Jonathan Harris: “Nada tema… com Smith não há problema”


Jonathan Harris como o Dr. Smith, 1965

Jonathan Harris como o Dr. Smith, 1965

Se você está lendo esta matéria, então é um pouco como eu. Há filmes, músicas, atores e atrizes que são inesquecíveis, e lhe trarão agradáveis memórias até o final da sua vida. Mas eu também cresci assistindo televisão nos anos 1960, então certas séries de TV, bem como seus personagens, possuem um significado especial para mim. Das séries de ficção científica do período, tenho um carinho especial por Perdidos no Espaço e seu personagem icônico: o maquiavélico, covarde e hilário Dr. Smith, imortalizado pelo falecido ator Jonathan Harris. Este artigo é um modesto tributo a Harris, um dos expoentes da era de outo da TV.

O VERDADEIRO DR. SMITH
Filho de imigrantes russos, Jonathan Harris nasceu na cidade de Nova York em 1914. Sua família era pobre, e na adolescência arranjou emprego em uma farmácia, decidido a tornar-se farmacêutico. Mas logo em seguida ele passou a se interessar pelo teatro, sabendo que haveriam muitos obstáculos a superar para seguir a carreira de ator. Com muita apreensão, o jovem Harris juntou-se à companhia teatral Millpond, em Long Island. Sua estréia na Broadway foi em 1942, e durante a Segunda Guerra Mundial ele viajou pelo Pacífico Sul, atuando em peças exibidas para as tropas. Ao voltar para Nova York iniciou uma bem sucedida carreira na televisão, à época ainda feita ao vivo. Seu primeiro grande sucesso veio na série The Third Man (1957-1960), estrelada por Michael Rennie (o Klaatu de O Dia em Que a Terra Parou, 1951). Harris interpretava o assistente de Rennie, o mal-humorado e detalhista doutor Bradford Webster.

Harris e o fã brasileiro Elias de Lucena, em 2001

Harris e o fã brasileiro Elias de Lucena, em 2001

Várias participações especiais se seguiram, como a de um ladrão de banco em The Outlaws e no papel de Charles Dickens em Bonanza. Ele também foi o exasperado Mr. Phillips em The Bill Dana Show (1963-1965). Perdidos no Espaço, contudo, proporcionou-lhe seu personagem favorito. Ele assumiu um vilão tradicional e o transformou em um sujeito ganancioso, egoísta, afetado, covarde e divertido. Harris passava noites em claro criando os sarcásticos insultos ao robô (“Sua lata de sardinha enferrujada!”). Harris recebeu a merecida consagração por seu papel, e Cleveland Amory, critico da TV Guide, considerou Harris como “o melhor ator coadjuvante de 1966.” Contudo, após o inesperado cancelamento da série, ele teve de enfrentar o estigma de ser para sempre marcado como o Dr. Smith. Algumas boas aparições como ator convidado se seguiram, no western Lancer, em Terra de Gigantes (a série de Irwin Allen que sucedeu Perdidos no Espaço, onde em um episódio Harris foi um alienígena arrogante) e Galeria do Terror. Porém, muitos outros papéis seguiram a linha “Dr Smith”. Outras participações na TV, durante os anos 70, incluíram A Feiticeira, Nós e o Fantasma, Sanford and Son e Agente 86.

Ele também dublou muitos personagens de desenhos animados e foi o comandante de 300 anos de idade Gampu na série infantil Academia Espacial (1977-1978), bem como o maligno cilônio Lúcifer de Galactica – Batalha nas Estrelas (1978). A partir de 1982 ele passou a dedicar-se somente às dublagens (comerciais e desenhos) e a aparições em convenções e especiais como The Fantasy Worlds of Irwin Allen (1995) e Lost in Space Forever (1998). Quando da realização da versão cinematográfica de Perdidos no Espaço (1998), Harris não aceitou uma participação especial como o chefe do Dr. Smith (no filme, interpretado por Gary Oldman). Simplesmente ele não admitiu participar de um filme que incluísse o personagem de sua vida, sem que ele mesmo o interpretasse. Deveras… No final de sua carreira, Harris foi dublador de desenhos animados, e seu último trabalho foi na animação da Disney-Pixar, Vida de Inseto. Com 87 anos de idade, Jonathan Harris faleceu no dia 03 de novembro de 2002 em um hospital de Los Angeles, tendo ao seu lado sua esposa Gertrude.

