Resenha: Doctor Who – Murray Gold (Trilha Sonora)


DoctorWhoCDMúsica composta por Murray Gold. “Doctor Who Theme” por Ron Grainer
Selo: Silva Screen
Catálogo: SILCD 1208
Lançamento: 2006
Cotação: ****

Em 2005 a lendária série sci-fi britânica Doctor Who retornou à TV, resgatando com uma roupagem moderna as aventuras do viajante espaço-temporal conhecido apenas como o “Doutor”. O sucesso entre fãs novos e velhos foi tão grande que ela não demorou para aportar nos EUA, onde a nova versão da série (já com três temporadas) também obteve grande audiência no Sci Fi Channel. O selo Silva Screen não titubeou e lançou este CD contendo mais de 75 minutos de seleções musicais de scores de episódios das duas primeiras temporadas, compostos por Murray Gold.

Sob um ponto de vista abrangente, o CD mostra a variedade de recursos empregados por Gold, um nome bem conhecido no meio televisivo britânico atual, na produção de seu material próprio – porções orquestrais dignas de um filme, que acompanham seqüências de ação em larga escala; guitarras elétricas e bateria em momentos pop; sintetizadores cheezy para momentos idem; os vocais femininos e melodias delicadas para momentos mais emotivos; etc. Fazer uma compilação destas nunca é uma tarefa fácil, por exemplo algumas das minhas versões preferidas dos temas ouvidos na série ficaram de fora. Mas sem dúvida o que temos é de ótima qualidade, e sem ser exaustivo destacarei a seguir exemplos das variadas facetas da trilha sonora de Murray Gold para Doctor Who.

Em primeiro lugar, não há como deixar de destacar o tema musical da série, originalmente composto pelo falecido Ron Grainer em 1963. É uma memorável composição eletrônica avant-garde que se tornou tão clássica no gênero quanto a de Alexander Courage para a série original de Jornada nas Estrelas. Sua melodia principal, “assobiada” num sintetizador retrô sobre acompanhamento igualmente eletrônico, captura com perfeição as alucinantes – e por vezes britanicamente bem-humoradas – aventuras do Time Lord. Meu primeiro contato com a série ocorreu em 2006, quando o canal pago P+A começou a exibir esta nova versão no Brasil. Já conhecia o tema original, mas fiquei surpreso quando ele foi utilizado na abertura do episódio. Bendito conservadorismo inglês… claro que, como aconteceu com a própria série, o tema foi ligeiramente modernizado por Gold, que à gravação original adicionou um ritmo mais forte e arranjos de metais e de cordas.

Este tema – “Doctor Who Theme – TV Version” – dá início ao CD, em sua versão curta ouvida na abertura de cada episódio. Impressionante como é um tema pegadiço, daqueles que, de uma hora para outra, se começa a cantarolar. Convenientemente ele também encerra o álbum em “Doctor Who Theme – Album Version”, uma versão estendida que acentua o caráter heróico do personagem, onde em sua seção intermediária o sintetizador é substituído por metais na condução da melodia. Como nas demais faixas orquestrais, temos aqui a ótima interpretação da BBC National Orchestra of Wales. No score dos episódios, em algumas ocasiões Gold também usa o tema do Doutor como base para algumas inspiradas criações. Em “The Doctor’s Theme” e “Seeking the Doctor” o tema – ou variação – é interpretado de forma suave e etérea por uma voz solo feminina, com acompanhamento de cordas, piano e flauta. Estas versões acompanham o aprofundamento emocional feito na personalidade do personagem título. Agora, as fronteiras entre luz e sombras estão mais tênues, e os inspirados arranjos de Gold expressam isso com acordes doce-amargos – tão bittersweet como o Doutor do século 21.

“Westminster Bridge” é uma faixa de ação que inicia orquestral, adquirindo tons mais pop no estilo Bond Music. A bem humorada “Cassandra’s Waltz”, dedicada à bizarra vilã sem corpo, traz theremin e uma linha memorável de piano, posteriormente agregados à orquestra. “Monster Bossa” é outra divertida excentricidade, iniciando com metais graves e logo se tornando quase um tango para clarinete e cordas, interrompido por uma breve irrupção de ação. A melancólica “Doomsday” traz voz feminina e elementos pop, para fechar a segunda temporada.

