mar) e sua filha Altaira (Anne Francis, novíssima), últimos sobreviventes de uma missão colonizadora enviada ao árido planeta Altair-4. Quando chega uma nave de salvamento, liderada pelo Comandante Adams (um jovem e sério Leslie Nielsen) e tripulada por rostos que mais tarde se tornariam conhecidos no cinema e na TV (Warren Stevens, Richard Anderson, Earl Holliman, James Drury), Morbius fica muito preocupado e avisa que as vidas da tripulação estão em perigo. Diz que ele e sua filha preferem permanecer no planeta e manda Robby, seu ajudante e um mestre em 187 línguas, ajudá-los a apressar sua partida. Antes, porém, seu aviso prova ser profético, quando um dos tripulantes é morto violentamente. Sim, O Planeta Proibido inspira-se em A Tempestade, porém com toques de Frankenstein e um bom conto de mistério.

O núcleo do filme contém um enigma: os Krell, antigos habitantes de Altair-4. Morbius os descreve como uma raça nobre e poderosa, porém se eles eram tão poderosos, porque desapareceram? Conforme os avanços tecnológicos dessa civilização vão nos sendo revelados, o mistério se aprofunda, até ficarmos sabendo que os demais colonizadores, e possivelmente os Krell, foram destruídos por uma poderosa e inexplicável força planetária à qual somente Morbius e sua filha de minissaia são imunes. Então, trava-se uma batalha de vida e morte entre os recém chegados, Morbius e a misteriosa força invisível, que mais tarde descobrimos ser o “id” animalesco do cientista, materializado pelas ainda operantes máquinas Krell. Em um dos ataques da criatura, ela torna-se visível em um campo de força que rodeia a espaçonave, e constatamos que Caliban se parece com um buldogue de desenho animado! Seus uivos e sons eletrônicos, contudo, fazem dele uma visão arrepiante. O filme explora o tema do incesto de uma forma sutil e fascinante: Altaira começa a corresponder às atenções dos tripulantes, ao mesmo tempo em que o monstro do “id” cresce em tamanho e fúria. Quando ela decide retornar para a Terra ao lado do Comandante Adams, Caliban ataca com toda a sua fúria, e um horrorizado Morbius é forçado a encarar seus sentimentos proibidos em relação à filha, instintos primitivos tornados vivos e sobre os quais não mais possui qualquer controle.

Walter Pidgeon está excelente como Morbius, transmitindo a imagem de um devotado pai e cientista, porém suficientemente ameaçador para invocar a imagem do mal. Leslie Nielsen e Warren Stevens estão bem, apesar de menos interessantes como os líderes da missão de resgate. Elenco à parte, é por sua forma e conteúdo que O Planeta Proibido fez escola. Por exemplo, os fãs de Jornada nas Estrelas e Perdidos no Espaço reconhecerão no filme vários elementos familiares: espaçonaves em forma de disco, o Homem integrando uma Federação Unida, explorando a galáxia, traços de uma antiga civilização dotada de poderes sobre-humanos, um robô amigável servindo como elemento de humor na ação, momentos casuais de camaradagem entre o ocupado comandante da nave e seus subordinados mais relaxados. E finalmente, o tema da materialização incontrolável de instintos e sentimentos ocultos, que seria posteriormente retomado em inúmeros filmes, dos quais os inferiores Enigma do Horizonte e Esfera são os exemplos mais recentes.