Jonathan Harris no Brasil texto

Harris e seu dublador brasileiro, o também falecido Borges de Barros

Harris e seu dublador brasileiro, o também falecido Borges de Barros

O DR. SMITH NO BRASIL
Jonathan Harris esteve algumas vezes no Brasil, mas a sua primeira e mais memorável visita ocorreu em março de 1969. O ator foi ao Programa da Hebe Camargo, à época transmitido pela extinta TV Tupi, e lá conheceu o seu dublador, Borges de Barros (o mendigo de A Praca é Nossa). Acima, reproduzimos parte da matéria que a revista INTERVALO publicou na época.

JONATHAN HARRIS, EM SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS
No final de 1996, alguns meses antes do início das filmagens do filme Perdidos no Espaço, eu, Denis Winston Brum e César Paulo Louis, que então escrevíamos para o fanzine de ficção-científica Zona Neutra, conseguimos fazer uma pequena entrevista com Jonathan Harris, pelo correio (não esqueçam que naquela época a internet ainda engatinhava!). Abaixo, segue a entrevista, publicada originalmente no número 09 do ZN:

Pergunta: Além de Perdidos no Espaço, quais são os pontos altos de sua carreira? O senhor fez outras produções de ficção-científica?
Jonathan Harris: Eu fiz 612 episódios para a TV, incluindo Academia Espacial e Galactica (eu era a voz de Lúcifer), e muitas peças na Broadway.

P: O senhor ainda comparece às convenções de ficção-científica?
JH: Sim.

Jonathan Harris, o Robô (Bob May) e Billy Mumy, em 1995

Jonathan Harris, o Robô (Bob May) e Billy Mumy, em 1995

P: E sobre o elenco de Perdidos no Espaço? O senhor costuma falar com o elenco principal e os astros convidados?
JH: Não, eu apenas encontro Billy Mumy ocasionalmente.

P: O senhor contracenou com o falecido Guy Williams (Prof. Robinson) na série Zorro, da Disney?
JH: Sim.

P: Existe um rumor sobre cenas de Perdidos no Espaço que jamais foram ao ar. O elenco realmente filmou algumas cenas para o quarto ano, antes do cancelamento da série?
JH: Não.

P: Nós temos algumas informações sobre o filme de Perdidos no Espaço. O senhor estará envolvido no projeto?
JH: O filme sobre Perdidos no Espaço será filmado em Londres, a partir de fevereiro de 1997, eu não estarei envolvido.

P: O senhor acredita num possível renascimento de Perdidos no Espaço como série?
JH: Parece difícil. Mas em Hollywood, nunca se sabe.

P: Como era o seu relacionamento com o falecido Irwin Allen?
JH: Ele era o meu patrão, eu era seu astro, e era assim que nós nos relacionávamos.

P: Como o senhor se sentiu em The Fantasy Worlds of Irwin Allen, novamente contracenando com June Lockhart, Billy Mumy e Bob May?
JH: Eu gostei de fazê-lo. Trouxe-me de volta algumas lembranças interessantes.

P: O que o senhor acha das séries de ficção-científica de hoje?
JH: Arquivo X é um bom programa, que eu assisto quando posso. Eu não vejo nenhuma das outras.

P: Senhor Harris, obrigado pela sua gentileza. Para nós o senhor não é apenas mais um ator, o senhor fez o Dr. Smith, o vilão que amamos odiar. Tudo de bom para o senhor.
JH: Eu adorei a revista de vocês. Quisera ser mais fluente em português. Meus melhores votos para vocês, e boa sorte Denis, César e Jorge.

Agradecimentos a Antonio Navarro, Elias de Lucena e Denis Winston Brum

Jorge Saldanha

About these ads

27 comentários sobre “Jonathan Harris: “Nada tema… com Smith não há problema”

  1. Obrigada!!!Tenho 46 anos de idade e meu irmão,45 anos;crescemos, assistindo “Perdidos no Espaço”. Comprei toda a série, quando lançada no Brasil, e sempre me emociono revendo e,lendo matérias como esta. Saúde e paz para todos!Obrigada pela oportunidade!

    • Não tem do que Gládis, e aproveito para retribuir seus votos. Harris foi, e sempre será, um dos meus maiores ídolos. Leia também a matéria sobre o episódio de Perdidos “O Clandestino Teimoso”. Em breve também teremos um artigo sobre Irwin Allen e suas criações. Abraço!