A ação continua com “Slitheen”, que possui ostinatos de cordas e a melodia em guitarra de “Westminster Bridge” agora interpretada por cordas e metais. O perigo se faz presente em “UNIT”, onde um motivo recorrente é acompanhado por orquestra, percussão e baixo. “Tooth and Claw”, extraída do episódio de mesmo nome centrado num lobisomem, é uma faixa de ação brutal, com coral masculino, percussão e intervenções em larga escala da orquestra.

De um lado mais harmonioso e emotivo vem “Father’s Day”, com seu piano suave, harpa e sintetizadores atmosféricos. A adorável “Rose’s Theme” traz o motivo ligado à companheira de viagens do Doutor, inicialmente dominado pelo piano mas em breve acrescido de belas cordas e sopros. “Madame de Pompadour”, do excelente episódio The Girl in the Fireplace, é uma melodia bittersweet, triste, com o piano num apropriado estilo de caixa de música acompanhado por discretas tonalidades de violinos e coral. Já “The Impossible Planet” é uma faixa de tom meditativo para cello, cordas e flauta, e “Hologram” traz um belo coral, arpejos de piano e sopros.

Momentos de suspense e tensão também se fazem presentes em várias ocasiões. “Rose In Peril” traz texturas orquestrais plenas, e a pungente “The Lone Dalek”, outra das faixas mais longas do CD, marca de forma inesperada o retorno dos mais célebres antagonistas do Doutor, os Daleks (criaturas que se abrigam em armaduras cibernéticas semelhantes a… saleiros), com ricas texturas de orquestra e coral. Em “The Daleks” as criaturas retornam com uma representação musical mais grandiosa e ameaçadora, pintada com sonoridades sombrias de coral, orquestra e sintetizador. Outros vilões cibernéticos clássicos, os Cybermen, se fazem presentes na obscura e finalmente movimentada “The Cybermen”, onde as criaturas são representadas por um marcante tema em seis notas. E em “Sycorax Encounter” os fortes metais sinalizam a aparição ameaçadora dos alienígenas Sycorax, e o perigoso confronto que se avizinha. Por fim, empolgação e heroísmo são trazidos em faixas como “I’m Coming To Get You” e “Rose Defeats The Daleks”.

Duas canções compostas por Gold e interpretadas por Neil Hannon, “Song For Tem” e “Love Don’t Roam”, para os episódios especiais de Natal “The Christmas Invasion” e “The Runaway Bride”, foram incluídas no disco. Apesar de interessantes, são dispensáveis, mas não é nada que nos impeça de embarcar nas fascinantes viagens musicais de Doctor Who. Como complemento a uma das melhores trilhas sonoras de TV dos últimos tempos, o CD traz um encarte de 14 páginas ilustrado com muitas fotos, com texto de introdução da produtora executiva Julie Gardner e notas explicativas de cada faixa pelo próprio Murray Gold.

Faixas
1. Doctor Who Theme (TV version)
2. Westminster Bridge
3. The Doctor’s Theme
4. Cassandra’s Waltz
5. Slitheen
6. Father’s Day
7. Rose In Peril
8. Boom Town Suite
9. I’m Coming To Get You
10. Hologram
11. Rose Defeats The Daleks
12. Clockwork TARDIS
13. Harriet Jones, Prime Minister
14. Rose’s Theme
15. Song For Ten (Neil Hannon)
16. The Face of Boe
17. UNIT
18. Seeking The Doctor
19. Madame de Pompadour
20. Tooth and Claw
21. The Lone Dalek
22. New Adventure
23. Finding Jackie
24. Monster Bossa
25. The Daleks
26. The Cybermen
27. Doomsday
28. The Impossible Planet
29. Sycorax Encounter
30. Love Don’t Roam (Neil Hannon)
31. Doctor Who Theme (Album Version)
Duração: 75:26

Jorge Saldanha

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Um comentário sobre “Resenha: Doctor Who – Murray Gold (Trilha Sonora)

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