Relacionar estes elementos apenas aumenta a importância desta obra, já que, em sua maioria, foram nela que apareceram pela primeira vez. Se hoje o filme é um clássico indiscutível, há mais de 50 anos anos ele foi uma aventura arriscada para seus realizadores. Em 1956 praticamente não havia precedente para uma cara ficção especulativa. Felizmente, desde o seu lançamento ele foi lucrativo para a MGM. E o mais importante, O Planeta Proibido, com seus 98 minutos de duração, ainda é considerado um dos filmes mais inteligentes e ambiciosos da FC. Continua a fascinar e influenciar até hoje, depois de ter provado que a ficção científica era um gênero no qual valia a pena investir. Sem Planeta não haveriam Jornada nas Estrelas2.001, Star Wars ou Contatos Imediatos do Terceiro Grau, criações que por sua vez inspiraram muitas outras obras. É um clássico que mudou os rumos do gênero, estando à altura de seus melhores sucessores. Infelizmente, este “cult” nunca foi lançado em vídeo no Brasil, e há muitos anos não é exibido na TV aberta. Mas ele faz parte da programação do canal a cabo TCM, especializado em filmes e séries clássicas.

No final de 2008 o roteirista  J. Michael Straczynski, criador da série Babylon 5 anunciou que estava escrevendo o roteiro de uma nova versão do clássico, que segundo ele não será “nem um remake retrô puro e simples nem uma continuação”. No entanto, de lá para cá, não se soube mais nada do projeto.

Trailer:

Vídeo-resenha em português do DVD americano:

Jorge Saldanha

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23 comentários sobre “O Planeta Proibido

  1. Muito bacana a resenha, e pelo visto foi um grande Pai para todas as obras de FC que vieram depois desta.

    Mais uma vez é uma satisfação ler suas resenhas caro amigo.

  2. CARACA , E EU PERDENDO UM FILME DESTES ….ONDE É POSSIVEL CONSEGUIR EM DVD ALMIRANTE ? BLU-RAY ESTÁ FORA , PORQUE SOU POBRE. KKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  3. Muito 10, e realmente eu gostei do que vi, tem bastante profissionalismo a obra, e ase não me dissesem Leslye passaria batido por mim.

  4. E tem com legenda em português alguma dessas edições? Para mim é fundamental por causa dos filhos e amigos…

  5. Pingback: Jornada nas Estrelas: A Revolução dos Anos 60 « Sci Fi do Brasil

  6. Pingback: Novos Projetos de J. Michael Straczynski « Sci Fi do Brasil

  7. A tempos venho me perguntando se esse classico esquecido fosse um dia refilmado, já que tantos já o foram. Minha única dúvida é, será que não vão distorcer a história como nos outros?

  8. Esse clássico eu ví uma vez só, no entanto nunca esqueci. Eu tinha uns 8 ou 9 anos, e rudo parecia muito possível num futuro adiante, tudo muito plasível.

  9. E mais uma , sabendo que quem vai refilmar este filme,a do babilon, fico com reservas.

  10. Pingback: Leslie Nielsen (1926-2010), Irvin Kershner (1923-2010) | Sci Fi do Brasil

  11. Pingback: Notícias Curtas (03/01/2011): Pete Postlethwaite, Anne Francis, 2012, Elysium | Sci Fi do Brasil

  12. Lembro muito desse filme, na Sessão da Tarde, mas não lembrava do nome. Realmente, um grande clássico. O mais interessante é que o resultado é muito melhor do que muitos filmes sci fi feitos recentemente, como o horroroso “Idependence Day” ou o vergonhoso remake de “O Dia Em Que A Terra Parou”.

  13. Pingback: Criador de Babylon 5 vende roteiro à Dreamworks | Sci Fi do Brasil

  14. Um dos melhores roteiros sci fi ja realizados, aborda temas como o perigo em dotar a consciência humana da capacidade de intervir no mundo material, o conflito da consciência cibernética, o egocentrismo, entre outros… Sem dúvida uma obra prima do cinema de ficção.

  15. Assisti ao filme ontem… e ainda estou com ele na cabeça. E acho que nunca vou esquecer. Fantástico! Enredo inteligente, efeitos legais (para 1956, é claro!), um robô de design show e as pernas de Anne Francis! E Leslie Nielsen sem querer fazer rir!
    Sem dúvida um dos grandes clássicos da ficção científica, imperdível para que gosta do gênero!

  16. Pingback: Warren Stevens (1919-2012) | SCI FI do Brasil

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