  2. adorei a materia ja que perdidos no espaço fez parte da minha melhor faze da vida (a infancia) e ate hoje com 51 anos ainda assisto pela manha as 7:00hs na tv rede brasil canal 59 . tambem como kung fu,ilha da fantasia e outros. gosto de ver fotos e biografia de atores antigos principalmente comparar fotos (ex. brigit bardot aos 22 e aos 70 ) mas muito me entristeço quando vejo que aquele ator que fez parte da minha casa ,da minha vida ,da minha familia ja partiu para outra vida (pelo menos e o que eu quero acreditar. fiquei muito triste quando a alguns anos soube da morte do professor robson. e assim que quero me lenbrar dele.assim como senti a morte de ronald golias. mas chorei a morte de carlos bronco dinossauro. obrigado era o que eu tinha a dizer

  3. Esta foi uma das séries que mais me diverti quando criança, hoje tenho 45 anos, e ainda uso, quando tenho plena certeza de que estou ferrado o lema do dr Smith…rs. Sempre adorei ele e o Robô, e mesmo hoje quando consigo parar para assistir, ainda dou belas risadas… O que é bom não fica velho nem enjoa.

  4. Só queria dizer que acho fascinante como os personagens de perdidos no espaço nas séries podem se sair tão bem, com reservas extraordinárias, como por exemplo a senhora Robinson fazer uma sobremesa cuja receita retirou do computador. Os diálogos parecem tão atuais, tão contemporâneos que nem dá pra acreditar que é uma série tão antiga. Me remete a idéia de que os americanos são muito mais avançados que os brasileiros mais de quatro décadas. De certo que a trama tem uma vantagem; isto é um avanço de uns trinta anos (1997), e é por isso também que a série daria uma ótima tese em faculdades, universidades. Daria ótimas palestras, seminários, etc. Tenho a grata impressão todas as vezes que assisto as séries, que as mesmas foram redubladas, dentro do modismo do dialeto atual.

  5. EXCELENTE MATERIA, TENHO 49 ANOS, PASSEI A INFANCIA E ADOLESCENCIA VENDO E REVENDO ESTA FANTASTICA SERIE PERDIDOS NO ESPAÇO, TENHO A COLEÇÃO COMPLETA, E NA MINHA OPINIÃO NADA SE COMPARA ( LOGICO COM RECURSOS E EFEITOS ESPECIAIS DA EPOCA) A ESTA SERIE, FOI E SERA ETERNAMENTE LEMBRADA ,UM VERDADEIRO CLASSICO. LEMBRANÇA DE UMA EPOCA DE OURO,ONDE NÃO EXISTIA APELAÇÃO DE SEXO E NEM SANGRIA.

  6. Meus queridos aficcionados por “Lost In Space”. Bem, foi esta a primeira frase que eu li em ingles na televisão e sem dúvida a primeira que aprendi a traduzir em portugues. Sabe, me sinto superfeliz e honrado em poder escrever algo sobre o que considero a melhor série mundial da televisão, que me perdoem os que discordarem, mas é assim que eu respiro Perdidos no Espaço! Ha cinco anos atrás eu adquiri a série inteira em Manaus e passei a exibí-la pra as minhas duas filhas: Vitória de 11anos e Vívian de 8anos. Sem inveção, elas adoraram e hoje sempre assistimos os episódios que guardo com muito zelo. Só ha algo que evitei: no final da série não tive vontade de assistir ao making off para não estragar minha visão do puro e do belo contida em toda esta obra magnífica. Pra mim, Zacaris Smith, é genial em tudo, se não recebeu o Oscar houve uma injustiça nisto, mas também quero elogiar todo o elenco que me fez rir e chorar de emoção ao longo de minha vida e espero ainda sentir eternamente esta sensação de ainda ser um pouco criança na vida. Como conselho aos Produtores e Diretores de cinema-televisão ha algo que é preciso ser feito para que nossos e os futuros filhos do mundo inteiro nunca esqueçam e que fazia parte da série Perdidos no Espaço: No final de cada epesódio sempre havia a chamada moral da história. Isto deveras, precisa ser resgatado.
    Francisco Vitoriano Filho, Brasileiro de Fortaleza-ce, Oficial da Marinha Mercante Brasileira, Comandante de navios da Patrobras/Transpetro.
    Um beijo a todos,

  7. Sou Psicólogo junguiano.Somente escrevo sobre Sincronicidade.Preciso de alguém que intermedie-me com o elenco de Perdidos no Espaço ou envie-me Email dos próprios com ou sem endereço.Tenho uma proposição que poderá ser do interesse dele.Favor atender ao meu pedido podendo ser importante.Grandes idéias surgem de locais mais inauditos.Aqui é Curitiba.Espero vossa presteza.Comuniquemo-nos.Na galeria atrás da Biblioteca´Municipal de São Paulo há uma loja com materiais de Perdidos no Espaço.Ela poderá intermediar-me.Quando ali estava,eu,em São Paulo,no ano 2.001,o atendente telefonara pasra Billy Mumy que parteceu dizer prestarem um auxílio para mim no futuro.Chegado-o?Wait.Precisaria saber do Email dela e,ou,a quem ali enviar carta,se preferindo.Meu ingles é ginasiano,ainda!

  8. Obrigado por toda a matéria e artigos sobre Perdidos no Espaço. Minha família e eu amamos essa série e tenho até algumas peças e o álbum dela. Não sou colecionador grande mas tudo sobre ela está mais que colecionada em minha mente, juntamente com as melhores lembranças da infância e de momentos inesquecíveis com meus irmãos em frente à TV, hipnotizados, fascinados, assistindo aos episódios de Perdidos no Espaço.

  9. Não se esqueçam também de: “Sua ignóbil lata de sardinhas…”
    Creio que Jonathan Harris era a alma daquela série. Um personagem que, se não existisse, “Perdidos no Espaço” estaria fadada ao insucesso e ao esquecimento.
    E ele, mais do que niguém dos que participaram desse projeto, soube criar e manipular tão bem um personagem.
    Sinto muitas saudades desses tempos em que, às tardes reuniamo-nos, eu meus irmãos, em frente à TV, para acompanhar mais algumas trapalhadas do Dr. Smith e do Robô (junto com Will Robinson, claro)
    Dr. Smith: Deus o tenha…Saudades!!!

  10. deus esta com o nosso dr smith com sertesa eu sou previlejiado de ter asistido perdidos no espaco decanse em paz dr smith obrigado por nos fazer nosas tardes felizes do seu fan wanderlei

  11. Pingback: Vilões Sci Fi e dos Quadrinhos « Sci Fi do Brasil

  12. Eu amo o Dr. Smith! Não tem nada de vilania as trapalhadas de uma pessoa que busca a sobrevivência, apenas se utilizando de manobras e sentimentos muito humanos. Que saudades! Hoje em dia nada tem graça porque todos são vilões. A serie e especialmente Dr. Smith, causa um aconchego que nunca mais se sentiu na televisão ou com qualquer outra coisa, fora as mensagens familiares, os exemplos de saude mental que a série expressava. Assisto constantemente os episódios de Perdidos no Espaço, e não canso de me deliciar com as peripécias do Dr. Smith.

  13. Olá! Gostaria de saber o número da revista Intervalo onde consta a entrevista da Hebe com Jonathan Harris? Obrigado, João Carlos.

  14. Tive a grata oportunidade de partilhar com milhões de pessoas durante a década de 60 algumas séries de televisão que nos remetia a pura e ingênua ficção. Sem maldades nem perveções que assistimos hoje em dia na televisão, Perdidos no Espaço faz parte de vida vida e de todos aqueles felizardos que se debruram em frente as suas televisões, ainda em preto e branco, para viajarem a mundos tão distantes com a família Robosn, o robô e com o Dr Smith. Eu sou um dêles!

    Que Deus abençoe a todos!

  15. Eu tambem sou felizarda por ter sido criança quando esta serie maravilhosa foi exi bida. Tenho 49 anos e ainda hoje assisto dr. Smith e todos os outros personagens fantasticos de perdidos no espaço.
    Diva – Fortaleza – Ce.

  16. Pingback: Perdidos no Espaço: O Clandestino Teimoso | SCI FI do Brasil

  17. Pingback: PERDIDOS NO ESPAÇO – Há 8 anos, o Lançamento dos DVDs no Brasil | SCI FI do Brasil

Comente o conteúdo da postagem

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s